21/04/2008

Vidas à espera da morte



Site oficial

Poderia dissertar sobre os actores, a fotografia, a música, o guião... Mas nada disso faria sentido!

A dialéctica vida / morte é lugar comum em discussões, à mesa do café, pela noite dentro, quando a crise existencial nos bate à porta, sobretudo quando ainda jovens, não entendemos a razão pela qual a vida nos obriga a morrer. À luz de doutrinas filosóficas, de cariz mais existencialista ou mais teológico, discute-se o sentido, ou falta dele, de ambas, procuramos respostas para justificar, afinal, a certeza mais infalível que todos temos desde que vimos ao mundo!

A nossa visão da vida condiciona a aceitação ou a negação da nossa morte.
Há os que defendem a teoria do «consumismo» do tempo e vivem cada dia com a convicção de não acordar no seguinte!
Há os que defendem o «adiamento» da vida como se fossem donos do tempo!
Há os que injectam doses de trabalho nas horas para lhes sugar o tutano!
Há os que vivem alucinados pelo medo da morte!
Há os que vivem moribundos adiando um amor!
Há os que existem aprisionados ao passado!

Arrisco dizer que poucos são os que saboreiam a vida com serenidade e aceitam a morte com naturalidade!

Quando saí do cinema, ocorreu-me também escrever uma lista de coisas que quero ainda fazer: viajar na montanha russa, dar uma volta no carrossel, caminhar na praia sob a chuva, apreciar o nascer do sol, fazer um piquenique, rever o álbum de fotografias de família...

Mas dei comigo a pensar que, afinal, a vida, assim como a morte, são imprevisíveis!

14/04/2008

Interstício

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Existo no intervalo entre a tua chegada e a tua partida

na forma de me sentir mais eu junto a ti

nos braços que me rodeiam e me evaporam no vácuo

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Mensagens que dançam no silêncio do olhar

no espaço de um mundo renovado

em que a nossa trajectória ocupa o centro do universo

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O resto desvanece-se em sombras invertidas no espelho

de uma virtualidade oca e intrusa

à margem da nossa cumplicidade que sustém as lacunas

entre a tua partida e a tua chegada.

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Irene Ermida

08/04/2008

No cinema... sem pipocas!



Um filme que alia a simplicidade da vida e a complexidade interior do ser humano perante as circunstâncias que permanecem para além da sua vontade.
O crescimento interior do ser humano em contraponto com a cronologia dos acontecimentos extrínsecos.
Um Irão desmistificado pelos olhos de uma criança/adolescente/mulher que aprende com a avó o significado de «integridade».



Uma curiosidade: o filme foi proibido no Líbano.

Um outro olhar sobre este filme no «Charlas»

02/04/2008

Afluente


Foto: Rio Corgo, 03/04/2008


Sou um afluente que desagua em rio nenhum
numa viagem atribulada pelas margens da existência

a jusante de investidas impróprias e rutilantes
que desaguam numa foz inverosímil

Adormeço no leito de águas turvas, serenas

saboreando a essência da nascente
longínqua e consistente


Acordo na queda de águas revoltas e possantes
que me fixam no caudal que flui através de mim

Irene Ermida


31/03/2008

Permanências 3



Foto: http://www.palinchak.com/



permanece uma angustiosa inquietação

de traçar uma espiral tridimensional

que equaciona o campo das hipóteses

e exercita a razão geradora

de contradições do pensamento

que avança da afirmação da negação

para a caducidade do espírito

distende a resistência

e infere antíteses implícitas

em axiomas e regras que assolam as divergências

Irene Ermida

30/03/2008

Permanências 2



Foto: Jacob Lopes http://www.1000imagens.com/




permanecem o olfacto e o paladar

apurados pela ininteligibilidade

de aromas e de gostos imanentes

para além do tempo e dos sentidos obstinados

na procura pela extensão da memória

que evoca pedaços de vida e momentos efémeros

concentrados num odor de intenso sabor


Irene Ermida

Permanências 1


Foto: http://www.gorin-images.com/blog/


permanece clónico e hermético

o entendimento e a sustentação

de ventos que convergem no erro

numa ascensão de massas de ar

que se deslocam, perdidas, no universo

como se as palavras rudes

entretidas numa teimosia primária

projectassem sombras de ideias corruptíveis

e o Mundo Sensível nos condenasse

a uma pena perpétua de viver

Irene Ermida

26/03/2008

Sobre a hipocrisia


Lido mal com a hipocrisia. Quando a frontalidade é a regra número um do nosso estar no mundo, ficamos confusos e perplexos perante a desfaçatez com que algumas "pessoas" nos interpelam ou respondem.
As emoções que me assaltam nesses momentos são do mais primário que existe e é difícil manter o controlo! Nada melhor que um Xanax para evitar problemas maiores!

