25/12/2006

Esperança a quanto obrigas!


Ora bem... um pequeno exercício mental para agilizar ideias e impedir o envelhecimento prematuro:
«Passo a passo», «gradualmente», «em 2006 as coisas começaram finalmente a melhorar»...
Isto significa exactamente o quê?!
Após meses, e anos até, a ouvir a palavra «crise», vem agora o nosso primeiro com uma mensagem transmitir que algo (ou tudo?) «melhorou»!!!
Fica bem, sem dúvida, nestas épocas, animar as pessoas. Principalmente os idosos com menos recursos, os mais desfavorecidos, os mais pobres, os doentes, os que estão sós... Não, isto não pode ser demagogia... seria cruel demais!!!
Por mim, fiquei muito mais descansada... finalmente, vamos poder encarar o futuro com esperança!!! O que faz o espírito natalício!!!

24/12/2006

Gasta por dentro e por fora


Sinto-me gasta
Gastei palavras e sentidos
Gastei segundos e dias
Gastei esperas e chegadas

Abri portas e janelas
deixei entrar o vento
esse vento feito aragem
que me despiu e condenou

Dei palavras e sentidos
Dei segundos e dias
Dei esperas e chegadas
Dei tudo e nada
de nada e de tudo

Nem um único rasto
Nem palavras nem sentidos
Nem segundos
Nem chegadas

Uma vela
de fogos extintos
arde numa despedida
da indiferença
desmedida

23/12/2006

Porque a vida é feita de contrastes e de imponderáveis


«As primeiras horas da Operação Natal foram dramáticas nas estradas portuguesas. Até às 17h00 horas deste sábado, a Brigada de Trânsito registou nove vítimas mortais e o número de feridos graves é precisamente o mesmo.» ???

« (...) dois feridos graves e 15 feridos ligeiros

Dois choques em cadeia na auto-estrada que liga Bordeús a Bayonne, em França, envolveram entre 200 e 300 veículos.

Segundo as autoridades locais, a primeira colisão ocorreu às 08:30, devido ao nevoeiro,(...), tendo o outro choque em cadeia ocorrido em sentido oposto na mesma altura.» ???


Porque a vida é interrompida quando menos esperamos.
Porque o tempo foge sem condescendência.
Porque a amizade é um bem supremo.
Porque não há subterfúgios
nem refúgios
nem sentido
nem fé
sorri

Há poesia no ar...


Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.
Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei
Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,
Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,
Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.
 Fernando Pessoa

Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros - cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?
 Fernando Pessoa
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.


Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.


Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.
Alberto Caeiro

21/12/2006

Clapton - Have you ever loved a woman


Clapton - Have you ever loved a woman
Vídeo enviado por howlong
Have you ever loved a woman (de Freddie King)
par Eric Clapton au Royal Albert Hall en 1991 (24 nights)

Il y a notamment Buddy Guy et Robert Cray derrière

Voir également la version live de Hyde Park en 96 : http://www.dailymotion.com/video/1382517

Absurdos intermitentes 3

- Queres café?

- Não, não quero.

- Porquê?

- Prefiro leite.

- O café dá-te energia…

- O leite acalma-me…

- E é branco.

- Que queres dizer?!

- Só isso: é branco.

- Ah!

- E o café é preto!

- Afinal, o que queres dizer?

- Nada. Isso mesmo: o leite é branco e o café é preto.

- É uma constatação?

- Sim.

Absurdos intermitentes 2

- Hoje vais sair?

- Não, vou ver se escrevo.

- Sobre o quê?

- Ainda não sei.

- E se escrevesses algo sobre os crocodilos?

- Sobre os crocodilos?! Como assim?

- Sobre o que lhes fazem!

- O que é que lhes fazem?

- Matam-nos.

- Quem?

- Alguns, por aí. Não sei quem.

- Ah!

- Se os matam, morrem, não é?

- Claro!

- Claro, claro, não é!

- Então é escuro?

- Sim, até é! A morte é escura, ou clara?

- Nem uma coisa nem outra.

- Então o que é?

- Nada. A morte é nada, apenas.

- Para os animais irracionais também?

- Porque não?

- Talvez seja diferente…

- Talvez…

- Bem, até logo. Vê se escreves…

- Sim, até logo.

Absurdos intermitentes 1

- Porque mentiste?

- Não te menti.

- Não?! Então o que foi?

- Ocultei a verdade.

- Isso não é mentir?

- Não. É não dizer a verdade.

- «Mentir» e «não dizer a verdade» não é a mesma coisa?

- Bem vês que não.

- Se existe uma verdade ocultada deliberadamente, passa a ser mentira.

- Não, não passa… depende da intenção…

- Com que intenção escondeste a verdade?

- Não queria magoar-te, provavelmente…

- A verdade magoa?!… E a mentira, não?!

- Não magoa tanto… há verdades que magoam mais do que algumas mentiras.

- Consegues quantificar? Em quê? Em quilos ou em litros?

- Lá estás tu com ironias…

- A ironia é dizer algo com a intenção de exprimir o contrário! Também é uma mentira!

Quero escrever e abandonar o barco em que navego no mar alto.

Dilacera-me a aragem que sopra violentamente e caio no vácuo,

num movimento ascendente e despedaço-me em mil partículas,

que se soltam das amarras da unidade física.

