09/05/2010


Sensacional, este concerto, ontem, no Coliseu do Porto!

05/04/2010

(In)expressividades 3

pálida cor de ti
estende-se na minha janela
e não mostra o mundo

esconde-se na névoa
de estar aqui
e de não ser eu
nem tu

só matéria, só sonho
sem pontos
sem dedos...

Irene Ermida

(In)expressividades 2

Imperceptível,
reconheço o som dessa voz
que me trai o pensamento

desligo a existência
embrulhada em fina folha de papel
decorada, já desbotada

de não saber nada
da alma inútil
e de frio vestida
Irene Ermida

(In)expressividades 1



sem expressão, imóvel
fixo-me na miragem de um mar
pleno de vazio sentido

serei quem fui?

sem palavra que me baste

não fui quem serei

num estranho lema
sem noite
Irene Ermida

After Dark - Os passageiros da noite

«Uma vez tomada a decisão, a coisa não é assim tão difícil quanto isso. Basta que nos separemos da realidade concreta e deixemos para trás o nosso corpo, a fim de nos transformarmos num ponto de vista conceptual, desprovido de matéria. Esse estado permite-nos atravessar toda e qualquer barreira, passar por cima do abismo mais profundo. E transformamo-nos de facto num mero ponto,atravessamos o ecrã de televisão que separa os dois mundos. Partimos deste lado e somos transportados para o outro lado. Quando passamos através da parede e transpomos o abismo, o mundo conhece uma enorme transformação, abre falhas, desmorona-se e desaparece por momentos.Tudo adquire a consistência de uma poeira fina, imperceptível, que se espalha em todas as direcções. É então que o mundo torna a reconstruir-se. Cerca-nos uma nova materialidade. E isto acontece num abrir e fechar de olhos.»

Murakami no seu After Dark, faz de nós observadores e participantes numa narrativa cativante e absorvente. As quatro horas que a leitura me ocupou, provocou-me a sensação do cinema, com a vantagem de participar, embora passivamente, no cenário! Mas sou suspeita, pois este é um dos meus escritores favoritos!

17/02/2010

PROTÁGORAS E O DISCÍPULO

Conta-se que Protágoras, sofista notável, admitiu na sua escola o jovem Enatlus. E como este fosse pobre, firmou com o mestre um contrato: pagaria as lições quando ganhasse a primeira causa.
Terminado o curso, Enatlus não se dedicou à advocacia e preferiu trabalhar no comércio, carreira que lhe pareceu mais lucrativa.
De quando em vez, Protágoras interpelava o seu ex-discípulo sobre o pagamento das aulas e ouvia como resposta invariável a mesma desculpa:
— Logo que ganhar a primeira causa, mestre! É do nosso contrato!
Não se conformou Protágoras com o adiamento indefinido do pagamento e levou a questão aos tribunais. Queria que o jovem Enatlus fosse obrigado, pela justiça, a efectuar o pagamento da dívida.
Ao ser iniciado o processo perante o tribunal, Protágoras pediu a palavra e assim falou:
— Senhores Juízes! Ou eu ganho ou perco esta questão! Se eu ganhar, o meu ex-discípulo é obrigado a pagar-me, pois a sentença foi a meu favor; se eu perder, o meu ex-discípulo também é obrigado a pagar-me em virtude do nosso contrato, pois ganhou a primeira causa.
— Muito bem! Muito bem! — exclamaram os ouvintes. — De qualquer modo, Protágoras ganha a questão!
Enatlus que era muito talentoso, ao perceber que o seu antigo mestre, queria vencê-lo por um hábil sofisma, pediu também a palavra e disse aos membros do tribunal:
— Senhores juízes! Ou eu perco ou ganho esta questão! Se perder, não sou obrigado a pagar coisa alguma, pois não ganhei a primeira causa; se ganhar também, não sou obrigado a pagar coisa alguma, pois a sentença foi a meu favor!
E dizem que os magistrados ficaram atrapalhados e não souberam lavrar a sentença sobre o caso.
O sofisma de Protágoras consistia no seguinte: quando convinha aos seus interesses, ele fazia valer o contrato, e quando este podia de qualquer forma prejudicá-lo, ele pretendia valer-se da sentença. Do mesmo sofisma, o jovem Enatlus lançou mão com grande habilidade.

(Não sei de onde tirei isto...)

16/02/2010

Nas nuvens


Tantos objectivos que se vão desmontando, substituídos por imprevistos que nos ensinam a viver. Um argumento que podia ser o de qualquer um de nós, com variáveis de espaço e de tempo. 

