09/02/2011



o que me faz olhar em frente e avançar, não é fugir do passado, mas antes torná-lo ainda mais passado e para que o presente o seja também um dia, sem a amargura de não o ter vivido!

Irene Ermida

08/02/2011

pois...

na teoria é fácil...


"Algumas pessoas desconfiam do carácter instintivo das emoções e reprimem-nas porque receiam sofrer ou mesmo perder o controlo das suas vidas, mas tentar viver à margem das nossas emoções é uma falácia: não só nos limita, como as emoções reprimidas passam ao inconsciente e são muito mais inconsoláveis nessa parte da nossa mente"

http://www.jn.pt/VivaMais/interior.aspx?content_id=1775906&page=-1

Paradoxo(s) 3

não escrevi uma letra de canção numa tarde que tardava ao fim do dia como se a noite saltasse e me afagasse numa névoa tão nítida que as estrelas suavizavam a escuridão que me prendia

não escrevi uma letra de canção que falava de amor nem de paixão mas só desse horizonte que me perpassa a cada segundo sem tempo contado nem retido na minha mão

não escrevi uma letra de canção mas podia tê-la escrito se a mão soltasse ao vento pétalas de mim e de ti sem escravidão de existir entre muros erigidos entre nós

Irene Ermida

Paradoxo(s) 2

fechei a porta que se abria sobre um mar deslizante e suave e voltei a fechá-la não a sete chaves mas a um número potenciado ao infinito para que dúvidas não restassem sobre a viagem no tempo

fechei a porta que se fechava e abria num vendaval de sombras dançando à volta da fogueira e mais não havia senão fantasmas criados e alimentados por um diabólico monstro incansável

fechei a porta mas ela abriu-se de um sopro matinal que acordava precocemente de um sono feito leito onde me aconchegava até ao limite de quem sou

Irene Ermida

Paradoxo(s) 1


acontece por vezes as memórias deixarem de ser o que pensávamos terem sido porque ela própria nos atraiçoa e inventa o deserto e o oásis que se alternam nas mágoas e alegrias que supomos querer na vida

acontece por vezes ficarmos presos no limbo do que queríamos e não tivemos e do que tivemos e não queríamos afinal ter tido porque as lembranças do gosto, do cheiro e do toque alimenta a hora

acontece não ter acontecido e querer tanto que sonhamos um passado em vez do presente que pintamos as recordações de tons coloridos para não enfrentarmos o medo de sermos hoje


Irene Ermida

03/02/2011

Frontalidade amena

Convicta, em tempos que já lá vão, comentei com um amigo: «Tenho um defeito: sou frontal». Ao que ele me respondeu, de modo igualmente convicto: «Isso é defeito?!» 

Nunca mais pensei nisso... até agora. A pergunta exclamativa e retórica do meu amigo ficou no ar, simplesmente, e continuei a ser o que me exige a natureza ser. Quis o tempo, e o que ele me tem ensinado, que essa frontalidade «frontal» fosse amenizando o radicalismo com que sempre assumi esse meu «defeito» incómodo para muita gente. Não que tenha deixado de o ser, mas porque a tolerância e a serenidade foram tomando em mim um lugar mais valorizado.

Ser razoável, mas ao mesmo tempo directa e sem subterfúgios, tem sido a balança onde tenho o meu centro de apoio. 

Vem isto a propósito de, por vezes, mesmo sendo frontal e assumindo pensamentos, emoções, sentimentos e estados de alma, torna-se difícil passar uma mensagem. Ou seja, posso dizer «quero isto ou não quero aquilo» que a interpretação pode ser sempre deturpada e verem nas minhas palavras apenas uma mera necessidade de afirmação gratuita!

Ninguém está a entender nada, pois não? Eu explico:

Quando escrevo no meu blogue «palavras» e as associo numa determinada sequência ou atribuo-lhes um objecto, isso (e digo-o frontalmente!) não quer dizer absolutamente nada!!! A minha frontalidade não passa, nem passará nunca, pelo recurso a meios indirectos. Quando digo nos olhos de alguém o que penso ou sinto, é porque penso e sinto exactamente assim! 

