31/01/2007

Miopia(s) 1

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um imperador turvo
impera num sem sentido
descoberto de sentidos
não dorme sonos indolentes

sem sonhos sem quimeras sem ilusões
míope de honras de louros de triunfos
apela grita e risca
avidamente

penedos e rochedos
abalados tremidos assustados
sedimenta diáfanos sóis
luzentes ardentes cegos

ditosos caminhos percorridos
de um futuro adiado
mas apetecido

30/01/2007

Lufadas de humor fresco!


Gato Fedorento - Assim Não

Curiosidades:

Portugal
tem uma superfície de 92 100 km2. O território continental (88500 km2) inscreve-se num rectângulo com 560 km de comprimento por 220 km de largura!!!

População: 10 569 900 habitantes

Língua oficial: hipocrisês, falada principalmente por mentes iluminadas à força de tanta literatura consumida avidamente, para ser «despejada» uma vez por semana perante as câmaras de televisão...

29/01/2007

Mundos à parte

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O Universo, na sua acepção cosmológica, exerceu, desde sempre, um desmedido fascínio no Homem que se dedicou a encontrar explicações para a sua origem, existência e até futuro.

"E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há-de retornar para ti, e tudo na mesma ordem e sequência."
Retirado daqui

Nietzsche concebeu a teoria do eterno retorno que assenta no pressuposto da existência de um movimento circular do tempo e das coisas, o que implicaria que tudo voltasse a acontecer uma infinidade de vezes. Por exemplo, amar a vida com o máximo de intensidade, significaria que isso se repetiria infinitamente. É linda esta metáfora, não é?!
Aliada ao amor fati poderia ser uma alavanca para nos apartar dos momentos desagradáveis com que o quotidiano nos vai pulverizando.
Lembro-me de A vida é bela, um filme que merece uma reflexão pela abordagem que faz do lado negro da vida digerido de forma positiva.

Este devaneio germinou a partir da visita ao sítio: the elegant universe uma aliciante sugestão do nosso já habitual comentador pirata vermelho.
Vale a pena!!!

As palavras

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São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

28/01/2007

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uma cordilheira de beijos paralisados
por espasmos soluços e prantos
gira numa roda de fogo e de gelo

anulam-se contínua e reflexivamente
sem deter entusiasmos ou cansaços
adormecem vontades
sem dramas, com tragédias
com dramas, sem tragédias
numa constante comédia circense
com actores que padecem
de imperfeições humanas
passadas presentes
e nos bastidores ocultos da solidão
resvalam para o apoteótico palco
de leve espuma durável

Claridade(s) 3

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a noite é um crepúsculo permanente de dúvidas sobre certezas tão definitivas como as estrelas que assinalam mais um firmamento perfeito alienado insensato de intuições infalíveis e evidentes que turvam a razão

a eloquência serena de prestidigitador inflige incisões no curso de água que corre solto pela face crestada pelo fogo de qualquer paixão indomável extensa perene nutrida de olhares oprimidos e candentes que suspendem o destino


25/01/2007

O último de Mel Gibson

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Programa de quarta-feira à noite numa cidade vigiada pelas montanhas sem neve do Marão:

Jantar de amigas em casa de M.M. seguido de uma ida ao cinema...
Após uma agradável conversa à volta da mesa recheada de boa comida (parabéns à cozinheira) regada com um bom vinho (não me perguntem qual, por favor...) lá fomos nós satisfazer a nossa curiosidade cinematográfica...
M.M. gosta de história e sabia tratar-se da civilização Maia; eu tinha visto a apresentação do filme e pareceu-me tratar-se de um épico a meu gosto; O.D. não queria ver pois tinha ouvido dizer que tinha duas ou três cenas violentas...

Prós: a fotografia do filme é notável; o desenrolar das cenas impede qualquer sonolência; tem uma alternância de planos interessante...

Inconvenientes: interdito a espectadores impressionáveis e susceptíveis a contracturas musculares, provocadas pela tensão contínua do início ao fim do filme! Quem vai à espera de aprender alguma coisa mais sobre a civilização Maia, esqueça! E ainda há que ter um grande fôlego para acompanhar a correria do Pata-Jaguar...

Apreciação global: contrariamente ao meu hábito, passei o filme a tecer comentários irónicos para aguentar a pressão; MM escondia o rosto nas cenas mais chocantes (tipo sangue a jorrar qual torneira aberta...); OD pagou o bilhete e não deve ter visto nem dois minutos seguidos, tal o horror que lhe provocava a tela! Ainda lhe emprestei os meus óculos de sol mas não resultou!

Decididamente, mal por mal, prefiro o inofensivo Mel Gibson quando lê e ouve o pensamento das mulheres!

24/01/2007

Claridade(s) 2


Fracciono-me num arco-íris enquanto a imagem espelha o espectro solar; a decomposição da luz através do prisma óptico afirma as leis da física. Tudo é como deve ser. Tudo está como deve estar.

