21/03/2009

Imprevisto(s) 2

oculto-me na linha de um sorriso

que insistente desabrocha nos meus lábios

de cores desmaiadas pelo espelho

que nada me diz

no silêncio áureo

da catedral de sonhos barrocos


dos meus gestos maquinais

surge um esboço do mundo

incandescente e fugaz


e num apetite de palavras

cruzo promessas laminadas

por um rio azul
Irene Ermida



05/03/2009

Imprevisto(s) 1


estranho-me no véu de minúsculas

que em vão cobre o meu nome

não me sinto ali no papel

nem me vejo mulher

na translúcida passagem

por lugares distantes das minhas mãos



dos meus olhares vazios

nasce a vontade de encher o mar

de estrelas e de cavalos



num galope desenfreado

retenho uma imagem opaca

da ínfima realidade que sou

Irene Ermida



23/02/2009

Imagem: google

soprava a pena

contra o vendaval

tecido entre a bruma

de nevoeiro nenhum

(cansada)

foi pousar no mar

que a (en)levou

para longe do olhar
Irene Ermida



13/02/2009

é um faz-de-conta
que se atravessa no oásis
de um tudo-ou-nada

maravilha-mulher
de melancolia feita

perdida na multidão
impessoal e anódina
emitente de razões
inexistentes
Irene Ermida



11/02/2009

foi um segundo
(sem ser o primeiro)
numa eternidade
de olhares
de palavras
de gestos
de silêncios
sem tempos marcados
sem memórias
sem voz

26/01/2009

Deixei atrás os erros do que fui

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.



Poesias Inéditas (1930-1935)
Fernando Pessoa
As palavras de Pessoa impressionam pela simplicidade com que exprime a vida!

30/12/2008

Imprecisão 3

FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/


uma misteriosa inquietação

constrói uma consciência impávida
que surge na escuridão de uma manhã

impávida fragmentada ameaçadora

resisto à luz gradual que me cega

e à minha volta espalho pétalas de medo

sabia onde parar?

do fundo retirei os raios de água

que escorriam pelo rosto imóvel

em momentos de hesitação inexistente

sem notas musicais impossíveis

rodo os ponteiros do relógio

e reencontro-me, submersa,

na margem de um rio febrilmente seco
Irene Ermida



Imprecisão 2

FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/




vem aos lábios a letra indistinguível

de difusas canções familiares

um átrio atravessado por um denso nevoeiro


exala aromas de infinitas memórias

de uma infância encadernada de verde

pressenti a indiferença e folheei as fantasias


emersas do gelo inquebrável

que, envolvido em doce nostalgia,

se derretia nas minhas mãos

escorreguei pela vereda das imagens insólitas


e parti, num dia claro,

em viagem

Irene Ermida



21/12/2008

Imprecisão 1


FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/

não arrisco adivinhas nem magias

palavras dormentes acordam o regresso

ao canto esquecido de um quarto

na traseira soalheira da casa invisível

aperto a sombra contra mim

e o calor do relâmpago espreita com olhos de poeira

o segredo que durante milénios ousou feitiços

tropecei na aventura informe e abriu-se o alçapão

pendurei o calendário dos anos seguintes

e as memórias expiraram

num poema

Irene Ermida



11/12/2008

A diferença

Foto: Gonçalo Sousa, http://olhares.aeiou.pt/




A diferença requer um olhar diferente.


Sufocados e submersos pelas intempéries da vida, que se desenrola numa sequencialidade de banalidades frívolas, acessórias e rotineiras, empurrando-nos para o lado seco e amargo do tempo, permanecemos imunes e indiferentes, alheios e mecânicos, vazios e distantes.


O olhar embaciado pelos reveses avança em direcção nenhuma, sem sentir, sem pensar, sem saborear.


Tudo é igual porque o queremos ver, sem olhar.


Mas a diferença existe!

Surge, de repente, imponente e incontornável num gesto, num sorriso, numa lágrima, numa palavra, num olhar! Parece efémera... mas, na verdade, perpetua-se em nós e marca a diferença de sermos iguais.

Irene Ermida



26/11/2008

.
pintei-me de cores esbatidas pelo fogo
.
e lavei os olhos nas cinzas mornas e vivas
.
queimei as páginas da história que nunca aconteceu
.
soltei estrelas, suspiros e palavras
.
que flutuaram no olhar esquecido
.
de uma tarde apagada


.

Irene Ermida



24/11/2008

.
atirei-me para um canto
.


vazia de sentidos e de dores
.


olhei-me com olhos de mares e de montanhas
.


sem riscos delineados por sombras imutáveis
.


ali, no meio de um querer sem porvir
.


rasgada por raios de vento e de silêncio
.


permaneci inerte na neve de branca calma
.

e vivi uma única vez
.
Irene Ermida



22/11/2008

Dores e outras coisas de momento

...
De há uns tempos para cá, estou a ficar preocupada comigo, o que acontece muito raramente. Quando aparece uma dor, espero que passe. Mas esta dura há quinze dias... e não há meio de passar! É intermitente, é certo, e geralmente aparece ao fim da tarde. Deduzo que seja stress (este palavrão que dá com tudo!). Reuniões até às tantas e quase diárias, imprevistos atrás de imprevistos que exigem resposta pronta, a rotina de problemas... Um infindável colar de contas (ou de contos?)...

Ontem, quando cheguei a casa, decidi enfiar-me numa banheira de água quente para descontrair. Adormeci e só acordei com a água fria!

Hoje fui para uma esplanada à beira-mar, sob um sol resplandecente, com boa música de fundo e dediquei-me à leitura de Mr. Vertigo, de P. Auster. Perdi a noção do tempo, até ter dado conta do zumzum que estava à minha volta. Incomodada, decidi ir ao cinema, onde me esperava uma fila enorme de pessoas que ao fim-de-semana se recolhem no shopping para esmagar o tempo.