Quando brinco com palavras, num mero exercício técnico, faço-o pela necessidade de canalizar para o exterior «as palavras» e não os sentimentos! Sei que não é fácil ver esta equação de um prisma unilateral e quem lê, acredita que lê os meus estados de alma e não apenas palavras. Não posso obrigar ninguém a ver apenas o que está ali, à frente dos olhos: palavras! Mas também ninguém pode responsabilizar-me pelas interpretações que decidem atribuir aos meus textos.

O acto de criação está num patamar muito mais sublime do que a realidade do dia-a-dia. Ou seja, a realidade é real! A realidade das palavras é irreal. São as duas faces da mesma moeda! Pode uma pessoa não amar e escrever sobre o amor? Só respondo por mim: posso! Porque quando se ama, não se perde tempo a escrever palavras, vive-se intensamente o sentimento! 

E se querem ler nas entrelinhas do que escrevo, é fácil: há fases de maior ou menor actividade de publicações! São livres de pensar o que quiserem; eu sou livre de amar, de escrever e de dizer. (E por fim até substituí as reticências pelo ponto final para não dar azo a livres pensamentos, cuja responsabilidade não é minha.)

Permaneça-se na vida com a frontalidade necessária ao confronto connosco próprios!

Irene Ermida

30/01/2011

Sabor(es)


Desenho de Amadeu Brigas
não há derrotas nem vitórias
nem sabores amargos nem doces
só há verdades
no corpo que se desnuda
e mata vontades
na boca que devora
suores e tremores
nas mãos que deslizam
pelos contornos de um olhar
que não vê
só há um navio à deriva
náufragos que gritam
e movem a água e a terra
e resistem ao luar
sem provas a dar
e abraçam o sol
que nasce na ponta
dos teus dedos.

Irene Ermida

Breve

não explicamos a vida
ela explica-nos a nós

como somos
é o como fomos





29/01/2011

Am' o mar



Desenho de Amadeu Brigas

não sou a tua mão
não sou o destino de ninguém
há um rio ao lado que sussurra
segredos de um passado

e eu amo o mar
na extensão do presente 
que aquece o sangue
e enlouquece 

não sou o teu sorriso
e não sou o deserto de ninguém
há um leito junto a mim
que abre portas e janelas

amo o sol
derramado num agora
que pode ser um sempre
pode ser um já
sem urgência de palavras
esgotadas.

Irene Ermida

Voar



Desenho de Amadeu Brigas


não, não é a tristeza que me chama
nem a vela que queima os meus dedos
é só a vida que não se cala
num corpo que não existe
é a luta contra um nada
que geme e profana a natureza
num desejo absurdo e insano
de querer o horizonte
de pintar um céu
de soltar as amarras
e de voar.

Irene Ermida

Na palma da mão


Desenho de Amadeu Brigas


resisto ao inevitável até ao último minuto
como se do tempo dependesse a minha vontade

mas não é no olhar que estou
nem no sentido de tocar as nuvens

estou apenas
e sou sem ser quem devia
mas quem quero ser

alheia à distância de um palmo
das estrelas
e da mão que me segura.

Irene Ermida

30/12/2010

«O amor não acaba, nós é que mudamos»


«Um homem e uma mulher vivem uma intensa relação de amor, e depois de alguns anos se separam, cada um vai em busca do próprio caminho, saem do raio de visão um do outro. Que fim levou aquele sentimento? O amor realmente acaba?

O que acaba são algumas de nossas expectativas e desejos, que são subtituídos por outros no decorrer da vida. As pessoas não mudam na sua essência, mas mudam muito de sonhos, mudam de pontos de vista e de necessidades, principalmente de necessidades. O amor costuma ser amoldado à nossa carência de envolvimento afetivo, porém essa carência não é estática, ela se modifica à medida que vamos tendo novas experiências, à medida que vamos aprendendo com as dores, com os remorsos e com nossos erros todos. O amor se mantém o mesmo apenas para aqueles que se mantém os mesmos.

Se nada muda dentro de você, o amor que você sente, ou que você sofre, também não muda. Amores eternos só existem para dois grupos de pessoas. O primeiro é formado por aqueles que se recusam a experimentar a vida, para aqueles que não querem investigar mais nada sobre si mesmo, estão contentes com o que estabeleceram como verdade numa determinada época e seguem com esta verdade até os 120 anos. O outro grupo é o dos sortudos: aqueles que amam alguém, e mesmo tendo evoluído com o tempo, descobrem que o parceiro também evoluiu, e essa evolução se deu com a mesma intensidade e seguiu na mesma direção. Sendo assim, conseguem renovar o amor, pois a renovação particular de cada um foi tão parecida que não gerou conflito.