O centro do sistema planetário ofusca a visão e determina os fantasmas que, de mão dada, porque não?! impingem a maior burla do século e, de pernas para o ar, movo-me respeitosamente por entre os vultos distorcidos e apaixonados... que extensão? que horizonte? que metas?

Avanço e recuo ao ritmo sincopado de palavras cavadas em imbecilidades caseiras - ora viva, como vai, como está essa saúde, está muito frio, o café é muito bom - brilho, porque ainda reservo a força na alma como se a tivesse.

Aliança, conexão, ponte: porque o outro lado existe.

23/01/2007

Claridade(s) 1

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Após uma semana de descanso regressei à minha rotina laboral (soa a linguagem sindical?!)...
Deparei-me com uma pilha considerável de papéis na minha secretária que provocou a imediata vontade de partir. Saliente-se que metade eram cópias do sinistro D.R. !!!
De arma em punho, rabisquei assinaturas, escrevinhei «autorizo», «deferido», «indeferido com base na alínea tal do ponto tal do despacho normativo tal...», «cumpra-se», recitei vagarosamente parágrafos ao meu cérebro que, incauto, lá ia absorvendo o que podia...
Aquele aparelho que serve para comunicar à distância sobressaltava-me, de vez em quando, com uma campainha que devia ser proibida em qualquer parte do mundo, de tão irritante soar!
O computador ligado, alheado e contemplativo, servia para passar os olhos, distraidamente, pelas primeiras dos jornais.
Não conformado a esta letargia, o meu orgulho profissional, ferido, demonstrava eficácia e determinação nas decisões.
Consciente do dever «comprido», regressei a casa ao fim do dia. Como quase sempre, a última a sair... o guarda-nocturno, com um encolher de ombros, saudou-me e repetiu, como quase sempre: tem que ser, não é?! Respondi energicamente, mais pelo arrepio de frio que me atravessou o corpo ao sentir a diferença de temperatura, do que por convicção: Pois tem!

21/01/2007

1,2... experiência



«Ver para crer» é um atributo que, por vezes, alguns usam para qualificar a minha incredulidade e cepticismo em relação a alguns assuntos mais, ou menos, sérios... se bem que, está clara a minha dissociação de qualquer santidade que possa suscitar esta classificação!
E, por isso mesmo, num ambiente de secretismo prudente, qual enredo dum policial tecido à volta do suspense, com o fim de manter o leitor apreensivo até ao último momento... deixo aqui uma única palavra:

sexo

Cenas do próximo episódio, só mesmo quando o meu «eu» estiver confrontado com resultados credíveis...

Intervalo para um filme



Este filme de Tony Scott, com Denzel Washington como protagonista, aborda o fenómeno do déjà vu, num ângulo de projecção do passado no presente, permitindo regredir no tempo, através de um aparelho que proporciona a viagem até ao momento anterior ao drama da explosão de um ferry de Nova Orleans, e modificar assim o rumo dos acontecimentos, salvando centenas de inocentes.
Não sendo o meu género de filme, dificilmente posso emitir opinião favorável. Uma corrida contra o tempo que nos provoca uma sensação de cansaço no final...

Esta expressão «déjà vu» que, pronunciada em bom francês, dá um toque de requinte a qualquer conversa, equivale a dizer «já visto». E esta sensação de um «flash» particular que nos dá a impressão da situação nos ser familiar, quando materialmente é impossível, tive-a há uns anos atrás...

Acompanhada de uma amiga, parti de férias sem rumo e, quando dei conta estava no Algarve, mais precisamente em Armação de Pera, onde nunca tinha estado anteriormente. Por nenhuma razão especial, decidimos montar a tenda (belos tempos esses de campismo!) por lá. Quando, ao entrar no parque, tive esse flash! Conduzindo até à recepção do parque de campismo, tive a nítida sensação que já ali tinha estado, repetindo os movimentos e até palavras! Mesmo as que proferi, quando comuniquei à minha amiga: «tive agora um déjà vu»!

A ideia da possibilidade de viajar até ao passado apresentada no filme, suscitou-me uma reflexão: se, de facto, tivéssemos a oportunidade de voltar atrás, o que mudaríamos nas nossas vidas?!
E não acredito que ninguém quisesse mudar rigorosamente nada!

«Se vão da lei da Morte libertando»



Sou renitente a comemorações dos nascimentos e dos centenários de escritores! O universo literário produzido e alimentado pelo criador impõe-se pela sua grandeza plurissiginificativa e singular, e realiza-se numa intemporalidade à prova de datas, de interesses e de protagonismos oportunistas que, subitamente, emergem de nenhures para celebrar a obra e vida de quem transpirou palavras e sonhos.
Também há quem, reconheço, se dedique à causa despretensiosamente... porque a cultura, para esses, é uma vocação, uma opção de vida, um modo de estar.
Seja como for, é nestas alturas que temos raras oportunidades de assistir a alguns eventos que evidenciam as facetas de Miguel Torga, por isso, aconselho a visitar: Centenário do Nascimento de Miguel Torga, no site da Delegação Regional da Cultura do Norte, onde se pode consultar a respectiva programação.