09/02/2010

Sabedoria popular

Quando enfrentamos situações de extrema pressão, socorremo-nos de todo o tipo de raciocínio lógico que, quando esgotado, nos impele a apelar a forças misteriosas capazes de nos desvendar as estranhas motivações e meandros do pensamento. Precisamos de entender o que existe no subterrâneo do comportamento porque, no fundo, é uma maneira de nos entendermos a nós próprios, enquanto seres em interacção social, e tentarmos aceitar o outro.

Apesar deste esforço, é comum não encontrarmos explicação alguma para certos acontecimentos que nos abalam como tremores de terra inesperados, com réplicas sucessivas, das quais emergem ideias que, associadas gradualmente, acabam por colocar as peças nos sítios certos do labiríntico puzzle por onde vagueia a nossa mente.

A vida ensina-nos a crescer com estes abalos emocionais e a ganhar imunidade suficiente para recuperarmos e nos fortalecermos.

E o que é certo, é que a sabedoria popular, com a sua pragmática perspectiva, acaba por simplificar e dar-nos o consolo necessário para prosseguir e enfrentarmos de novo outros sismos que, aos poucos, passamos a relativizar e a aceitar mais naturalmente, deixando de constituir a grandeza do nosso pensamento e reduzir-se à sua ínfima essência.

É caso, pois, para dizer: cá se fazem, cá se pagam; ou, quando pensamos ter encontrado todas as respostas, a vida encarrrega-se de mudar todas as perguntas; ou ainda, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe!

Irene Ermida

07/02/2010

Inocuidade



Há momentos em que descobrimos, sem razão aparente e só porque o nosso cérebro tem mesmo de se ocupar com algum pensamento, que há pessoas inócuas… De tão inofensivas que são, transformam-se em indiferentes, como qualquer marco de correio ao lado do qual passamos todos os dias, mas em que já ninguém repara. Não nos fazem mal, mas também não nos fazem bem.
Damos conta que, apesar de serem presença assídua na nossa vida durante anos, podiam ser substituídas por outras, igualmente inócuas. E não faria diferença nenhuma. Ou seja, estão ali por estarem, porque falam, mexem e riem. Tão transparentes que até magoa; tão ocas que até dói; tão fúteis que até ofende… E vamos deixando-as estar, pois, não está na nossa natureza criativa e sumarenta, sacudir o pó de tal ausência de conteúdo.
Felizmente, há o contrário, bem mais raro, é certo, mas que compensa!  Instantes fulgurantes bastam, por vezes, para que um rosto, um olhar, um sorriso, uma palavra, irrompam pelo nosso discernimento adentro e nos provoquem emoções perpétuas e inesquecíveis. Sem esses encontros seríamos nós, igualmente, vazios de sentido.
Seres que irradiam uma energia invisível poderosa, que nos arrancam da mesquinhez e da banalidade e nos catapultam para um horizonte tão extenso e fértil, que nos fazem sentir verdadeiramente substantivos e significantes. E esse universo de sensações intensas perdura e multiplica-se, na consciência plena de que também marcamos a diferença, o que pode, evidentemente, transformar-nos no alvo de sentimentos menos nobres e no centro de situações embaraçosas.
Cabe-nos activar a lucidez e a distância em relação às tentativas de atrofia e asfixiamento do nosso estar, do nosso sentir e do nosso ser, e explorar serenamente os trilhos que nos vão surgindo. E, se no início, é tarefa penosa, acaba por ser, gradualmente, um objectivo tentador e delicioso, que compensa o esforço!

Irene Ermida

06/02/2010

«Começar a acabar»


Um belíssimo texto de Beckett numa interpretação excepcional de João Lagarto.

Como é que ficamos presos pelas palavras? Pela maneira como são escritas, mas sobretudo pela maneira como são ditas! O sentido que lhes conferimos ao interpretá-las subjectivamente e ao dar-lhes corpo e alma! A existir, a alma só existe na forma como se dizem as palavras! Não basta pensá-las e senti-las, é preciso corporizá-las em sons e só assim ganham vida!

A alternância entre o discurso demente e ilógico e o discurso lúcido e verosímil, transporta-nos à dimensão real e fantástica da dimensão do ser humano. E o amor subjacente a tudo, apesar de tudo, numa profundidade plena de sentidos!

Excelente espectáculo!

03/02/2010

Duas interpretações...








