26/08/2007

uma troca de olhares felinos...

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Foto: Caminha, 28 de Julho


fitou-me... fitei-o...

íris verdes (... traição?!)

e castanhas ameladas (... leais!)

fundiram-se por instantes

numa desconfiança mútua

suavizada pela imobilidade que,

recíproca, nos surpreendeu.


14/08/2007

Sem peias...



Porque há textos que valem a pena serem lidos e divulgados!
Porque Torga, escritor genial, alheio às comemorações do centenário do seu nascimento, merece!
Porque há quem saiba entender a sua intemporalidade:
Parabéns à autora!

09/08/2007

Parque Natural de Aiguestortes y Estany de Sant Maurici.



Impressões de uma viagem:

Mais perto do céu, a noite é mais escura e as inúmeras estrelas brilham com mais intensidade...

A água gelada e cristalina segue o seu curso selvagem ao sabor de desejos inconfessáveis das pedras que a acariciam...

Verde é a paisagem que, a perder de vista, entre vales e montanhas, nos faz sentir tão insignificantes...

Sensações acentuadas por risos, música, aventura, espírito de colaboração e de comunhão com a natureza que, num gesto de humildade, se nos oferece com toda a sua imponência, apesar de tão frequentmente maltratada pelo ser humano...

05/08/2007

Bordertown não é só um filme...

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«Bordertown - Cidade Sob Ameaça», não é um filme; é uma denúncia que traz à luz um cenário de morte e de medo, vivido por centenas de mulheres que trabalham nas Maquilas, fábricas mexicanas instaladas ao longo da fronteira com os EUA, e onde se procede à montagem de aparelhos electrónicos para o mercado americano.
Um filme recomendado pela Amnistia Internacional, que nos obriga a reflectir sobre esse submundo de produção desenfreada para atender a interesses económicos à custa do sofrimento humano.





acrobacia(s) 3

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extática...
abro portas e sorrisos
de moradas esculpidas por magia

numa vertigem entreabro os olhos
e por acasos atravesso mundos
indefinidos e enigmáticos
que se estendem rubros e dóceis
adiante e algures de tempos
riscados em céus por estrelas
e borboletas de vidro
sem ventos que me levem
entrego-me sem parêntesis
nem todavia mesmo assim
a partilhas de tudo e nada
sem razão nem algo
que me acorrente a reticências
ou a palavras tolas e vãs
vibro num ocaso que nasce
e aquece após e antes
até insondáveis sem fins
que invento em ti

04/08/2007

Para pensar e não esquecer

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Em descanso mas não distraída... É importante que façam pausa na música de fundo do blogue.

25/07/2007

acrobacia(s) 2

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atrevida...
lanço o olhar
para horizontes esquecidos

numa vertigem abro os olhos
com brilhos nítidos e explícitos
dou corpo à voz
que, em vogais abertas
define o timbre
e em tónicas a intensidade
articulo preposições
contraídas com artigos
que rasgam histórias vividas
e renovam interjeições
há tanto refreadas
de emoção natural
a frase exclama prazer
adornado de sorrisos
como flores viçosas
que entoam baladas
e me acordam em ti

17/07/2007

Partir e ficar

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Na véspera de uma viagem sofro de um síndrome de querer-partir-querer-ficar. Adio os preparativos até ao último momento. Invento compras de última hora, desculpas que me falta isto e aquilo, elaboro listas do que preciso de levar, enfio no saco, tiro do saco, ligo a A ou a B, digo que já não me apetece ir, que a viagem vai ser cansativa, que da próxima faço de outra maneira, não durmo com medo de não acordar.
Saio daqui a cinco horas e lá vou rumo a Parc national d'Aigüestortes et lac Saint-Maurice.
Mas, desta vez, não queria ficar nem partir, queria só que já tivesse passado...

Escolha ou destino?

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Foto: Caminha, 27 de Julho


Conta-me sempre a mesma história, todos os anos, neste dia 16. Fui para a praia e andava muito bem, até molhei os pés. As águas rebentaram e no regresso a casa, o teu pai levou-me à clínica. O médico já não queria deixar-me sair mas eu pedi-lhe que me deixasse ir a casa buscar a roupa. E lá fui. E por lá fiquei, convencendo o teu pai e os teus tios que não era ainda a hora, que das outras vezes não tinha sido assim. E só ias nascer em Agosto! Às cinco da manhã caí da cama e não reprimi o grito. Todos acordaram. Foram buscar o médico. A tua tia foi a parteira. Quando o médico chegou já tinhas nascido.
Ninguém me tira da ideia que escolhi a terra para nascer, aproveitando as férias dos meus pais em Caminha!