O amor não acaba. O amor apenas sai do centro das nossas atenções. O tempo desenvolve nossas defesas, nos oferece outras possibilidades e a gente avança porque é da natureza humana avançar. Não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice. Paixão termina, amor não. Amor é aquilo que a gente deixa ocupar todos os nossos espaços, enquanto for bem-vindo, e que transferimos para o quartinho dos fundos quando não funciona mais, mas que nunca expulsamos definitivamente de casa.»


Martha Medeiros

Eduardo Agualusa


O penúltimo livro lido, uma compilação de crónicas do escritor angolano Eduardo Agualusa, veio reforçar o meu gosto e preferência pela literatura africana. Há um misterioso dom numa escrita tão transparente e, ao mesmo tempo, tão intensa!


«Uma segunda oportunidade»
«Li recentemente, num jornal brasileiro, a história de um homem que foi atingido por um raio durante uma tempestade tropical. um médico que passava pelo local socorreu-o. Verificando que não era capaz de o reanimar (o infeliz sofrera paragem cardíaca), afastou-se para pedir ajuda. Nesse momento o homem foi atingido por um segundo raio, e com isso, espamosamente, recuperou a consciência. Morto por um raio, ressuscitado por outro, aquele homem está certamente convencido que Deus lhe deu uma segunda oportunidade.
Lembro-me disto a propósito do amor. Pode haver, no amor, uma segunda oportunidade?»

A Substância do Amor e Outras Crónicas, pág. 169

29/12/2010

Um óptimo 2011!

Quem é que já anda a pensar nas promessas para 2011?!

Eu já decidi: vou continuar a ser eu mesma, acordar e pensar no dia que tenho pela frente, ser optimista e inconformada, realista e sonhadora, surpreendente e desconcertante, a preocupar-me com quem gosto e ajudar no que for possível! E, sobretudo, muita saúde para mim, para os meus e para todos os meus amigos e amigas!

«A rapariga que roubava livros»

Uma narrativa magnífica que nos surpreende ao ser contada pela Morte mas que nos seduz palavra a palavra, linha a linha, página a página, até perdermos a noção do tempo e encontrarmos um espaço longínquo, mas tão perto, numa deliciosa doçura do ser humano, numa tragédia da humanidade que nos faz pensar e relativizar o sofrimento!
Escusado será dizer que foi uma das melhores leituras até hoje!

28/12/2010

Podia ser uma crónica...


Aconselhada a organizar-me mentalmente, abro a página e solto as palavras para este espaço em branco, pois, até hoje, não descobri ainda outro meio mais eficaz para tentar colocar algumas peças, não no seu devido lugar (porque nunca estarão!), mas no lugar onde agora têm de estar. E quando digo agora, é agora mesmo! Daqui a uns minutos se a minha respiração deixar de funcionar, aqui ficarão neste «lugar» e nunca se saberá se terão ficado onde deveriam, porque tudo está em permanente mutação, ou se, pelo contrário, deveriam estar todas às avessas numa miscelânea indecifrável e misteriosa e se tal situação me poderia proporcionar outros rumos e outros clarões

À medida que a experiência e o conhecimento se vão somando a um todo, é mais que provável que ele se desintegre em dúvidas e perplexidades (ele, o «todo»!). Isto, porque quando achamos que a quantidade de vivências nos dará mais certezas de que o caminho não é aquele, vem sempre um pormenor estragar tudo e derrubar as convicções que demorámos tanto a construir, tal como aqueles legos empilhados, e desempilhados logo a seguir, pelas mãos de uma criança no tempo em que as teclas não eram a sua ferramenta predilecta!

Vem a propósito este fluxo de vocábulos da necessidade de evacuar as ideias engelhadas em pregas, no rosto de uma idosa arruinada pelos anos, pela doença e pelos desgostos, sobrepostos em rugas que nem uma cirurgia plástica seria capaz de disfarçar, o que também não está em questão, porque, por mais lisa que esteja a pele, as cicatrizes estão na profundidade do seu âmago e nenhuma técnica poderá reparar.

