22/11/2008

Dores e outras coisas de momento

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De há uns tempos para cá, estou a ficar preocupada comigo, o que acontece muito raramente. Quando aparece uma dor, espero que passe. Mas esta dura há quinze dias... e não há meio de passar! É intermitente, é certo, e geralmente aparece ao fim da tarde. Deduzo que seja stress (este palavrão que dá com tudo!). Reuniões até às tantas e quase diárias, imprevistos atrás de imprevistos que exigem resposta pronta, a rotina de problemas... Um infindável colar de contas (ou de contos?)...

Ontem, quando cheguei a casa, decidi enfiar-me numa banheira de água quente para descontrair. Adormeci e só acordei com a água fria!

Hoje fui para uma esplanada à beira-mar, sob um sol resplandecente, com boa música de fundo e dediquei-me à leitura de Mr. Vertigo, de P. Auster. Perdi a noção do tempo, até ter dado conta do zumzum que estava à minha volta. Incomodada, decidi ir ao cinema, onde me esperava uma fila enorme de pessoas que ao fim-de-semana se recolhem no shopping para esmagar o tempo.

Saí com a tal dor de cabeça e vim para casa.

E, de caminho, embrenhada nos meus pensamentos, comecei a acordar: há qualquer coisa que não está bem comigo! Ou seja, tomei consciência de que não suporto espaços com gente... pessoas... seres humanos... E isto, sinceramente, preocupa-me. Gostar de estar sozinha, evitar espaços contaminados de vozes, de risos, de movimento... Não é normal ou, pelo menos, não era até agora!
Quando é que sabemos que sofremos de misantropia?!
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Irene Ermida



17/11/2008

Pérola(s)

Foto: Barbara Angel http://olhares.aeiou.pt/

um corpo estranho

invade o ser que sou

sem o ser

as pérolas deslizam
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como grãos de areia
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pela extensa silhueta
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em reflexos azuis e sem cor
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sem sabor
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pérolas que caem
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como gotas de água
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pela face pálida e serena
.
sem contornos
Irene Ermida



16/11/2008

(de)gelo



Foto: JM Monteiro http://olhares.aeiou.pt/




toco o gelo e a neve


fundidas nas tuas mãos


entrelaçadas nas minhas




um degelo chamado eu


por um tu chamado nós


acesos num lume


que queima as asas


de um querer


com voz


Irene Ermida






Desabafar é bom... ou excelente?!


Já há uns tempos atrás tive oportunidade de me referir à minha professora primária.
E hoje, mais uma vez, quero, necessito, mais do que nunca, lembrar-me dela!
O seu estatuto impunha respeito, admiração e o seu empenho e dedicação incentivava os melhores e não deixava para trás os mais fracos. Uma professora que ensinava, corrigia, educava… tratava-nos como alunos e como filhos, víamos nela a figura de mãe, de conselheira, de lutadora: era a senhora professora. Aprendíamos, porque ela nos ensinava, porque sabia exactamente qual a sua missão! Uma EXCELENTE professora!
Nós, crianças, sentíamo-nos gratas! E, pelo seu aniversário, oferecíamos-lhe um ramo de flores em sinal do nosso reconhecimento, que amaciava a sua aparência austera e deixava ver aos mais atentos, as lágrimas que ficavam a brilhar nos seus olhos.
Ao longo da nossa vida de estudantes privámos com EXCELENTES professores, que fizeram a diferença e se perpetuaram na nossa memória como exemplo a seguir. Dos fracos? Não reza a história! Caem no mais profundo esquecimento!
A todos os EXCELENTES professores que, diariamente, se empenharam ao longo de décadas (e aos que se empenham) na sua tarefa de ensinar pelo simples prazer de ver os seus alunos aprender, sem esperar louvores, nem menções honrosas, nem prémios, conscientes de que a sua acção ultrapassa qualquer rótulo, que o contributo que prestam para melhorar a «educação» dos homens e mulheres que um dia serão profissionais dos mais diversos sectores (mecânicos, cozinheiros, jornalistas, médicos, engenheiros, motoristas, ministros…), e que sempre foram alvo da indiferença total por parte da sociedade que deixou de lhes reconhecer competência, autoridade, dignidade; votados a um esquecimento displicente durante anos e anos, a quem, mais do que qualquer formalidade de avaliação, interessa o juízo que os seus alunos formam deles no quotidiano das suas aulas e fora delas…
A todos os EXCELENTES professores que foram avaliados com uma menção de SATISFAZ (importaria saber quantos requereram a menção de BOM no anterior sistema de avaliação!) e se contentaram com ela, porque o mais importante era a sua rotina escolar centralizada na aprendizagem dos alunos, porque esse sim, era o sentido do seu trabalho…
A todos os EXCELENTES professores que deram o seu contributo para que os seus(suas) alunos(as), passados uns anos, soubessem escrever, ler, criticar, formar opiniões, argumentar, fundamentar, mesmo contra eles…
A esses EXCELENTES professores anónimos para quem as quotas nunca serão suficientes nem os afectará na sua integridade, presto a minha homenagem porque souberam (sabem) enriquecer o país de ideias e de atitudes!
Expresso, por último, à minha professora primária um agradecimento especial por me ter ensinado que a pronúncia do “x” pode ser diferente consoante a palavra, e que o significado da palavra EXCELENTE não se limita a um mero quantitativo numérico, mas antes corresponde a um conteúdo e a uma essência incompreensíveis a quem não guarda memória dos seus professores.
Afinal, não é mais importante ser um BOM EXCELENTE do que um EXCELENTE de 10 valores?!