Quero escrever e abandonar o barco que sobe ao pico da vaga medonha e forte,

e desce às profundezas do oceano estranho e belo.

Quero escrever.

Preciso de abandonar o barco.

A tempestade arrasta-me para longe e deposita-me no marasmo negativista da existência cruel e ambígua.

Quero afogar-me na solidão e conformar-me com a realidade ilusória e mentirosa.

Quero escrever o diário de bordo, testemunha do ondular perpétuo no azul e verde da viagem.

E partir!

E chegar!

14/02/1995

Máscaras

belas, aliciantes

verdadeiras máscaras

de hipócrita realidade!

transparentes e venenosas

coincidem com a falsa ciência da vida

em que o essencial

moldado pela eternidade

fatídica e cínica

rompe os fios condutores

da lógica do pensamento

07/06/1983

19/12/2006

Transpiração súbita


TRANSPARÊNCIA
TRANSLINEAÇÃO
TRANSTORNO
TRANSMUTAÇÃO
TRANSVERBERAÇÃO

Clandestinidade da palavra



ausência de palavras que ornamenta uma página
branca de vazios e de indiferenças
murmúrios ocultos de fosforescências
e sussurros intrépidos que ecoam na epiderme

uma ignorância epidémica de intenções
jorra de consciências abafadas e moribundas

selados os lábios
cerrados os olhos
seiva tornada raios de sol

18/12/2006

jerome murat


jerome murat
Vídeo enviado por segalier
A imaginação do ser humano não tem limites...

17/12/2006

Vagueei pela 7ª arte...



Duas comédias românticas possíveis só no cinema. Leves, para aliviar algum peso que teima em cristalizar-se no subconsciente desprevenido; provocaram-me, tanto um sorriso nos lábios, como uma lágrima ao canto do olho. Ambas as histórias com um ou outro episódio comum à vivência amorosa de cada um.
Na realidade, por vezes, o tom é mais trágico... Mas desenvolver a capacidade de rir das próprias desventuras, é um exercício que ajuda a encarar a nossa existência como uma passagem que não impedirá a rotação da Terra!


«No Alto da Serra do Marão»

Nunca resisto a entrar numa livraria e raramente saio sem ter comprado um livro! Vício, hábito, necessidade, não sei o que é... mas desde criança que esta atracção pelos livros me persegue, a ponto de sonhar em dedicar-me ao negócio ou viver numas águas-furtadas forradas de capas de todas as cores e feitios...

Recordo um dia em que apareceu, à porta lá de casa, um vendedor que apregoava humildemente uma colecção de clássicos a conta-gotas, de acordo com o orçamento apertado da altura. A minha mãe cedeu perante o meu insistente pedido para comprar todos aqueles livros que, hoje, preenchem uma das estantes do meu escritório e, que em tempos idos, já fizeram a delícia da minha imaginação.

Quando, nos tempos da faculdade, em Lisboa, me sentia mais melancólica, entrava numa livraria na avenida de Roma que primava pelo espaço e recheio e deambulava por ali, tocando, folheando, lendo um outro parágrafo deste ou daquele rol de palavras, fruto do esforço e do talento de mentes aturdidas pelo universo da criação literária.

A feira do livro era local obrigatório, diariamente, enquanto durasse… parque Eduardo VII acima, parque Eduardo VII abaixo, sem pressa, sem pés reclamando de tal peregrinação e sempre na ânsia de ver o escritor que, entre sorrisos, dava autógrafos.

Incuti no meu filho, felizmente com sucesso, o gosto pela leitura desde a mais tenra idade, tanto que, quando descobriu que por magia da professora não precisava mais da mãe para ler as letras impressas, insistia em ler às escondidas, quer na cama até altas horas, à luz de uma lanterna, quer na escola, a ponto de lá ser chamada para tomar medidas.

Nas mil vezes em que fui confrontada com a pergunta: «Mãe, que gostavas que eu fosse quando fosse grande?» descontrolei-me na última: «Escritor» respondi. «Mas tu é que sabes o que queres» acrescentei. E soube… frequenta o curso de Tecnologias da Informação e Comunicação…

Ontem, enquanto procurava uns livros aconselhados por um amigo, fui abordada gentilmente numa livraria do Porto: «Por acaso reparei que folheou aquele livro e gostaria de lhe falar mais um pouco sobre ele.» E eu deixei-me levar por aquele empolgamento próprio de alguém que «deu à luz» um punhado de páginas escritas e que baptizou: «No Alto da Serra do Marão». E não resisti: comprei o livro, não sem antes ter pedido ao autor uma dedicatória: «Nunca percas a fé e a esperança. Segue os trilhos do teu coração e encontrarás a felicidade. Do amigo Paulo Monteiro

Frase feita?! Talvez… é irrelevante. Merece a minha consideração e respeito pelo simples (e tão complexo!!!) facto de ser escrita por alguém que ama as palavras.

15/12/2006

Lateralmente...




«O homem e a mulher são como os dois pés:

precisam um do outro para avançar.»
E quando um deles, ele ou ela, é coxo(a) ?!

14/12/2006

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absorvida pelo vácuo das palavras
enclavinho fantasias e evocações
envolta num branco implacável de nostalgias e de nevoeiros