07/04/2007

Rascunhos 2

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.http://www.1000imagens.com/foto.asp?idautor=45&idfoto=215&t=&g=&p=


uma equação de primeiro grau
alimenta o patamar onírico de sintomas derrotados por cálculos impossíveis

extrair energia do interior do átomo
numa missão que só a nós dois contém
alimenta a fogueira de cor vermelha
de rubores e suores

as nossas partículas convivem numa comunhão efémera
porque o amanhã não se adia e permanece
imutável nas leis da física

uma exponencial descoberta repele os corpos de carga positiva
como se diferenciais de tónicas desintegrassem núcleos
e induzissem uma tempestade de estrelas


04/04/2007

Rascunhos 1

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rascunhos impróprios
de ensaios vividos
mal bem
de mim dos outros

de quem sem olhos nem boca se liberta da espuma das ondas e do sal do mar e do doce do rio
sem dó e com vazios de pó preenchidos e gastos de sentidos e de afectos

pulverizada
repartida
e
ferverosa
de ideias animadas de vida e de substância
subtrai mágoas
acrescenta entusiasmo
e desafia poucos e todos
até um dia?!

Papoilas...

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Foto que prima pela sua má qualidade, pois, captada que foi por um telemóvel (o meu...!), hoje, durante a minha caminhada ao fim da tarde. É curioso: encontrei-as no passeio duma avenida da cidade que é ladeada por alguma vegetação.
Recuei uns passos e, de repente, vi ali este par. Lembrei-me do comentário do jg... e decidi fotografar a prova de que, realmente, existem ainda papoilas, quando menos se espera e quanto menos se procura!

02/04/2007

libertate




«Ele era um ponto fixo num turbilhão de mudanças, um corpo firmado numa imobilidade absoluta, enquanto o mundo corria através dele e desaparecia. O carro tornou-se um santuário de invulnerabilidade, um refúgio onde já nada poderia magoá-lo. Enquanto conduzia, não carregava fardo nenhum e nem a mais ínfima partícula da sua antiga vida poderia estorvá-lo. Não quer isto dizer que as recordações tivessem sido apagadas, mas a verdade é que já não pareciam provocar nele nada que se parecesse com a angústia de outros tempos.»


Esta citação de Paul Auster na sua obra «Música ao Acaso» refere-se à personagem principal que perdeu a antiga identidade e evoluiu para um estado de total liberdade interior, sem qualquer amarra ao mundo que o rodeia, sem ter nada a ganhar ou a perder.

Até que ponto somos realmente livres?

Ou aspiramos a sê-lo?

Será este o estado ideal?!


29/03/2007

da vida 3

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definitivamente o verde emoldura a tela
e papoilas adormecem
e contrastes
que se desfazem
que se renovam
que se enaltecem
sem cinzentos de nuvens e de águas
com azuis brandos de amor
de morenos que sabes ter
nas mãos revelas
palavras
sólidas de dúvidas
de momentos incertos
de inconstante firmeza
aqui e ali
na direcção indicada
de sons surdos
sorrisos
desenhados nas curvas dos teus lábios
sem marasmos recônditos
extenuados
numa simplicidade por si


26/03/2007

da vida 2

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da vida e do tempo que se perde
em minutos de sofreguidão
rumo a incertezas que se inventam
és certeza em mim
convictamente acordada
de temores e distâncias
que se encurtam
de tão perto que te ouço
respirar
submetida por palavras
escondidas
em gestos reprimidos
de ternuras desejadas
regresso
daí onde adormeces
adiada por excessos de dias
espero
porque quero e porque sei
essa espera
de pétalas feita

20/03/2007

Insólitos (3)

Porque nem só de coisas sérias "vive" este blogue...

Muita imaginação!!! Até no pormenor do preço!

Em que estaria a pensar o(a) autor(a) desta frase?!

18/03/2007

da vida 1

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limpa
quero ser
e
imagino um bosque
atrofiado de fantasmas
entrelaçados
nos ramos das árvores
agitadas
por ventos quentes

numa solidão de loucuras
de sintomas
de indícios
assisto à serenidade do regresso
na beleza da história
leio os vazios
crescentes de ânsias e de versos
resisto aos encantos obscuros
de sóis pungentes
e transfigurada
persisto na saudade do efémero

Insólito(s) 2

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Visitei o blog 'troca de olhares' e deparei-me
com uma citação (que não conhecia) de António Lobo Antunes:

«Esquecer uma mulher inteligente
custa um número incalculável de mulheres estúpidas.»

Fiquei a pensar com os meus botões se,
em vez de «mulher» estivesse «homem»,
os termos da oposição dicotómica inteligente / estúpido
seriam os mesmos...
Talvez seja assunto para reflectir, ou será que não?
Afinal, o que faz uma mulher não esquecer um homem?!