13/07/2007

acrobacia(s) 1

circense...
mantenho o equilíbrio
a alturas distantes da ordem

numa vertigem fecho os olhos
à esquerda e à direita
num fio da navalha
de dentro de fora
de perto de longe
de tempos a tempos
de muito de pouco
de tudo e de nada
num desafio a limites e a regras
medievais ou barrocas
às claras e às escuras
a torto e a direito`
de manhã e à noite
em contramão e veloz
transfiro-me
desconjunto-me
desarticulo-me
desmancho-me
em acentos e em sílabas
porque não dói cair
o que dói é
manter o prumo

11/07/2007

Página 161

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Foto: Marcus Lindner http://www.ars-erotica.org/


«No entanto, não extraía dessa conclusão teórica forças suficientes para fazer o que ardentemente lhe exigiam reaparecidos instintos: passar a ponta dos dedos pela acetinada pele, poisar os seus lábios matrimoniais sobre aquelas colinas e ribanceiras que antevia tépidas, odorosas e de um sabor no qual o doce e o salgado coexistiam sem se misturarem. Porém não lograva fazer nada, petrificado pela felicidade, excepto olhar e olhar. Depois de ir e vir repetidamente da cabeça aos pés daquele milagre, de percorrê-la uma e outra vez, os seus olhos imobilizaram-se, como o requintado provador que não precisa de continuar a degustar pois identificou o non plus ultra da adega, no espectáculo que só por si constituía o esférico traseiro.»

in Os Cadernos de Dom Rigoberto de Mário Vargas Llosa / Mario Vargas Llosa

Publicações Dom Quixote

08/07/2007

Blues do outro lado do Atlântico

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A noite adivinhava-se mais fresca que na véspera e o calor da voz e da presença de J. J. Jackson no palco exterior do Teatro de Vila Real prometia elevar a temperatura. E assim foi. Ao ritmo de blues e de outros sons contagiantes, o público teve oportunidade de experimentar um belo espectáculo!


Densidade(s) 3

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Foto: www.odeoda.com


curvaturas esdrúxulas

incidem em esferas de espelhos

sonoras e brilhantes

desato os atilhos das convenções

que oprimem explosões de lágrimas

cambaleio

entre aspas e reticências

numa ilusão suave e intensa

de um querer interrogativo

aposto de exclamações

finais

sem quanto sem quê sem qual


04/07/2007

Densidade(s) 2

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http://www.photoforum.ru/photo/339366/index.en.html



subconscientemente

avancei a preto e branco

entre pétalas insolentes e insólitas

de sempre sem nuncas

atrevi-me em agoras e provei um antes

arrisquei um aqui depois

e algures comprimi imagens

substantivas

de tanto que nem sei


Densidade(s) 1

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embrulho-me em papel de jornal

e resisto a anúncios descarados de mortes e sexo

delineio contornos com o indicador negligente

pela figura colorida de desejos e de momentos

entrego-me a viagens, desamparada

e num silêncio lento e denso

emudeço

27/06/2007

Cinco livros entre os demais

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Recebi um convite para falar de livros. Não sei falar deles. Sinto-os. Tenho uma relação especial com eles. Não os devoro. Pego-lhes. Folheio-os de trás para a frente. Amo-os pelo cheiro, pela visão e pelo tacto. Saboreio-os. Ouço-os. Contam-me histórias. Faço amigos. Lentamente, disseco palavras, linhas, entrelinhas. Avanço, recuo. Um prazer sereno e empolgante que me vai acordando pela noite dentro.

Leio sempre, mesmo quando o livro de cabeceira - neste momento, Tango, da argentina Elsa Osório - se mantém fechado durante dias e dias. Gosto de o ter ali, à mão.

Por vezes, leio dois, três livros no mesmo período de tempo, um de cada vez, alternando entre eles. Gosto assim.

A Religiosa de Diderot marcou-me aos doze anos. Um contributo para a minha tempestade de ideias sobre a religião durante a adolescência.