Saí com a tal dor de cabeça e vim para casa.

E, de caminho, embrenhada nos meus pensamentos, comecei a acordar: há qualquer coisa que não está bem comigo! Ou seja, tomei consciência de que não suporto espaços com gente... pessoas... seres humanos... E isto, sinceramente, preocupa-me. Gostar de estar sozinha, evitar espaços contaminados de vozes, de risos, de movimento... Não é normal ou, pelo menos, não era até agora!
Quando é que sabemos que sofremos de misantropia?!
...
Irene Ermida



17/11/2008

Pérola(s)

Foto: Barbara Angel http://olhares.aeiou.pt/

um corpo estranho

invade o ser que sou

sem o ser

as pérolas deslizam
.
como grãos de areia
.
pela extensa silhueta
.
em reflexos azuis e sem cor
.
sem sabor
.
pérolas que caem
.
como gotas de água
.
pela face pálida e serena
.
sem contornos
Irene Ermida



16/11/2008

(de)gelo



Foto: JM Monteiro http://olhares.aeiou.pt/




toco o gelo e a neve


fundidas nas tuas mãos


entrelaçadas nas minhas




um degelo chamado eu


por um tu chamado nós


acesos num lume


que queima as asas


de um querer


com voz


Irene Ermida






Desabafar é bom... ou excelente?!


Já há uns tempos atrás tive oportunidade de me referir à minha professora primária.
E hoje, mais uma vez, quero, necessito, mais do que nunca, lembrar-me dela!
O seu estatuto impunha respeito, admiração e o seu empenho e dedicação incentivava os melhores e não deixava para trás os mais fracos. Uma professora que ensinava, corrigia, educava… tratava-nos como alunos e como filhos, víamos nela a figura de mãe, de conselheira, de lutadora: era a senhora professora. Aprendíamos, porque ela nos ensinava, porque sabia exactamente qual a sua missão! Uma EXCELENTE professora!
Nós, crianças, sentíamo-nos gratas! E, pelo seu aniversário, oferecíamos-lhe um ramo de flores em sinal do nosso reconhecimento, que amaciava a sua aparência austera e deixava ver aos mais atentos, as lágrimas que ficavam a brilhar nos seus olhos.
Ao longo da nossa vida de estudantes privámos com EXCELENTES professores, que fizeram a diferença e se perpetuaram na nossa memória como exemplo a seguir. Dos fracos? Não reza a história! Caem no mais profundo esquecimento!
A todos os EXCELENTES professores que, diariamente, se empenharam ao longo de décadas (e aos que se empenham) na sua tarefa de ensinar pelo simples prazer de ver os seus alunos aprender, sem esperar louvores, nem menções honrosas, nem prémios, conscientes de que a sua acção ultrapassa qualquer rótulo, que o contributo que prestam para melhorar a «educação» dos homens e mulheres que um dia serão profissionais dos mais diversos sectores (mecânicos, cozinheiros, jornalistas, médicos, engenheiros, motoristas, ministros…), e que sempre foram alvo da indiferença total por parte da sociedade que deixou de lhes reconhecer competência, autoridade, dignidade; votados a um esquecimento displicente durante anos e anos, a quem, mais do que qualquer formalidade de avaliação, interessa o juízo que os seus alunos formam deles no quotidiano das suas aulas e fora delas…
A todos os EXCELENTES professores que foram avaliados com uma menção de SATISFAZ (importaria saber quantos requereram a menção de BOM no anterior sistema de avaliação!) e se contentaram com ela, porque o mais importante era a sua rotina escolar centralizada na aprendizagem dos alunos, porque esse sim, era o sentido do seu trabalho…
A todos os EXCELENTES professores que deram o seu contributo para que os seus(suas) alunos(as), passados uns anos, soubessem escrever, ler, criticar, formar opiniões, argumentar, fundamentar, mesmo contra eles…
A esses EXCELENTES professores anónimos para quem as quotas nunca serão suficientes nem os afectará na sua integridade, presto a minha homenagem porque souberam (sabem) enriquecer o país de ideias e de atitudes!
Expresso, por último, à minha professora primária um agradecimento especial por me ter ensinado que a pronúncia do “x” pode ser diferente consoante a palavra, e que o significado da palavra EXCELENTE não se limita a um mero quantitativo numérico, mas antes corresponde a um conteúdo e a uma essência incompreensíveis a quem não guarda memória dos seus professores.
Afinal, não é mais importante ser um BOM EXCELENTE do que um EXCELENTE de 10 valores?!

Irene Ermida



10/11/2008

Cinema sem pipocas

“Shine a Light”

À última da hora venci a inércia da segunda-feira e lá fui ao «Cinema sem Pipocas». Um documentário arrepiante
de Martin Scorsese com a banda dos Rolling Stones, filmado em 2006, no Beacon Theater, Nova Iorque.
Não fosse a má qualidade do som da sala, e ter-me-ia julgado em pleno espectáculo ao vivo!
A força das imagens traduz a energia contagiante de Mick Jagger e a marotice de Keith Richards.
Momento alto do concerto: o dueto com M. Jagger e Buddy Guy.
Momento de reflexão do filme: resposta de M. Jagger a um jornalista durante uma entrevista há cerca de 30-40 anos atrás que pretendia saber se o cantor se imaginava aos 60 anos a fazer o mesmo - Claro, na boa!
Uma lição para os mortos-vivos do planeta! Deste, entenda-se!

(des)enlace

...
D E S E N L A C E evidente à luz do dia
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espelhado na transparência das águas
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e LIVRE é o que sempre foi
...
D E S A C O R R E N T A D O
...
E
...
I N T E N S O
...
Irene Ermida