Rasgo segredos presos à doce utopia
jamais reduzida a memórias inverosímeis
de caminhos inacabados e perfeitos
Velo por riquezas desfeitas
perdidas e reencontradas
no ténue labirinto de fantasias fugidias
Ignoro alegorias e afogo-me em metáforas
Débil, prescindo dos mitos que me atraiçoam
sem imprimir marcas dúbias
nem libertar relâmpagos fáceis
de saudades sofreadas do amanhã
que demora no parapeito da janela
embaciada de lendas misteriosas
e de breves soluços que fogem de mim.
O ar húmido adensa-me o pensamento
e embrulha-me em nuvens de fumo e de pó!
SEM LIMITES, SEM FRONTEIRAS, SEM TEMPO, SEM ESPAÇO, SEM COR, SEM NACIONALIDADE, SEM SEM SEM...
05/01/2008
27/12/2007
Rotação 3

Rodopiam albatrozes no ar...
circulam nas ondas rasgadas de espuma
e viajam por longas distâncias:
atrás, deixam o sabor agridoce do passado
povoado de ténues memórias
da respiração arfante de crianças
presas à voz grave que se solta em gargalhadas
envolvem-se no mistério de uma porta que se abre
e dela surge, repentina, a figura amada
e há tanto desvanecida dos olhares fixos no mar
20/12/2007
Rotação 2

giro à volta do eixo imaginário
de presenças vazias de sentido
que movem raízes de si
sem saberem
e partem...
delas reconheço esboços de uns
e de outros sem tacto
que se baralham nas luzes da cidade
e não são quem eram
mas eram trindades unívocas
antes de tomarem novas rotações
patéticas e embaladas em alvoroço
- denunciam ausências arriscadas
de quereres perdidos para sempre
16/12/2007
Rotação 1

colhida pela intempérie de luzes
esvoaço pelas solidões alheias
enclavinhada em vectores inscientes
que rejeitam formas incisivas
de boatos e rumores anacrónicos
e presa à rotação insolúvel das imagens
prescindo da força centrífuga
que irradia a cor ténue da palavra
e extrai fantasias desenhadas a carvão
de jazigos encerrados pelo tempo
de livres associações
combino sentidos e figuras
que se fundem numa alquimia
de afectos intensos e vorazes
04/12/2007
Paris
Paris com chuva, frio e vento...
Paris, com o sol tímido a romper por entre as nuvens e a teimar mostrar a sua exuberância, o seu encanto, a sua luz, o seu mistério, o seu romantismo...
Paris, trespassada por cores e por música... por pessoas oriundas de todos os cantos do mundo... por cheiros e por vozes...
Uma viagem a Paris devia fazer parte do currículo escolar! Em tenra idade, mas já suficiente para compreender o mosaico multi-facetado em que vivemos.
Aprender a sentir, a ver, a ouvir, a cheirar, a rir, a compreender, a aceitar, a amar!
E, de quando em vez, revisitá-la para não esquecermos...
Relembrei e descobri Paris diferente.
.
27/11/2007
Recessão (3)
Rasgo lágrimas de papel
de invernos distantes
retidas no lastro da lareira
consumida pelo tempo
recuo por trilhos de serenos olhares
que me afagam os cabelos
eivados de ternuras avoengas
e pinto mãos enrugadas e calosas
nas paredes de casas fantasmas
percebo sorrisos remotos
que embalam sonhos e premonições
de invernos distantes
retidas no lastro da lareira
consumida pelo tempo
recuo por trilhos de serenos olhares
que me afagam os cabelos
eivados de ternuras avoengas
e pinto mãos enrugadas e calosas
nas paredes de casas fantasmas
percebo sorrisos remotos
que embalam sonhos e premonições
20/11/2007
Recessão (2)
e criança brinco
com palavras perdidas
da infância extraviada
no tempo devorado
por idades remotas
sem rugas sem gelhas
que atenuam a cor
e a dor aparente
dos anos implacáveis
desperto em nevoeiros
e elevo-me na atmosfera
condensada de raízes
sem sementes nem embriões
suprimida por impotência
da natureza e da matéria
com palavras perdidas
da infância extraviada
no tempo devorado
por idades remotas
sem rugas sem gelhas
que atenuam a cor
e a dor aparente
dos anos implacáveis
desperto em nevoeiros
e elevo-me na atmosfera
condensada de raízes
sem sementes nem embriões
suprimida por impotência
da natureza e da matéria
11/11/2007
Recessão (1)
sem esquadria desenho fusos horários
que me transportam tímida
por décadas, séculos, milénios
sem causalidade aparente
viajo à velocidade da luz
e mergulho em tempos remotos
de fantasias medievais
ou de festins romanos
recuo a épocas de grutas
e descubro o fogo hipnótico
que me devora numa combustão
interminável
e desfaleço em labaredas
e converto-me em cinzas
que me transportam tímida
por décadas, séculos, milénios
sem causalidade aparente
viajo à velocidade da luz
e mergulho em tempos remotos
de fantasias medievais
ou de festins romanos
recuo a épocas de grutas
e descubro o fogo hipnótico
que me devora numa combustão
interminável
e desfaleço em labaredas
e converto-me em cinzas
04/11/2007
Tempo de pintura...
Mais por curiosidade do que por preferência lá me decidi a ir espreitar a exposição de Salvador Dali, no Palácio do Freixo, na véspera do último dia.
Cheguei tarde e aguentei o frio que caiu após um dia de sol que se recolheu sem avisar.
Enquanto esperava na fila, pude observar o movimento das pessoas que se deslocavam lentamente e aos soluços, percorrendo o perímetro do átrio dessa bela casa, um exemplar magnífico da arquitectura solarenga portuense, que remonta ao século XVIII, em estilo barroco, da autoria de Nicolau Nasoni. Tentei, para me distrair e divertir, mudar o rumo da fila que seguia atrás de mim, dando uns passos mais à direita. Pouco consegui, mas confesso que não me esforcei muito.
Já lá dentro, pude apreciar o calor que aquelas paredes ofereciam aos visitantes, além dos interiores ricamente revestidos.
Não me seduziram as sequências de litografias ("Bíblia Sagrada", "Gargantua e Pantagruel" e "Fausto"), exceptuando uma ou outra. O mesmo não posso dizer das esculturas que, até ao momento, nunca tinha tido oportunidade de ver. Fixei em especial "Mulher Nua Subindo a Escada" que me atraiu pela simplicidade de formas e pelo movimento de ascensão que expressa.

