08/07/2014












...até quando?

08/06/2014

sombra do tempo





rasguei o canto da folha

e levantei a sombra do tempo

nada vi senão a alegria estampada

em rostos de contornos difusos e brilhantes


alinhei as formas sem cor

                e senti uma dor singular

                que atravessou um corpo inerte

                e atingiu o centro da terra

não há horizonte nem fronteira onde morrem as flores



Irene Ermida

18/05/2014




"Muitas vezes, uma pessoa encontra o seu destino 

numa estrada que tomou para evitá-lo." 

La Fontaine

12/09/2013

Desejo calado




fecundada na nascente de um rio
nasce das pedras e do musgo
e corre nas veias do mar

uma embriaguez tortuosa agita as ondas e
murmura incontestáveis misérias surdas
e não diz 
o que no sangue corre

porque o sangue não tem cor
nem sabor, só vento e cegueira que
guia as mãos pelo centro da terra
inundada de seiva que
chove na boca 
de desejo calado.

Irene Ermida



08/09/2013

Olhar marginal



há uma certa marginalidade no teu olhar que
rouba a quietude como quem passa pelo céu e
rouba uma estrela

marginais palavras segredadas num sorriso e
o mundo avança mais depressa

e dias e noites enganam-se numa roda que
gira no prazer íntimo de um beijo

Irene Ermida

13/04/2013

...

perdido por amor
restava-lhe a sombra...
subiu o degrau e soltou o nada
(de mão estendida ao mundo)

o vazio cresceu na língua de terra
que o esperava.

nem era um instante 
nem era fragmento 
não era nada.

Irene Ermida






...

há uma estreita passagem
entre o absurdo e a lógica
na cor dos dias               que raptam a luz
e escurecem o olhar

há um entretanto             que permanece vivo
na luz das memórias 
e confunde a razão

hesitação

entre a ousadia de esquecer
e a vontade de querer.

Irene Ermida

29/01/2013

Há palavras




Há palavras que...

... nos atiram contra a parede e num telúrico movimento nos arrancam a pele
... lapidadas, nos afagam os cabelos e plantam o brilho no olhar
... fogem assustadas e partem para o esquecimento
... nos tocam com a ponta dos dedos e nos transformam em penas
... flutuam ao sabor da brisa com sabor a mar
... nos esmagam de espanto com promessas de esperança

Há tantas palavras coladas no beiral de uma boca amordaçada que diz tudo o que queremos ouvir...

E há o silêncio arrebatador de um fim de tarde:
            o sol despede-se e dorme
            a lua anoitece e sonha.
            Sem palavras!




Irene Ermida

Recanto(s) 3


Foto: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10151287104293426&set=pb.12383118425.-2207520000.1359467323&type=3&theater



são mudas e simples, mas voam 

presas por fios de silêncio

as estrelas que num murmúrio 


vagueiam e abrem portas invisíveis

são pontos e pontes crescentes

que esboçam caminhos de luz


e persistentes

nos recolhem em asas finas e resistentes

de um etéreo mistério.



Irene Ermida




26/01/2013

Recanto(s) 2






FOTO: Phillip Schumacher


um sopro feito impulso


acordado na madrugada de um adeus

separa vontades


e num recanto da despedida

há uma lua minguante

invisível à cegueira do olhar

e do sentir, que morre

no desabrochar de palavras


mudas e simples, mas voam 

presas por fios de silêncio.



Irene Ermida

21/01/2013

Recanto(s) 1

Foto: Tono Stano


há uma lonjura que me abraça

ínfimo recanto de uma indistinta melodia 

e entre a sombra e a luz existe


é uma ausência feita matéria

gerada por forças anímicas

que vacilante cintila na distância


um sopro feito impulso

acordado na madrugada de um adeus.

Irene Ermida





12/01/2013

Vermelho(s)


FOTO: José Terra

é de vermelho-vivo que se escrevem as histórias que perpassam tempos esquecidos em ramos nus de desejo de cor de sentidos sem sentido.

é de vermelho-sangue o espesso tronco que alimenta as raízes perpétuas e sólidas que respiram o ar quente de uma noite de verão e impelem avanços e recuos, conquistas e derrotas. 

é de vermelho-púrpura a árvore rasgada por rugas, marcas do sonho de uma beleza efémera talhada num rosto bafejado por correntes lúcidas e opacas desviado de um caminho inóspito e linear.

é apenas o absurdo cru de um vermelho refletido na alma de quem não sente
que a vida cintila nas estrelas
e que até elas têm fim.


Irene Ermida

07/01/2013

Tristeza



Há, por vezes, uma tristeza que me inunda os dias. Sem razão nenhuma. Apetece-me, simplesmente. Nela encontro o conforto de um calor contagiante. Sorridente. Trocamos olhares cúmplices e reanimamos memórias numa busca de ínfimos pormenores de histórias que nunca chegaram a acontecer. 

Uma melancolia com travo a mel que demora no paladar e percorre cenários impossíveis e imaginários, na tranquilidade de recordações que poderiam ter sido, ou foram. E renasço num grão de areia ou numa gota do mar.

Irene Ermida

Vela(s) 3





entrego-me aos ventos fortes

no meu barco de velas perdidas

e arrisco um naufrágio


parto ao sabor das ondas e sem pontos cardeais


não há portos à minha espera

nem saudades de improváveis regressos

só há uma partida indefinida

arrastada por marés e ventos

que me leva para distâncias

inconcebíveis de mim.

Irene Ermida











02/01/2013

Vela(s) 2


ofereço-me sem artifícios 

que velas sem pecado 


à mercê de desejos e fantasias 


numa renúncia vencida 

pelo sabor e aroma de frutos exóticos 

que apetecem e incendeiam 

numa volúpia faminta 

que nutre entranhas 

e apazigua a acidez do tempo

na penumbra de um corpo 

                                                                                Irene Ermida

01/12/2012

Pormenores




Fotos: José Terra


São sonhos transparentes
fragmentos de vidas inventadas
histórias expostas e dores traídas
Rostos esvaídos no suor
da nudez do amor reencontrado
São olhares, traços, risos
esboços perdidos e achados
numa geometria sem medida
Tempos engolidos pelo vento
com finais inacabados
e sem lágrimas chorados
Histórias recomeçadas
na aridez de frios desertos
presas às raízes arrancadas
São luas acesas no mar
de subtis texturas e contrastes
São gestos e sinais ininteligíveis
de quotidianos distantes
de gastas rotinas cruzadas
São memórias entrincheiradas
de linhas paralelas que deslizam
em faces calejadas
São retalhos em movimento
e emoções acertadas
na sedução dos corpos, afogadas
São pormenores de vidas, apagadas
Que renascem na grandeza de uma aurora.

Irene Ermida

19/11/2012

Vela(s) 1

Foto: Ana Paula Silva 
http://olhares.sapo.pt/velas-foto5087097.html



agasta-me o tempo que penso

em nada senão no mesmo

e por pensar não digo


porque pertenço à roda do silêncio


e há velas que se apagam

num sopro de anéis

entrelaçados e sorridentes

de uma poeira espessa 

à volta de um astro

tão opaco e tão distante.
Irene Ermida

02/11/2012

Escrever



Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...
 E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

Irene Lisboa

28/10/2012

Foto: .

"Fortunately women have the miraculous ability to change the meaning of their actions after the event... "
- Kundera

há tempestade no teu olhar
uma chuva torrencial que inunda 
o céu e a terra