09/10/2011

Fio de luz (3)

...e num mar de sonhos não resistia à forte corrente que a fustigava, que a estremecia numa estrela, que a rodeava de (in)sentidos, de meias-luas, de ventos solitários... deixava-se ir para o abismo pelos caminhos de um amor avassalador. E não via o horizonte que lhe mostrava as nuvens densas dentro de si. E não via a luz cortada de sombras, nem o azul de um mar entontecido pelas marés. Via a margem onde os seus pés teimavam na areia movediça de pantanosos círculos. E tudo era imenso como o mistério de um profundo (a)mar.

Irene Ermida

25/09/2011

Fio de luz (2)

Saltou da margem de si mesma e mergulhou nas águas do rio que se abria de par em par como se ele tivesse estado ali, sempre, à sua espera. Não nadou contra a corrente que a espreitava e lançou-se na transparência da escuridão e via... via tudo que sempre viu, numa vertigem que a fazia voar e sorrir. E o rio segredou-lhe o vento e mostrou-lhe o mar, tingido de tantas cores de oceanos onde o tempo não era tempo e a luz era luz.


Irene Ermida

28/08/2011

Fio de luz


Dominou-a um cansaço extremo como se o peso do mundo fosse apenas uma pena que cambaleando pelo ar lhe tivesse caído em cima dominasse todos os seus movimentos e numa paralisia total nem os olhos abria... eram as cenas repetidas de um filme clássico que se projectavam no seu íntimo e não se mexia... assistia... misturada numa plateia imóvel também, suspensa por um fio de luz sem tamanho nem cor... sabia que extinta a luz o filme repetir-se-ia vezes sem conta num contínuo fluir de imagens. Fechou os olhos e sorriu, alheada de si, e presa no feixe de luz que lhe fugia.


Irene Ermida

06/08/2011

há palavras...

Imagem: https://www.facebook.com/modernart21




há palavras que ficam presas no ar quando te respiro e te sinto em mim

numa espiral de sentidos tão sentidos e sem sentido 

que só a loucura do amor entende o sonho que vagueia por jardins de emoções 

e uma interrogação que acende gélidos vulcões 

e explode em ondas que não são minhas mas são tuas

como se nada existisse entre os dedos colados das minhas mãos nas tuas 

e o sorriso que descobre o momento que acontece sem tempo nem medida 

que possa desvanecer a imagem de dois num só 

e num mundo que gira no sentido que nós queremos 

e toma a forma do que sentimos e renasce e cresce na absoluta certeza 

entre uma lágrima que enternece e um sorriso que consome o destino infalível 

e morro na tua boca que me inunda a alma 

e o pensamento foge de mim para ti 

numa pressa que só tu entendes 

e amo o que há em ti,
amo o que há em nós.

Irene Ermida

25/05/2011

Dêem-me...

Dêem-me um espaço
pequeno que seja
que faço dele um mar de cores...

Dêem-me um espaço
pequeno que seja
que faço dele um oceano de sons...

Mas não me dêem as cores nem os sons!

03/05/2011

Golpe(s)





são golpes de nuvens
que resistem à luz
e não sabem onde cair
e não ferem as sombras
que se desviam entre os ramos vestidos de pedra
numa súbita evasão feita de fogo e de água
são golpes de vozes que estremecem a um canto
e desfiguram os rostos ocultos que perdem a cor
soltam-se as mãos amordaçadas de palavras
e inflamam-se os olhos inertes e opacos 

são golpes que sorriem e choram
e se calam num silêncio que não dorme.



Irene Ermida

02/05/2011

Sem razões...

não as há no sol, no mar, na noite
razões... que se procuram
para enganar o tempo
e o espaço dentro de nós

um espaço metade medo metade fuga
e se mais metades houvesse
não haveria razões 
apenas invenções

Irene Ermida

05/03/2011

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Záfon

Não resisto a partilhar estes extractos deste maravilhoso livro:

«Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o seu olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.» 

« - Aquela mulher é um vulcão à beira da erupção, com uma líbido de magma ígneo e um coração de santa - disse, derretendo-se todo. - Para estabelecer um paralelismo veraz, lembra-me a minha mulatinha lá em Havana, que era uma beata muito devota. Mas, como no fundo sou um cavalheiro dos de antigamente, não me aproveito, e com um casto beijo na face me conformei. Porque eu não tenho pressa, sabe? Há por aí pategos que acham que se puserem a mão no cu a uma mulher e ela não se queixar, já a têm no papo. Aprendizes. O coração da fêmea é um labirinto de subtilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro. Se quiser realmente possuir uma mulher, tem de pensar como ela, e a primeira coisa é conquistar-lhe a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo.» 

«- Alguém disse uma vez que no momento em que paramos a pensar se gostamos de alguém, já deixamos de gostar dessa pessoa para sempre» 

«- Não sei o que me deu. Não te ofendas, mas às vezes uma pessoa sente-se mais à vontade para falar com um estranho do que com pessoas que conhece. Por que será? (...)
- Provavelmente porque um estranho nos vê como somos, e não como quer acreditar que somos.»

«(...) o destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.»


«O tempo ensinou-me a não perder as esperanças, mas a não confiar demasiado nelas. São cruéis, vaidosas, desprovidas de consciência.» 

«Bea diz que que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos.»

16/02/2011




A escrita leve de Sepúlveda flui no contexto histórico do Chile, entre o humor e a reflexão mais séria de alguns representantes de uma geração, que lutou por um ideal, conheceu o exílio e vive da memória traída. Recomendo.