Registei a inabilidade dos visitantes que observavam as obras expostas a vinte centímetros de distância, como se as fossem devorar a qualquer instante e impediam a visão sequencial e global da obra. Enfim...opções (?!)
Foto: http://jpn.icicom.up.pt/
Cheguei tarde e aguentei o frio que caiu após um dia de sol que se recolheu sem avisar.
Enquanto esperava na fila, pude observar o movimento das pessoas que se deslocavam lentamente e aos soluços, percorrendo o perímetro do átrio dessa bela casa, um exemplar magnífico da arquitectura solarenga portuense, que remonta ao século XVIII, em estilo barroco, da autoria de Nicolau Nasoni. Tentei, para me distrair e divertir, mudar o rumo da fila que seguia atrás de mim, dando uns passos mais à direita. Pouco consegui, mas confesso que não me esforcei muito.
Já lá dentro, pude apreciar o calor que aquelas paredes ofereciam aos visitantes, além dos interiores ricamente revestidos.
Não me seduziram as sequências de litografias ("Bíblia Sagrada", "Gargantua e Pantagruel" e "Fausto"), exceptuando uma ou outra. O mesmo não posso dizer das esculturas que, até ao momento, nunca tinha tido oportunidade de ver. Fixei em especial "Mulher Nua Subindo a Escada" que me atraiu pela simplicidade de formas e pelo movimento de ascensão que expressa.

Registei a inabilidade dos visitantes que observavam as obras expostas a vinte centímetros de distância, como se as fossem devorar a qualquer instante e impediam a visão sequencial e global da obra. Enfim...opções (?!)
Foto: http://jpn.icicom.up.pt/
Tempo de cinema...
Vi «Elizabeth - The Golden Age», um filme alheado de factos históricos enfadonhos. A personagem, interpretada por Cate Blanchett, revela uma rainha dotada de força e de coragem, que menospreza a sua condição de mulher para dar lugar à sua figura de estado, amada pelo povo, e condenada à solidão do poder.