L is for the way you look at me

O is for the only one I see

V is very, very extraordinary

E is even more than anyone that you adore and



Love is all that I can give to you

Love is more than just a game for two

Two in love can make it

Take my heart and please don't break it

Love was made for me and you

26/01/2010

Filme «O dia da saia»


Um filme intenso que retrata o meio escolar da sociedade francesa multi-cultural e multi-racial. Uma história que põe a nu, por um lado, a fragilidade de uma professora exposta diariamente a uma tensão desmedida e à qual acaba por sucumbir e, por outro, à indisciplina dos alunos e a tolerância com que é tratada, tudo em nome dos direitos humanos de alguns. Um complexo retrato de uma sociedade sem determinação e sem força, que pode ser qualquer uma!
Uma interpretação de Isabelle Adjani que ficará memorável na sua carreira.

24/01/2010

Inorgânica








inorgânica e homogénea
passou a vida sem chorar
por quem, não sabe
nem porquê

dura e inerte
passou pela vida sem a sonhar

e amorfa permaneceu
nos bastidores de si
sem se pensar

Irene Ermida

21/01/2010

(in)temporal




Foto: João Prates


e havia vento
que agitava as nuvens de vidro
num espelho esférico

e havia a dimensão
que lhe dava os meus olhos
à escala da intensidade e da cor da luz
branca e cálida, liquefeita e visível

e não havia trovões
nem orvalhos
nem rajadas
havia deuses e demónios
de mãos dadas!

Irene Ermida

19/01/2010

Pela comunicação

.

"Rapport é a capacidade de entrar no mundo de alguém, fazê-lo sentir que você o entende e que vocês têm um forte laço em comum. É a capacidade de ir totalmente do seu mapa do mundo para o mapa do mundo dele. É a essência da comunicação bem-sucedida."


Anthony Robbins

À primeira vista parece tão simples e fácil. Mas esta capacidade de percorrer com o outro (que abrange todos os tipos de relacionamento: familiar, de amizade, de amor, profissional, social) os mesmos caminhos das emoções, dos sentimentos, dos pensamentos, exige uma forte resistência mas, se a atitude não for recíproca, chegamos a um ponto em que a nossa energia se esvai e precisamos de tempo para a recuperar. Ha pessoas que se auto-regeneram porque têm uma força infinita para manter-se em constante aprendizagem. Não pressupõem que já atingiram o ponto ideal; pelo contrário, mantêm a abertura de mente e de coração necessária ao seu restabelecimento e até, renascimento.
Há momentos em que esta atitude perante a vida se torna esgotante, pois, a procura e as solicitações ultrapassam os limites que, também essas pessoas, têm. Obviamente, que ninguém é imprescindível. E nem esses seres dotados de uma comunicação peculiar o são. E também eles necessitam de ter ao seu lado, alguém que alimente as suas necessidades de exploração dos seus «mapas» interiores e os desafiem rumo a novos destinos, por percursos ainda desconhecidos.
É uma procura incessante de algo para além fronteiras e vão deixando pelo caminho marcas inolvidáveis e sólidas que fortalecem para sempre quem as recebeu.
Nunca estão sozinhos, porque estão sempre consigo próprios e a solidão é a recompensa de se terem dado aos outros. Esta espécie de «levitação» preenche os espaços vazios com recordações e lembranças do que fizeram de bem e ajudam a suportar e a entender o que fizeram de mal.
Sempre a um ritmo diferente dos outros, incompreendidos e misteriosos, avançam devagar, porque sabem que o tempo não existe. ´
Plagiando um amigo meu: Não há relações significativas; o que há são pessoas significativas!

11/01/2010

Tremor(es) 3

aturdida, oscilo
na penumbra do amanhã
que chega ainda hoje

no cais de embarque
não parto sem ti
e entrego-me ao tempo
e dele depende a saída
de voltar a ser
inquebrantável no propósito
de, pela última vez,
adormecer sem sonhar
com águas salgadas revoltas
e acordar num beijo
temperado de paixão.


Irene Ermida

Tremor(es) 2

é um receio na sombra
que me estremece o sentir
e sustenta uma voz secreta

e viro do avesso
o momento do olhar
colado no meu pensamento

reavivada na tua presença
afago a memória
com um sorriso generoso
e abraço a luz
com uma força firme
para nunca mais a ver fugir
entre os fios da saudade


Irene Ermida

Tremor(es) 1

e assim trémula de palavras,
entre reticências eternas
sorvo as gotas que deslizam na tua voz

ausento-me do meu corpo
e parto numa viagem sem fim
por estradas amplas de sentidos

e toco nas nuvens com os dedos
puxando-as levemente para mim
num aconchego de minutos

solto-as num ímpeto,
e deixo-as voar ao vento,
céleres,eufóricas e saciadas
penetram os poros da minha pele
e alimentam a sede do porvir!


Irene Ermida
Vale a pena ver o filme da minha amiga Lena!!!

http://mhfg1.wordpress.com/2010/01/10/let-it-snow/