Ocorre-me o ensaio de Victor Hugo: »O Sofrimento do Hipócrita»:

Ter mentido é ter sofrido. 0 hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. 0 odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. 0 verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. 0 traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. 0 hipócrita é um titã-anão.

24/03/2008

luta de vida e de morte

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"Possa ser espontaneamente realizado este desejo de coração,
A liberdade completa para todo o Tibete
Há muito tempo esperada".

Words of Truth, Dalai Lama
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de anátema impune

reveste-se a humanidade...

bélico sofrer de balas

que rastejam a dor de existir

trespassam a alma de um povo

votado ao crer

de ser

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Irene Ermida

23/03/2008

Garcia Marquez no cinema


Uma adaptação cinematográfica insípida. Distante do fabuloso ambiente criado pelo autor da narrativa, limita-se a uma história de amor banal.
A experiência literária é infinitamente mais aliciante!

Arte em Serralves


Foto aqui

Percorri, atónita, a exposição "Robert Rauschenberg: Em Viagem 70-76" patente no museu da Fundação de Serralves.
E fiquei a pensar: Afinal o que é a «Arte»?!

Continuei a visita à exposição "Júlio Pomar - Cadeia da Relação", que centraliza a acção nos trabalhos de colagem, "assemblage" e no confronto entre a tela crua e a cor.
Aos poucos, fui enredando-me numa lógica dominada por uma abstracção sedutora e envolvente espelhada em sensualidade e erotismo.

20/03/2008

Ainda a propósito...

Nos tempos conturbados pós 25 de Abril, apresentou-se na sala de aula a professora de Educação Visual. Filha da Directora que exercia funções à data e que representava o sistema autoritário do ensino tradicional, engenheira de formação, recentemente vinda de Lisboa, apresentou-se descontraidamente: «Chamo-me Marta e quero que todos me tratem assim e por tu» - disse, aos cerca de trinta alunos do então 7º ano do curso unificado, com idades na média dos 12 anos.

Chegada a casa, à hora do almoço em família, ingenuamente contei a proeza. O meu pai, na casa dos quarenta e com a quarta classe antiga, sentado à minha frente proferiu serenamente a sentença: «Ai de ti que eu saiba que tratas assim a professora!»

E seria a única a tratá-la por professora até final do ano.

Hoje penso: Se não tivesse acatado a ordem inequívoca do meu pai, talvez ele nunca tivesse tido conhecimento da minha desobediência, mas algo mais forte me impeliu a cumprir religiosamente a sua indicação!

Imbuída desse espírito, criei um filho, hoje em idade adulta. Nunca recebi uma queixa por falta de respeito de professor algum e sinto orgulho dos elogios que fui ouvindo ao longo destes anos a propósito da sua correcção e educação. Por vezes, dizem-me: tens muita sorte! Tive, de facto, mas foi com muito esforço que a procurei!

Irene Ermida

«Ó professora, será que eles têm pais como nós?!»

NOTA: Aqui esteve este vídeo
mas, mais do que as imagens, agora interessam as palavras.


Uma amiga falou-me há pouco deste vídeo. Recebi alguns e-mails dos quais constava o endereço electrónico, mas foi em vão que cliquei nos links, pois anunciava a sua remoção. Por mero acaso, acabei por encontrá-lo no blogue
De Rerum Natura
, quando menos esperava.

Ao visualizar estas imagens, fui invadida pela perplexidade e por uma vontade inexplicável de chorar, que me impedem de tecer comentários alongados.
A postura agressiva da aluna, os risos e comentários dos colegas que filmam, a idade respeitável da senhora professora...

De repente, recordo uma frase que uma antiga aluna me colocou, há cerca de vinte anos atrás, durante uma visita de estudo a Lisboa, durante a qual, infelizmente, nos foi dada a oportunidade de assistir aos insultos verbais de um grupo de pretensos skinheads, na estação de comboios de Oeiras, dirigidos a uma pessoa negra que se misturou connosco, a fim de se manter segura: »Ó professora, será que eles têm pais como nós?!»

Irene Ermida

19/03/2008

Labaredas 3



Foto: Palinchak Mikhail

o magma que permanece em mim

subitamente emerge

através das fendas vulcâncias

que me afastam dos rios e dos mares

nessa erupção sintáctica

revejo ancestrais demónios

em versos livres submersos

oscilo no relevo dos períodos e das orações

que, voláteis, explodem em efusivos sintagmas

e abrem crateras vazias de entendimento

alheios à fonética acústica

e enredados em enunciados fervilhantes.