Elizabeth The Golden Age

Elizabeth The Golden Age
30/10/2007
Andei em mudanças
Há fases
de distracção
de reflexão
de tédio
de euforia
de falta de tempo
de excesso de trabalho
de desmotivação
de insatisfação
de compensação
de alegria
de amor
por tudo isso, ou por, mais ou menos do que isso,
tenho andado distraída com este blogue
havia toques de rotina, de «sempre igual»
lia os comentários interessantes
mas uma inércia impedia-me de responder
peço desculpa
até que
decidi mudar a aparência
o que me deu algum trabalho sem dúvida
mas gosto
agora gosto do que vejo
assim um cinzento que ofusca
e que projecta as palavras cintilantes
a fotografia...é a calçada da estação do caminho-de-ferro do Pinhão
onde fui passear com o meu mais-que-tudo
num lindo dia de sol...
e sobre tudo e ou nada se escreve
assim sem regras nem sintaxe...
de distracção
de reflexão
de tédio
de euforia
de falta de tempo
de excesso de trabalho
de desmotivação
de insatisfação
de compensação
de alegria
de amor
por tudo isso, ou por, mais ou menos do que isso,
tenho andado distraída com este blogue
havia toques de rotina, de «sempre igual»
lia os comentários interessantes
mas uma inércia impedia-me de responder
peço desculpa
até que
decidi mudar a aparência
o que me deu algum trabalho sem dúvida
mas gosto
agora gosto do que vejo
assim um cinzento que ofusca
e que projecta as palavras cintilantes
a fotografia...é a calçada da estação do caminho-de-ferro do Pinhão
onde fui passear com o meu mais-que-tudo
num lindo dia de sol...
e sobre tudo e ou nada se escreve
assim sem regras nem sintaxe...
28/10/2007
Intervalo(s) 3
recolho-me no abrigo de espectros
invisíveis a desejos de carrascos
que esbatem sombras de aves
loucas de voos agrestes e desabridos
apago-me em teorias de probabilidades
que arrastam hipóteses alienadas
de conceitos e de funções
por cima das ondas que entoam melopeias
que me aconchegam o olhar
invisíveis a desejos de carrascos
que esbatem sombras de aves
loucas de voos agrestes e desabridos
apago-me em teorias de probabilidades
que arrastam hipóteses alienadas
de conceitos e de funções
por cima das ondas que entoam melopeias
que me aconchegam o olhar
Intervalo(s) 2
incorro em blasfémias e ironias
porque de mim não quero ser
apenas pintura figurativa
cometo delitos puros de intenções
e desenho identidades triangulares
limitadas por circunferências presumíveis
que arredondam formas sequazes
de corpos esbeltos
porque de mim não quero ser
apenas pintura figurativa
cometo delitos puros de intenções
e desenho identidades triangulares
limitadas por circunferências presumíveis
que arredondam formas sequazes
de corpos esbeltos
23/10/2007
Intervalo(s) 1
atento nos sinais ténues da mudança:
flutua uma nuvem que abraça o mar
e mergulha na profundidade de transparências
indomáveis e revolvidas
habito território bravio
e altero pigmentos na superfície espessa
de textura insurgente e suave
irradio brilhos e contrastes
em projectos de matizes oníricas
que me acordam tranquila
flutua uma nuvem que abraça o mar
e mergulha na profundidade de transparências
indomáveis e revolvidas
habito território bravio
e altero pigmentos na superfície espessa
de textura insurgente e suave
irradio brilhos e contrastes
em projectos de matizes oníricas
que me acordam tranquila
22/10/2007
«Crianças Invisíveis»