«Nunca confies na memória porque está sempre do nosso lado: suaviza a atrocidade, dulcifica a amargura, põe luz onde só houve sombras. A memória tende sempre à ficção.»

A Sombra do que Fomos, de Luis Sepúlveda

13/02/2011

Estas coisas de astros...

A ciência é o suporte para a maioria do conhecimento e o meu cepticismo perante explicações rebuscadas de espiritualismos talvez até me impeça de conhecer outras explicações, mas quanto à astrologia tenho as minhas crenças! É que lendo isto, há passagens que são um autêntico espelho!

http://www.fototelas.com.pt/signo_de_caranguejo.htm

09/02/2011

Assombrada? Não!


Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...

Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...

Fernando Pessoa


Ao meu filho, pela palavra que me deste!



Não vivo assombrada por fantasmas. Assombram-me os presentes, que se movem num pântano de emoções e sensações, toldadas de descrença, de pessimismo, de desesperança, de dúvidas, de hesitações; que se lamentam eternamente pelo que foram ou viveram e escolhem continuar a deslizar na mesmice da rotina, sem um rasgo de mudança, num hábito de si próprios sem saberem o que realmente são sem os outros. Como se a sua vida dependesse de um milagre suspenso que vai acontecer a qualquer momento adiado. Que escolhem ter algo, alguém ou alguma coisa para que tudo faça sentido, um álibi para o seu crime de desperdiçar tempo e justificar a sua (in)existência no presente.
Esquecem o valor do casual, do imprevisto, do espontâneo, do momento e encolhem-se na vastidão de uma marcha cadenciada de ritmos alucinantes para não pensarem e saborearem a vida. Acordam sem sorrir e fechados ao desconhecido e ao improvável, esperando apenas que chegue de novo a noite e possam dormir, com uma insónia pelo meio, para no dia seguinte repetirem o sagrado quotidiano que os automatiza.
Quando a vida, subitamente os confronta com uma verdadeira e real tragédia que os faz tremer de verdade, há os que lamentam a oportunidade perdida e não poderem voltar atrás para fazer o que evitaram, desanimam e não vêem motivos para lutar, já que foi sempre assim; e há os que olham para trás e pensam que, afinal, até tiveram uma boa vida cheia de bons e maus momentos, e que, por isso mesmo, vale a pena lutar sempre e agarram-se à vida num combate com a natureza por vezes desigual.
Há quem espere ser feliz e há quem seja feliz por não ter esperado e ter feito as coisas acontecerem. Há quem viva conformado com o inconformismo e há quem, sempre inconformista, se sinta sereno por saber que, essa dádiva que é a vida, é um bem precioso de valor incalculável.
Há quem alimente um ideal esperando… Há quem alimente um ideal e o concretize em cada pequeno gesto, numa simples palavra, num sorriso…
Não somos todos iguais, mas cada um de nós pode desenvolver um esforço, por menor que seja, para modificar o dia-a-dia dos outros (acredito eu, apesar de, paradoxalmente, ter os meus momentos de descrença).

Irene Ermida


o que me faz olhar em frente e avançar, não é fugir do passado, mas antes torná-lo ainda mais passado e para que o presente o seja também um dia, sem a amargura de não o ter vivido!

Irene Ermida

08/02/2011

pois...

na teoria é fácil...


"Algumas pessoas desconfiam do carácter instintivo das emoções e reprimem-nas porque receiam sofrer ou mesmo perder o controlo das suas vidas, mas tentar viver à margem das nossas emoções é uma falácia: não só nos limita, como as emoções reprimidas passam ao inconsciente e são muito mais inconsoláveis nessa parte da nossa mente"

http://www.jn.pt/VivaMais/interior.aspx?content_id=1775906&page=-1

Paradoxo(s) 3

não escrevi uma letra de canção numa tarde que tardava ao fim do dia como se a noite saltasse e me afagasse numa névoa tão nítida que as estrelas suavizavam a escuridão que me prendia

não escrevi uma letra de canção que falava de amor nem de paixão mas só desse horizonte que me perpassa a cada segundo sem tempo contado nem retido na minha mão

não escrevi uma letra de canção mas podia tê-la escrito se a mão soltasse ao vento pétalas de mim e de ti sem escravidão de existir entre muros erigidos entre nós

Irene Ermida

Paradoxo(s) 2

fechei a porta que se abria sobre um mar deslizante e suave e voltei a fechá-la não a sete chaves mas a um número potenciado ao infinito para que dúvidas não restassem sobre a viagem no tempo

fechei a porta que se fechava e abria num vendaval de sombras dançando à volta da fogueira e mais não havia senão fantasmas criados e alimentados por um diabólico monstro incansável

fechei a porta mas ela abriu-se de um sopro matinal que acordava precocemente de um sono feito leito onde me aconchegava até ao limite de quem sou

Irene Ermida

Paradoxo(s) 1


acontece por vezes as memórias deixarem de ser o que pensávamos terem sido porque ela própria nos atraiçoa e inventa o deserto e o oásis que se alternam nas mágoas e alegrias que supomos querer na vida

acontece por vezes ficarmos presos no limbo do que queríamos e não tivemos e do que tivemos e não queríamos afinal ter tido porque as lembranças do gosto, do cheiro e do toque alimenta a hora

acontece não ter acontecido e querer tanto que sonhamos um passado em vez do presente que pintamos as recordações de tons coloridos para não enfrentarmos o medo de sermos hoje


Irene Ermida