Irene Ermida

Labaredas 2



Foto: Palinchak Mikhail


consumida por ardentes substantivos

ilumino caminhos desertos de sentido

possessivos determinantes de paisagens

mordiscam luzes e sons

baralhados de silêncios demonstrativos

... contracções e derivações ...

lançam chamas indomáveis e abrasam adjectivos:

incendiados, ardentes, inflamados


retenho a essência ruborizada do verbo

que transita para complementos

que desafiam a etimologia de amar

Irene Ermida

Labaredas 1



Foto: Palinchak Mikhail

assediam-me palavras tropicais
temperadas de acentos polares

... entediam-m'os pronomes sombrios... que afasto

escrevo apóstrofos e suprimo vogais áridas
troco cedilhas por sibilantes consoantes

... inflamo discursos insípidos... que rejeito

sem faísca, queimo preposições austeras
e sussurro dissílabos incandescentes
sem limites lexicais
envoltas em semânticas loucuras
e num eco desabrido
clamo anacrónicas vibrações...

Irene Ermida

13/03/2008

Intervalo(s)


Foto: http://www.1000imagens.com/



Des moments libres. Toute vie bien réglée a les siens, et qui ne sait pas les provoquer ne sait pas vivre.



Il faut toujours un coup de folie pour bâtir un destin.



Toute loi trop souvent transgressée est mauvaise: c'est au législateur à l'abroger ou à la changer.



Marguerite Yourcenar

10/03/2008

Sinais do tempo

Veio-me à memória os tempos idos de estudante quando, convicta, participava nas marchas de contestação pela cidade universitária até ao Campo Grande e na ocupação pacífica da Reitoria... Acreditava num mundo melhor...

Demorava a saída do Marquês de Pombal. Os helicópteros da polícia e das TVs sobrevoavam a área e alguém especulava: a ministra está a ver-nos...
Passo a passo, avançámos lentamente até à Avenida da Liberdade, onde nos cruzámos com grupos de pessoas que nos apoiavam e davam coragem! Um grupo de idosos, orgulhoso de lutas passadas, gritava: Foi pela liberdade que nós lutámos! Uma mãe aplaudia exibindo na camisola: Os «pais» estão com a ministra, eu sou mãe! Duas crianças empunhavam um cartaz: Os professores são os nossos pais!

Acreditei novamente! Redescobri porque escolhi este caminho! E um orgulho inocente deu-me força. Força para acreditar que ser professor não é profissão. É mudar o mundo. É ajudar a desvendá-lo, a compreendê-lo na sua globalidade e particularidade.
É plantar uma árvore, é semear um jardim, é inventar um rio, é percorrer mares e continentes, é falar várias línguas, é regressar ao passado e viajar no futuro...
Ninguém me pode tirar tudo isto! Por mais que tentem, nunca o conseguirão!
Os ministros, os governos, as políticas passam... os professores ficam!







Irene Ermida

02/03/2008

Almoço em família



Um domingo diferente e igual a tantos outros. Em cima da hora, e num telefonema rápido perguntei: há almoço para mais dois? Do lado de lá, ouvi a voz meiga que me dizia, claro que há, mas não sei se o teu filho gosta, Então o que é?, Arroz de lampreia, ele é capaz de não gostar, Ele gosta, de certeza, como a mãe.

Lá fomos a carregar no acelerador mais do que devia, mas a estrada convidava e o tempo também. A lampreia estava uma delícia, mas resisti à tentação de me servir segunda vez, a pensar na balança e no tempo primaveril que convida a umas roupas mais leves.

Com a conversa posta em dia e a tarde a ameaçar tornar-se noite, regressámos à cidade, onde me esperava algumas tarefas domésticas enfadonhas que tratei de executar depressa. Vim, entretanto, visitar o meu blogue sem intenção nenhuma de escrever. Só ver... e, assim que me deparei com a página aberta, recuei e não me revi no último post! Como se um intruso (aliás, intrusa!) tivesse forçado a entrada e ocupasse agora um espaço que antes era só meu. Uma estranha sensação a que senti!
E decidi eliminar esse vídeo que mostrava declarações da senhora Ministra da Educação à RTP 1 há alguns meses atrás.
É que neste espaço quero só que permaneça o meu lado oculto que desvendo num registo distinto do dia-a-dia, para que possa libertar ideias, pensamentos, sensações, emoções ao sabor das palavras...

Irene Ermida