"Crianças Invisíveis" (2005)é uma colectânea de sete curta-metragens realizadas por cineastas de diferentes nacionalidades, que narram histórias sobre as condições de
vida das crianças que habitam na região de onde são originários, expondo uma realidade cruel e desumana que faz delas uns heróis.
Impressionou-me a força de viver, a capacidade de sobrevivência e a coragem de enfrentar os obstáculos. Fez-me pensar nas preocupações ridículas que atormentam as nossas tão vulgares existências. Perto destas crianças somos meros transeuntes da vida!
Mehdi Charef, conta a história de Tanza, um rapaz de 12 anos que se alista num exército de lutadores pela liberdade.
Emir Kusturica, escolhe para título do seu segmento Blue Gypsy, que conta a comovente história de um jovem cigano.
Spike Lee apresenta Jesus Children of America, que retrata a luta de uma adolescente de Brooklyn que descobre ser a filha seropositiva de um casal de toxicodependentes.
Katia Lund, em Bilu e João, retrata um dia na vida de duas crianças que não se resignam às adversidades, nas ruas de São Paulo.
Jordan e Ridley Scott co-realizam Jonathan, que descreve a vida de um repórter fotográfico, que regressa à infância para escapar ao sofrimento pessoal.
Stefano Veneruso em Ciro leva-nos aos bairros pobres de Nápoles para assistirmos à história de um jovem a viver entre o crime e as brincadeiras próprias da sua idade.
Com John Woo viajamos até à China com Song Song e Little Cat, e descobrimos a vida de duas crianças - uma órfã pobre e uma jovem rica, mas perturbada.
14/10/2007
«A Terra antes do Céu»
.
Assisti, sexta-feira, no pequeno auditório do Teatro de Vila Real à ante-estreia do filme de João Botelho.
Um Torga cheio de música, de olhares diversos, de palavras, de silêncios, de forças ocultas da terra e de imagens filtradas pelos sentidos individuais...
Um filme de autor que penetrou no universo torguiano de forma singular mas poderosa.
Muito mais haveria a dizer sobre o que vi mas, perante obra de arte de tal dimensão, recolho-me a um silêncio feito de admiração.
Advertência: incompatível com ambientes "pipoqueiros", como, aliás, o próprio realizador referiu.
Um Torga cheio de música, de olhares diversos, de palavras, de silêncios, de forças ocultas da terra e de imagens filtradas pelos sentidos individuais...
Um filme de autor que penetrou no universo torguiano de forma singular mas poderosa.
Muito mais haveria a dizer sobre o que vi mas, perante obra de arte de tal dimensão, recolho-me a um silêncio feito de admiração.
Advertência: incompatível com ambientes "pipoqueiros", como, aliás, o próprio realizador referiu.
Distância(s) 3
.
percorro a carta topográfica de sorrisos
envoltos em acidentes geográficos
que determinam o perímetro da inconsciência
e revelam audazes distâncias e ângulos
de um sentir saudade sem tamanho
sem fio de prumo credível
sustento olhares indiscretos de razões verticais
sem nível estável
espalho-me numa horizontalidade de solvências
e recordo infâncias alheias como se de mim
fossem outros a quebrar silêncios
.
percorro a carta topográfica de sorrisos
envoltos em acidentes geográficos
que determinam o perímetro da inconsciência
e revelam audazes distâncias e ângulos
de um sentir saudade sem tamanho
sem fio de prumo credível
sustento olhares indiscretos de razões verticais
sem nível estável
espalho-me numa horizontalidade de solvências
e recordo infâncias alheias como se de mim
fossem outros a quebrar silêncios
.
08/10/2007
Distância(s) 2
.
parto sem quadrantes, nem astrolábios, nem balestilhas
sem coordenadas geográficas irrompo
por entre jardins de tulipas roxas
e esquivo-me para refúgios gerados em ventres férteis e frondosos
reduzidos a escalas celestes e universais
descanso na rosa-dos-ventos que aponta a direcção
para infinitos afluentes de qualquer lugar
sem patamares e sem razões
.
parto sem quadrantes, nem astrolábios, nem balestilhas
sem coordenadas geográficas irrompo
por entre jardins de tulipas roxas
e esquivo-me para refúgios gerados em ventres férteis e frondosos
reduzidos a escalas celestes e universais
descanso na rosa-dos-ventos que aponta a direcção
para infinitos afluentes de qualquer lugar
sem patamares e sem razões
.
Distância(s) 1
.
Concebo um mapa de distâncias ausentes
entre penumbras e luzes que se aconchegam
no rosto de versatilidades dormentes
em segmentos de metáforas sincopadas
traço longitudes melancólicas entre pontos imaginários
estabeleço um meridiano perpendicular a pólos
sem norte sem sul
esboço um equador de intersecções abstractas
e de hemisférios inseparáveis
onde a realidade é aquilo que quero.
entre penumbras e luzes que se aconchegam
no rosto de versatilidades dormentes
em segmentos de metáforas sincopadas
traço longitudes melancólicas entre pontos imaginários
estabeleço um meridiano perpendicular a pólos
sem norte sem sul
esboço um equador de intersecções abstractas
e de hemisférios inseparáveis
onde a realidade é aquilo que quero.
03/10/2007
O Lobo Antunes de sempre
.
Hoje fui visitar alguns blogues que fazem parte da minha lista de preferências. Não tenho tido tempo para me dedicar à leitura, à divagação, à observação, à escrita.
Hoje fui visitar alguns blogues que fazem parte da minha lista de preferências. Não tenho tido tempo para me dedicar à leitura, à divagação, à observação, à escrita.Tenho sido engolida pelo tempo, esgotado entre ritmos alucinantes de trabalho... mas hoje, sentei-me diante do monitor e deambulei um pouco por aí. Descobri no Absorto um link para uma entrevista do António Lobo Antunes ao DN, (DN continuação) de um interesse notável. Desde sempre que admiro a personalidade intempestiva e de uma rebeldia serena deste escritor.
A entrevista, valorizada pelo conteúdo das respostas em detrimento da qualidade das perguntas que só alguém como A.L.A. consegue com uma habilidade intelectual e riqueza interior, surpreendeu-me linha a linha.
«Há zonas em mim que desconheço, portas que nunca abri e que, no entanto, aparecem nos livros e provocam-me uma certa perplexidade ao querer saber de onde é que isto vem, de que profundidades nossas, que todos temos.»
NaVisão Online podemos ouvir e ler mais...
A entrevista, valorizada pelo conteúdo das respostas em detrimento da qualidade das perguntas que só alguém como A.L.A. consegue com uma habilidade intelectual e riqueza interior, surpreendeu-me linha a linha.
«Há zonas em mim que desconheço, portas que nunca abri e que, no entanto, aparecem nos livros e provocam-me uma certa perplexidade ao querer saber de onde é que isto vem, de que profundidades nossas, que todos temos.»
Na
Subscrever:
Mensagens (Atom)