Perfil

Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica já varejado.
Já nascido em pecado,
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não caber
em nenhuma medida.
Miguel Torga

20/01/2007

RESPIRO-TE



Caminhei junto ao mar e porque te sinto, apesar de tudo!





respiro as ondas e sorvo as palavras
que te dançam num abraço
e te cantam num hino de ave

imenso excessivo intenso
beijo desfralda as velas
navega entre os dedos
e num passe de magia
enrola-se
no estrépido aplauso das ondas

voejas alheado das dunas
que escondem raros e preciosos
cursos de água doce
e repousas quieto
na ilusão de esperar

17/01/2007

Dizer-me de ti



Caminhei junto ao rio e porque te digo e te penso, apesar de tudo!


dizer-me de ti:
erro numa ausência prescrita
pelo teu olhar que me importuna
de noite de dia
de dia de noite

a tua ausência vem do mar
da lua do sol
da areia do rio
do campo da cidade
do perto do longe

não sucumbir
às tuas palavras
que de tão ocas
fazem sentido
no limiar do absurdo

tingir o teu cabelo
adulterar os teus olhos
mudar a tua voz
até que a ínfima minudência
detenha memórias
e enfim
dizer-me sem ti

16/01/2007

Um parêntesis na desorientação



Egon Shiele

Um parêntesis no tempo e na vida que cinge pensamentos soltos, como se numa cela existisse. Uma luz lúgubre denuncia a odiosa janela atravessada por execráveis barras de ferro.
Cinzentos, os tons de sombras despovoadas e de cores matizadas, exumam do esquecimento o alvoroço remoto, enquanto o vermelho abominável dos olhos tão doces e devassos serpenteia pelo trajecto sinuoso e arqueado.
Afastou-se, desferindo golpes de brilhos robustos e vigorosos:
- muito bem, passe à frente que é a sua vez!
Lajeou a extensão que se lhe deparava, subitamente, e ergueu um palácio de mármore.
A mágoa derreteu castelos e trevas e sumiu entre árvores enfermas e derrotadas.
Ergueu-se num suspiro que trepou pelas nuvens, agora extintas de branco, e dissipou ternuras dolentes de afecto e gritou:
- é a sua vez! retire-se!

14/01/2007

(DES)orientação sem parêntesis!!!



Recordo a expressão e reacção da minha avó, quando lhe anunciava provocatoriamente alguma novidade mais adiantada no tempo e ideias: - então... - dizia com um encolher de ombros simultâneo.
Não a entendia nessa altura, mas dava-me especial prazer a sua atitude de indiferença e resignação...
Já cheguei ao ponto em que compreendo esse olhar distante, como se o mundo a ignorasse e ela retribuísse da mesma forma, como se ambos vivessem numa irreconciliação sem retorno!
Mas, de quando em vez, concedo-me um parêntesis preenchido com alguma indignação ou, pelo menos, espanto!

Então o ministro da Saúde tem um sentido de humor tão refinado que se permite tecer «piadas» em público, sobre enforcamento ?!
Tempos houve em que momentos infelizes do género implicava a demissão!

(DES)orientação!


Quem está no terreno conhece bem as dificuldades decorrentes de mais uma experiência pedagógica! Esta, no âmbito da língua portuguesa, que tão mal tratada tem sido...

A TLEBS - Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário - gerou uma enorme confusão nas escolas, dado que a formação específica na área foi restrita e deixou de fora a maior parte dos docentes, que se viram confrontados com o facto de aplicar a nova terminologia nas aulas, sem tempo para a devida preparação.

Mas, como no reino do faz-de-conta vale tudo, leia esta notícia do DN.

Aqui, no DGIDC pode consultar mais informações sobre este tema.

E ainda a propósito...

E agora?! Se achar que deve, assine a Petição!

REcuos 1, 2 , 3


Jornada enebriante
Pôr do sol encandescente
Obscuridade estonteante

Rompo estrelas pelo universo dentro
Na esperança de encontrar o cometa
Maléfico e bemfazejo
De um luar mitológico e distante

Jaz no planeta monstro
Segue a tua viagem
Clareia o dia
E sufoca as margens
Da vida perene e fácil
De tão míope e viril.

29 / 09 /2004


A angústia devora os nervos do meu ser …
A saudade amordaça-me e impede o grito que se gera cá dentro…
A solidão é o monstro que me priva de alcançar a luz
que se infiltra através dos quadrados da minha cela…
A loucura é a evasão à irracionalidade e o encontro da doce alienação,
da qual emerge a felicidade!

15/09/1983


Esperança
Que vacila
E se perde.
Cansada e viva,
Extenuada.
A madrugada vem
E renasço.

O sol não se põe
e a luz ofusca a razão.
Cega-me a claridade
Da lua cheia, esmoreço.

A lágrima hesita
E une-se em fio
À minha desgraça.

E tu dormes
E não sonhas.
Não vês o buraco
Onde caio.
Acordas e vais,
tonto e apressado.
E não tropeças
Nas lágrimas
Que não viste.

06/10/95