Poderia e deveria concluir por aqui, mas sinto que as palavras que aí vêm ainda poderão rasgar algumas intenções e colar fantasias, de modo que o esforço de sanar (ou sarar?!) as gelhas da roupagem de inverno, não seja em vão! E que inverno! E não me refiro propriamente aos elementos da natureza que têm sempre o seu efeito negativo na auto-estima e confiança do ser humano, durante os meses em que o sol descansa da sua labuta de verão! 

É um inverno vacilante, que quer ser ousado, mas apesar da constante procura, não encontra o ponto de apoio para colocar o calcanhar, ou pelo menos um dos dedos do pé, nem que seja o quinto e mais pequeno em proporção. Esta ausência de fundamento prende-se directamente com a surpresa inevitável com que algumas vicissitudes teimam em nos confundir. 

Não que esteja confusa, nem vacilante... pois, afinal... há uma certeza proverbial que ordena que todos os caminhos vão dar a Roma, o que implica uma fatalidade, vá por que caminho for! 


Irene Ermida
(num momento que foi este, mas podia ter sido outro!)

22/12/2010

Sem medo de perder




"Chega o final de ano e a gente se projeta para o futuro de uma forma um pouco vacilante: por um lado, nosso espírito está voltado para a renovação, para investir em projetos inéditos, para sonhar alto e combater nossas carências. É como se pudéssemos, de um dia para o outro, zerar o que foi realizado e nascer de novo.

Por outro lado, temos dificuldade em dar essa zerada, porque isso significaria abrir mão de algumas coisas que foram vividas, e ninguém quer trocar uma coisa por outra, e sim acumular. O ideal seria o novo ano nos receber de portas escancaradas para que passássemos com toda nossa bagagem.

Porém, a porta não é tão escancarada assim. Não dá pra trazer tudo com você. Principalmente se você está assim tão repleto de desejos novos. Para que possamos receber o novo, é preciso deixar pra trás desejos antigos. Isso não significa que a gente não deva guardar boas lembranças, mas não dá pra se agarrar a isso como a uma âncora. A gente só pensa em ganhar, mas é preciso aprender a perder.

Foi lendo uma crônica do Contardo Calligaris, de dezembro de 2005, que me deu o estalo: como é que vou abrir espaço para novos acontecimentos e emoções na minha vida se não consigo me despedir do ano passado, do tempo passado ?

Adeus ano velho. Foi ótimo, foi péssimo, foi fácil, foi difícil, me dei bem, me machuquei, teve de tudo. As coisas boas naturalmente vão se acomodar na minha mochila e vir comigo, mas e tudo aquilo que não cabe mais na minha vida ? Faço o que com o excesso de peso ?

Algumas pessoas desejam uma nova perspectiva profissional, mas, em vez de um basta para o trabalho que já não serve, se arrastam mais um pouco e os prognósticos de novidade não se cumprem. Há os que querem parar de fumar, parar de engordar, parar de beber, mas para tudo isso terão que abrir mão de algo difícil de abandonar: o prazer que certos maus hábitos proporcionam.

E tem aquele assuntinho onipresente, as relações amorosas. A gente já não vê mais graça em sofrer, não quer se acostumar com a dor, com as repetições, com a aridez do coração, mas como virar a página depois de tudo o que foi investido, de tanta tentativa, de tanto sentimento que não foi inventado, mas que existiu de fato ? Para responder a essa questão, volto (e voltarei sempre) a uma frase do Norman Mailer: "As pessoas procuram o amor como solução para seus problemas, quando o amor é a recompensa por você ter resolvido seus problemas."

E emendo com uma citação que complementa a anterior. Do Calligaris, claro, guru e inspirador desta crônica: "Meus votos para todos: um ano novo sem medo de perder."

Martha Medeiros


Obrigada prima por teres partilhado este texto comigo! Longe, mas sempre perto!

10/12/2010

«O amor fino não busca causa nem fruto. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e amor fino não há-de ter porquê nem para quê. Se amo, porque me amam, é obrigação, faço o que devo: se amo, para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há-de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo; amo, ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido. quem ama, para que o amem, é interesseiro: quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, só esse é fino.»


Padre António Vieira