Irene Ermida



10/11/2008

Cinema sem pipocas

“Shine a Light”

À última da hora venci a inércia da segunda-feira e lá fui ao «Cinema sem Pipocas». Um documentário arrepiante
de Martin Scorsese com a banda dos Rolling Stones, filmado em 2006, no Beacon Theater, Nova Iorque.
Não fosse a má qualidade do som da sala, e ter-me-ia julgado em pleno espectáculo ao vivo!
A força das imagens traduz a energia contagiante de Mick Jagger e a marotice de Keith Richards.
Momento alto do concerto: o dueto com M. Jagger e Buddy Guy.
Momento de reflexão do filme: resposta de M. Jagger a um jornalista durante uma entrevista há cerca de 30-40 anos atrás que pretendia saber se o cantor se imaginava aos 60 anos a fazer o mesmo - Claro, na boa!
Uma lição para os mortos-vivos do planeta! Deste, entenda-se!

(des)enlace

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D E S E N L A C E evidente à luz do dia
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espelhado na transparência das águas
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e LIVRE é o que sempre foi
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D E S A C O R R E N T A D O
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E
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I N T E N S O
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Irene Ermida



enlace



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E N L A C E oculto que transgride todas as regras
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desagrega o U N I V E R S O dos sentidos insiginificantes
...
D E S M I S T I F I C A D O S
...
E
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P E R M I T I D O S
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Irene Ermida



01/11/2008

Destruir depois de ler



Diria uma paródia da sociedade actual (americana e não só) que oscila entre a ironia e o absurdo quer das relações interpessoais, despojadas de sentimento e fruto de meras circunstâncias, quer da paranóia criada por temores infundados de qualquer potencial trama de espionagem, culminando com o objectivo alcançado por Frances McDormand, na personagem de uma empregada de um ginásio que sonha recuperar a silhueta esbelta de há vinte anos atrás, através de cirurgia plástica.
A sequência de situações, que parecem deslizar entre si e precipitam os acontecimentos, impregnadas de um humor subtil ou de um cómico evidente, permanecem na retina por algum tempo e fazem uma viagem no cérebro proporcionando perspectivas diferentes sobre a banalidade de uma rotina interiorizada.
Sem termos de comparação com outros filmes realizados pelos irmãos Coen, este, provocou-me o riso, o sorriso e a boa disposição, mas também apreensão, pois, na sala de cinema cheia havia meia dúzia de pessoas com estes sintomas! Ora, das duas uma: ou ando a exagerar no riso, ou os outros andam deprimidos!

30/10/2008

Hemisfério(s) 3



Foto: David Sousa http://olhares.aeiou.pt/
colateral
ponto cardeal
da rosa-dos-ventos
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arco lançado ao vento
num rodopio circular
desenha espirais contínuas
sem fim sem princípio
cruza distâncias e proximidades
em fracções de segundo
que não chega a ser
tempo contado pelos ponteiros
de relógios de cristal sem pêndulo
a medir amplitudes
nem variações
Irene Ermida



Hemisfério(s) 2


Foto: Bruno Silva http://olhares.aeiou.pt

artificial
esfera assimétrica
de simetrias instáveis


atravessa pontos
equidistantes
e colide com coordenadas
aleatórias
traçadas a giz no pó volátil
do axioma
solto no cais que se estende
sobre o mar
ausente no sorriso rasgado
de uma nuvem

Irene Ermida



29/10/2008

Hemisfério(s) 1

Foto: José Meneses http://olhares.aeiou.pt/


cerebral

esquerdo a sul acidental

direito a norte oriental


hemisférios sem meridiano

cruzam-se na linha curva que une pontos

de partida e de chegada

do princípio de nada ao fim de tudo

numa recta contínua

de um plano imprevisível

de um espaço excessivo

preenchido de vazios tão cheios...

