09/11/2011

Trilho(s) 1





é um passo num trilho gasto de palavras
ditas, em silêncio, que ecoam cá dentro
não há mas nem sim nem não
há uns talvez que mantêm
a nuvem escura e padecem
na sombra escura de mim
nas entrelinhas de quem sou
nos intervalos de quem fui
não vês o que apagas de ti
na vereda que ladeia
o caminho que sou

e algo não esmorece
e permanece.

Irene Ermida



Mew - Symmetry

28/10/2011


(imagem Google, alterada)



"Approchez vous du bord, dit-il; 

-On ne peut pas, Maître, on a peur ; 

-Approchez-vous du bord, réitéra-t-il; 

- On ne peut pas, Maître, on a peur; 

- Approchez-vous du bord", fit-il encore. 

Ils vinrent. 

Il les poussa... 

Et ils volèrent..." 

Guillaume Apollinaire

09/10/2011

O Amargo Destino do Sonho

«Aí residia a sua força e a sua virtude, aí era invergável e incorruptível, aí o seu carácter era firme e rectilíneo. No entanto, esta virtude trazia estreitamente ligados a si também o seu sofrimento e o seu destino. 
Acontecia-lhe o que a todos acontece: aquilo que por impulso da sua mais íntima natureza demandava e em que se empenhava com a maior pertinácia, era-lhe concedido, mas ultrapassando aquilo que ao homem é benéfico. O que começava por ser sonho e felicidade, redundava em amargo destino.»

Hermann Hesse, in "O Lobo das Estepes"
morrem-me as palavras

na nascente da água doce e pura...

morro na tua boca

sem amanhã

porque não és meu

há uma partida do destino
para um lugar qualquer

distante de mim.



Irene Ermida



és a metade que me nega

que se recusa no tormento do esquecimento

és o sinal longínquo de um barco arrancado às tormentas

amputada do meu corpo, exilada no teu deserto

os olhos já não são olhos
e as mãos abrem-se no limiar do sorriso

não há invenção de dias e de noites
há a tristeza e os tremores das lágrimas
que se escondem em poesia.


Irene Ermida



Dói-me deste amor.

Dói-me de doer 

Dói-me de pensar em ti

Dói-me da tua ausência

Dói-me a saudade

Dóis-me
de amar...






Irene Ermida

Fio de luz (3)

...e num mar de sonhos não resistia à forte corrente que a fustigava, que a estremecia numa estrela, que a rodeava de (in)sentidos, de meias-luas, de ventos solitários... deixava-se ir para o abismo pelos caminhos de um amor avassalador. E não via o horizonte que lhe mostrava as nuvens densas dentro de si. E não via a luz cortada de sombras, nem o azul de um mar entontecido pelas marés. Via a margem onde os seus pés teimavam na areia movediça de pantanosos círculos. E tudo era imenso como o mistério de um profundo (a)mar.

Irene Ermida

25/09/2011

Fio de luz (2)

Saltou da margem de si mesma e mergulhou nas águas do rio que se abria de par em par como se ele tivesse estado ali, sempre, à sua espera. Não nadou contra a corrente que a espreitava e lançou-se na transparência da escuridão e via... via tudo que sempre viu, numa vertigem que a fazia voar e sorrir. E o rio segredou-lhe o vento e mostrou-lhe o mar, tingido de tantas cores de oceanos onde o tempo não era tempo e a luz era luz.


Irene Ermida

28/08/2011

Fio de luz


Dominou-a um cansaço extremo como se o peso do mundo fosse apenas uma pena que cambaleando pelo ar lhe tivesse caído em cima dominasse todos os seus movimentos e numa paralisia total nem os olhos abria... eram as cenas repetidas de um filme clássico que se projectavam no seu íntimo e não se mexia... assistia... misturada numa plateia imóvel também, suspensa por um fio de luz sem tamanho nem cor... sabia que extinta a luz o filme repetir-se-ia vezes sem conta num contínuo fluir de imagens. Fechou os olhos e sorriu, alheada de si, e presa no feixe de luz que lhe fugia.


Irene Ermida

06/08/2011

há palavras...

Imagem: https://www.facebook.com/modernart21




há palavras que ficam presas no ar quando te respiro e te sinto em mim

numa espiral de sentidos tão sentidos e sem sentido 

que só a loucura do amor entende o sonho que vagueia por jardins de emoções 

e uma interrogação que acende gélidos vulcões 

e explode em ondas que não são minhas mas são tuas

como se nada existisse entre os dedos colados das minhas mãos nas tuas 

e o sorriso que descobre o momento que acontece sem tempo nem medida 

que possa desvanecer a imagem de dois num só 

e num mundo que gira no sentido que nós queremos 

e toma a forma do que sentimos e renasce e cresce na absoluta certeza 

entre uma lágrima que enternece e um sorriso que consome o destino infalível 

e morro na tua boca que me inunda a alma 

e o pensamento foge de mim para ti 

numa pressa que só tu entendes 

e amo o que há em ti,
amo o que há em nós.

Irene Ermida

25/05/2011

Dêem-me...

Dêem-me um espaço
pequeno que seja
que faço dele um mar de cores...

Dêem-me um espaço
pequeno que seja
que faço dele um oceano de sons...

Mas não me dêem as cores nem os sons!

03/05/2011

Golpe(s)





são golpes de nuvens
que resistem à luz
e não sabem onde cair
e não ferem as sombras
que se desviam entre os ramos vestidos de pedra
numa súbita evasão feita de fogo e de água
são golpes de vozes que estremecem a um canto
e desfiguram os rostos ocultos que perdem a cor
soltam-se as mãos amordaçadas de palavras
e inflamam-se os olhos inertes e opacos 

são golpes que sorriem e choram
e se calam num silêncio que não dorme.



Irene Ermida

02/05/2011

Sem razões...

não as há no sol, no mar, na noite
razões... que se procuram
para enganar o tempo
e o espaço dentro de nós

um espaço metade medo metade fuga
e se mais metades houvesse
não haveria razões 
apenas invenções

Irene Ermida

05/03/2011

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Záfon

Não resisto a partilhar estes extractos deste maravilhoso livro:

«Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o seu olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.» 

« - Aquela mulher é um vulcão à beira da erupção, com uma líbido de magma ígneo e um coração de santa - disse, derretendo-se todo. - Para estabelecer um paralelismo veraz, lembra-me a minha mulatinha lá em Havana, que era uma beata muito devota. Mas, como no fundo sou um cavalheiro dos de antigamente, não me aproveito, e com um casto beijo na face me conformei. Porque eu não tenho pressa, sabe? Há por aí pategos que acham que se puserem a mão no cu a uma mulher e ela não se queixar, já a têm no papo. Aprendizes. O coração da fêmea é um labirinto de subtilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro. Se quiser realmente possuir uma mulher, tem de pensar como ela, e a primeira coisa é conquistar-lhe a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo.» 

«- Alguém disse uma vez que no momento em que paramos a pensar se gostamos de alguém, já deixamos de gostar dessa pessoa para sempre» 

«- Não sei o que me deu. Não te ofendas, mas às vezes uma pessoa sente-se mais à vontade para falar com um estranho do que com pessoas que conhece. Por que será? (...)
- Provavelmente porque um estranho nos vê como somos, e não como quer acreditar que somos.»

«(...) o destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.»


«O tempo ensinou-me a não perder as esperanças, mas a não confiar demasiado nelas. São cruéis, vaidosas, desprovidas de consciência.» 

«Bea diz que que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos.»