17/03/2007

Projecção 3

 porque nunca há porquês


Foto: http://www.photoforum.ru/
projecto olhares
longe do pensamento
indefinido

ali me sento
esquecida
de trapos e de ideias

da tua voz
em contrastes de sons
espartilho as palavras
que ditas em gestos
é por aqui
ou por além
desvio-me
da metáfora que és
e encerro-te
numa hipérbole de sonhos


Projecção 2




Foto: http://www.1000imagens.com/

dissolves-te
na minha mão trémula
que embala o vento

a tua imagem distorcida
celebra-se no espelho

- sem lágrimas -

descompassada
deslizo os dedos
e desenho-te no meu corpo

no hálito quente da noite
adormeço

Projecção 1




Foto: http://www.1000imagens.com/
em sombras esbatida
inclino-me
e vejo-me
suspensa nos teus olhos

sou ténue projecção
nas águas estáticas do rio
desagregada em areias

recolho-te nos meus lábios
o tempo recua
e o futuro
foge desse instante
despenho-me
numa esperança teimosa
e num doce sorriso
espero-te

Dança contemporânea

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"Daqui em diante" pela Companhia Olga Roriz

Um espectáculo inolvidável! Mas estou na minha fase anti-cultura! Saí no intervalo (eu e uns tantos outros). Não fiquei bem na «fotografia» mas a idade tem destas vantagens: já não se liga a isso!
A selecção musical é óptima e o cenário, essencialmente minimalista, é sugestivo. A luz e o som ajudam... Os figurinos insinuantes, versáteis, humanos...
De dança contemporânea... gosto muito!
Mas a fase dos absurdos já lá vai! Os meus já são suficientes!
A noite acabou por ser salva numa animada e divertida conversa de café ao sabor duma caipirosca! Valha-nos isso!

14/03/2007

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(Des)articulação 3

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no ponto desarticulado
desci pelo íngreme firmamento
oblíqua de vazios

arada de incursões
caminhei
perpendicular a mim própria

desprovida de ódios
cultivei afectos
distantes do tacto

e sucumbi à sedução
sem medos à porta

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(Des)articulação 2

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http://pt.trekearth.com/gallery/Asia/Japan/photo396897.htm


e num passo desarticulado de ritmo
determinei o meu compasso
de vida

avancei na impossibilidade
de cair

privada de visão límpida
adiei uma invisual certeza
e voei na escrita
e encontrei-me

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(Des)articulação 1

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um inconcebível desígnio
cruzou serenidades e desassossegos
e
numa indomável tempestade
arranquei punhais de pedra
que feriam gestos e olhares

uma insípida indiferença irrompeu
ao virar da esquina

escoei-me em movimentos
e
desarticulei-me em sons

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Segunda descida à Terra


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No post « Descer à Terra» de 2 de Novembro de 2006, escrevi: «sempre atenta ao sinal sonoro que anunciava o número de chamada e o respectivo balcão de atendimento. Cerca de uma hora depois, lá consegui vislumbrar o meu número no écran de uma das televisões colocadas a dois metros e tal do chão, o que constitui um verdadeiro teste à visão e ficamos sempre a pensar que a nossa miopia se agravou e que vamos usufruir das vantagens da idade naquela óptica dos anúncios televisivos...»


Ontem, uma nova deslocação aos mesmos serviços e, quando procurava a informação do número e respectivo balcão de atendimento, deparei-me com os écrans desligados, ali moribundos...
E porque, por vezes, me apetece ser estúpida, pedi ao funcionário a informação: «tem que aguardar a sua vez e ver quando aparece ali no plasma». Ah! «Plasma» é a palavra secreta!

Esta eficiência provocou-me um arrepio. Olhei à volta e ali estavam eles: dois plasmas colocados estrategicamente, apresentando, do lado esquerdo, uma pequena imagem muda do jornal televisivo e, do lado direito, o número e o balcão de atendimento em letras suficientemente grandes para uma visão mais míope.

Os anteriores aparelhos jaziam ali, estáticos e obsoletos, a dois metros e tal do chão.
Fiquei contente pela opção de ver os meus impostos assim aplicados !!!

13/03/2007

Rotação (1)

http://www.photoforum.ru/photo/163798/index.en.html


O despertador avisa que são sete e quarenta e cinco minutos. Embora a vontade seja adormecer novamente, levanto-me!
Adivinho uma longa jornada, mas nem imagino quanto!!!

Oito e meia da noite, entro em casa. De rastos!
Ligo para alguém por uma questão profissional e acabo por receber uma péssima notícia!
Há dias assim...
Encho a banheira, acendo umas velas, mergulho na água morna e fecho os olhos. Desfaleço!
E choro...

11/03/2007

Insólito(s) 1

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Foto: http://pt.trekearth.com/


Um instante insólito, enquanto caminhava ontem ao longo da praia, sucedeu-me inesperadamente.
Dedicava-me ao meu exercício de desentorpecimento do corpo e do espírito quando, repentinamente, me senti «uma ilha»!
Havia o mar, o sol, as pessoas mas, como uma ficha desligada da corrente, experimentei uma sensação de que tudo à minha volta era um imenso absurdo!
E pensei: se me evaporasse agora, tudo continuaria exactamente igual por milhares de anos!
Afinal, o que marca a diferença?!