Irene Ermida




28/10/2008

Segmento(s) 3


Foto de Nélio Filipe http://olhares.aeiou.pt/
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páginas divididas em partes iguais sem rótulos nem verdades adormecidas em veredas singulares percorridas por existências similares e anódinas na permanência agrilhoada num tempo seco e trivial inquantificável e imenso interrompido por um luar dominado pela noite enevoada de ruídos inexplicáveis projectados ostensivamente no delito cometido sem pudor preconizado por entidades feéricas que dançam sob a chuva que atrai gotas minúsculas que se unem numa trajectória de queda no cume de montanhas inatingíveis
 
Irene Ermida



26/10/2008

Segmento(s) 2


Foto de Nélio Filipe http://olhares.aeiou.pt/
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recortes e colagens transparentes de vontades presas em celas espelhadas de ouro prateado de portas abertas para a rua de cima que espreita o mar extenso de sal e de azul efémero e habitado de seres minúsculos que volteiam as ondas que perpetuam o ciclo infindável de sonhos derretidos na boca sem idade no limite de um sabor adocicado de mel sem dor à mistura e com olhares cruzados no horizonte que antevê a cumplicidade de gestos e de sentidos

Irene Ermida



Segmento(s) 1

Foto de Nélio Filipe http://olhares.aeiou.pt/



desfile de imagens subtis serpenteiam pelo olhar cego a traços nítidos impressos em letras desenhadas com mão firme guiada por um fio de seda envolvente embrenhado em ideias condensadas que chovem na madrugada ventilada e fresca surpreendida pelo sol acordado à pressa e esfrega os olhos ainda dormentes dos sonhos inconsistentes que projectaram raios de luz frágeis e apagados em qualquer rosto embriagado de um sentir imerso num dizer do silêncio

Irene Ermida



25/10/2008



Música: Enya - Watermark

24/10/2008

Registo(s) 3

Foto de Maria Catunto http://olhares.aeiou.pt/

um registo gravado em rocha metamórfica que se dilui na transparência do vento que sopra a uma velocidade estonteante poupando incólume a escritura bíblica de um qualquer episódio passado decidido na voracidade do tempo medido em segundos sem escala contínua de uma unidade transfigurada em espectros volúveis de sons propagados no universo ínfimo e de luzes extintas no espaço habitado por oceanos de águas salinas inodoras e sem gosto nem odor

Irene Ermida

Registo(s) 2

Foto de Ingrid http://olhares.aeiou.pt/


silhueta derramada na sombra de um tronco imponente inclinado no cima da serra onde o sol descansa nas ínfimas ervas daninhas e não sem sono perturbado ou tranquilo semeado de sonhos diletantes e ingénuos com vaidades ocultas entre as folhas das árvores secas e centenárias que abrigam segredos eternos sem princípio e sem fim numa continuidade impermeável a qualquer contingência temporal ou erupção de vulcões (porque não?) de lava desenhados a preto e branco ausentes de cor e de calor

Irene Ermida

23/10/2008

Registo(s)1



Foto de Ingrid http://olhares.aeiou.pt/





carta redigida em papel de lustro guardado na gaveta das memórias distraídas inclusas e ociosas o branco ressalta no fundo azul turquesa de madrepérolas e jóias obtusas e fora de moda as palavras circuncidadas emergem perenes e alheadas enredadas num qualquer envelope agridoce criado no mofo de qualquer livro lido e esquecido deixado no canto de uma estante arrumada no sótão das quimeras por onde divaga a vontade de ter sido e tornada não ser de um destinatário sem remetente nem morada registada na agenda amarelecida e bolorenta que dança em qualquer pacote sem embrulho desfeito desde o dia em que foi oferecido e esquecido em qualquer caixa postal


Irene Ermida




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.................existo num gesto.......................
..........................numa gota......................
...............numa nuvem.....................................
num registo.....................................
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15/06/2008



Imagem da autoria de adesenhar que pode ver também em Cartoons 3D .