Victor Hugo fascina-me com Os Miseráveis pelos volumes, pelo enredo, pela força da escrita.

O génio de Camões patente na epopeia d'Os Lusíadas intriga-me pela forma: dez cantos, 1102 estrofes que são oitavas decassilábicas, sujeitas ao esquema rímico fixo AB AB AB CC e atrai-me pelo concílio dos deuses, pelos amores de Pedro e Inês, pelo Adamastor.

Timbuktu fez-me descobrir Paul Auster, um escritor norte-americano que contraria tendências rotineiras de literaturas para consumo e já me fez companhia com O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo, Música ao Acaso, A trilogia de Nova Iorque.

Cem Anos de Solidão despoletou o gosto pela literatura hispânica e guiou-me pelo universo mágico de Gabriel Garcia Márquez!

Tantos outros nomes de escritores que ficam de fora, mas não menos importantes nas minha preferências literárias: Torga, Sophia, Eça de Queirós, Lobo Antunes, Saramago... poderia enumerar dezenas, centenas, portugueses e estrangeiros, que ficariam sempre alguns por referir.

Para dar sequência a esta cadeia, dirijo o meu convite aos seguintes blogues vizinhos:

Devaneios (3)

A selecção das imagens foi difícil: por um lado, pela má qualidade da maior parte das fotos que, não sei por que carga de água, saíram distorcidas; por outro, porque ao revê-las, revivi os momentos do concerto.
A vivacidade e a energia que dominou a actuação dos Rolling Stones do princípio ao fim empolgou o público que abrangia todas as faixas etárias... Ao som de êxitos mais antigos e mais recentes, todos saltaram, gritaram, aplaudiram.
A música é, de facto, um dos catalisadores mais poderosos para unir as diferenças, para diminuir o fosso entre gerações, para alimentar esperanças.
Os 64 anos de Mick Jagger, que fazem inveja aos «barrigudos» que se foram deixando intimidar pelo peso da idade, demonstram que é possível manter-se jovem, mais por dentro do que por fora.
No final do concerto, após ter saltado tudo quanto podia, sorri quando, mesmo atrás de mim, ouvi uma voz feminina comentar: «Ai as minha costas!», ao que a colega acrescentou: «Nem me fales!». Olhei de soslaio, adivinhando duas sexagenárias. Fui obrigada a olhar de novo, desta vez sem a discrição inicial, e confirmar que seriam da minha idade, mais ano, menos ano!
Sorri novamente. As minhas nem sinal davam! Satisfeita com a revelação, fiz a viagem de regresso.
Descobri, entretanto, que o meu corpo reage lentamente e que não resiste a uma viagem de comboio de quatro horas durante a madrugada! Escusado será dizer que a recuperação prolongou-se durante a semana! Mas valeu a pena, se valeu!!!


Devaneios (2)

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Lisboa é, sem dúvida, uma cidade que me prende, que me arrasta, que me seduz. Mas, pelos vistos, não é só a mim.

Devaneios (1)

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Pouco passava das oito horas quando chegámos à estação. Pedi o bilhete de ida e volta e quando referi a hora do regresso, o senhor sorriu e declarou com um sorriso nostálgico: então vai ouvir a música do nosso tempo... Partilhei o sorriso e, no papel de cúmplice apanhada com a boca na botija, retorqui: é verdade.
A opção pelo comboio surgiu à última da hora, quando, na véspera, me lembrei de consultar a página web da CP. A última viagem de comboio tinha sido em Julho de 2002 de Vichy para Bordéus que me permitiu usufruir da paisagem, da leitura, do sono descontraído e ainda me proporcionou algumas vivências caricatas.
Sempre achei peculiar o uso de metáforas associadas às viagens de comboio que, geralmente, traduzem simbologias da vida. Estações, apeadeiros, paragens, linhas, são termos associados a modos de estar, de ser, de decidir, de pensar.
Quando dei por mim mecanicamente sentada no lugar marcado, tive a sensação estranha de viajar contra o tempo. Via a paisagem deslizar a uma velocidade rápida e irrecuperável e, por momentos, sentia-me resistir. Uma resistência inexplicável mas imprescindível.
Apercebi-me, de súbito, que essa sensação provinha do facto de viajar de costas voltadas à direcção em que seguia o comboio.
Interroguei-me: andarei eu de costas voltadas?!