12/07/2012

UM DIA NÃO MUITO LONGE NÃO MUITO PERTO

Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?


Ruy Belo
 

quero lá saber da poesia

essa volúpia de palavras que arremessa sentidos

achados no vento e nas estrelas



quero lá saber de poetas

que criam miragens em horizontes obscenos



quero lá saber de poemas

que enchem a vida de ar e de sonhos

contornos de ser num jogo de espelhos



quero, só quero, as linhas invisíveis que traçam pontos

entrecruzados nos mistérios da poesia



(vou ali sonhar um mar de estrelas e depois, talvez, volte...)
 


Irene Ermida

06/07/2012

O amor é cego...





The Lovers, 1928, René Magritte

27/06/2012

A capa preta do livro em branco




Foto: Google




- Aqui tens – estendeu-lhe o livro de capa preta onde se podia ver uma forma hexagonal colorida. - Abre-o só quando te sentires forte. - E se o abrir antes? – Corres o risco de ficar ainda mais fraco (dirigindo-se para a lareira para onde atirou ramos de alecrim e mais umas achas de lenha). De cócoras, observou as labaredas imponentes que se reflectiam nos seus olhos cor de mel e que reluziam sob os longos cabelos escuros, abandonados sobre o ombro direito.


Não era alta nem baixa, nem gorda nem magra, nem feia nem bonita. Era uma mulher. Apenas. Dois anos antes trocara a capital pela aldeia, onde tinha herdado umas ruínas que, em tempos, já tinham sido lugar cheio de vida. Trocara as roupas de executiva de sucesso (seja lá o que isso for!) por uns jeans, uma camisola de algodão e, ora uns ténis no inverno, ora uns chinelos no verão. Trocara reuniões e viagens por passeios à beira mar e folhas escritas que se acumulavam num canto do pavilhão. As paredes exteriores (e únicas) isolavam-na das pessoas, do calor, do frio, do mundo. Não se tornara eremita. Optara por si, deserta em si mesma e tão cheia de vida que seria insuportável partilhá-la diariamente com os outros. Insuportável para os outros. Não para ela. Continuava permeável ao que se passava, bem informada sobre tudo o que a rodeava. Tinha voz, opinião e decisão. Acção também, quando assim entendia. Não, não era uma solitária triste. Era uma solitária preenchida. De memórias, de conhecimento, de experiência. Não tinha idade. Tinha apenas tempo. Abstracto e concreto. Mantinha seletivamente todos os elos a quem e ao que queria. Livre. Livre de ser e de não ser, de estar e de não estar. De sentir, principalmente. E sentia livremente.


Encolheu os ombros e trocou o livro de mão, ansioso. Queria abri-lo. Ver o que estava dentro. Era um livro velho? Com história? Imaginou-o cheio de letras, de palavras, de sinais de pontuação, onde o sentido se perdia nas folhas amareladas. Havia uma história. Há sempre uma história em cada livro. Queria abri-lo, folheá-lo, encontrar o sentido. Dar-lhe sentidos em cada página, em cada ponto final. Queria transformar vírgulas em dois pontos. Acrescentar reticências. As palavras dela pesavam-lhe. Olhava pela janela do comboio que o levava ao ponto de partida. Ou de chegada. Não interessava. Levava-o ao ponto de si mesmo. Imaginou o livro em labaredas, onde os olhos de mel se reflectiam. Não abriu o livro. Queimava-lhe as mãos, a curiosidade, a ânsia de saber o que ele continha. Não o abriu. As palavras dela pesavam-lhe (abre-o só quando te sentires forte!), ressoavam ao longe como um silvo de um comboio antigo movido a carvão. Quis atirá-lo pela janela e perdê-lo. Não conseguiu. Esperava ele um milagre em que nunca acreditara? Era o mistério que o detinha. Qualquer livro encerra um mistério.



Sentou-se do lado da janela. Partiria dentro de cinco minutos. Ao olhar para o lado viu um livro de capa preta com uma figura hexagonal colorida. Olhou em volta e quis avisar quem ali o tinha esquecido. O comboio estava vazio. (Uma boa maneira de passar a viagem). Acomodou-se melhor, olhou para a estação, deserta. Não havia mais passageiros. Uma viagem solitária. - Melhor! Assim posso ler calmamente. Esperou. O comboio partiu à hora certa. Observava o livro mas, por qualquer razão inconsciente, não o abriu. Esquivava-se. Levantou-se e sentou-se duas ou três vezes. Sentia o mistério. Sabia que não iria resistir muito tempo. Adormeceu. Acordou. Três vezes. O livro inanimado continuava ali, a seu lado. Pegou nele com cuidado, como se receasse que, ao abri-lo, não fosse capaz de o fechar novamente. Admirou-o de todas as perspectivas e, num ato de coragem repentino abriu-o. Primeiro virou a capa. Uma página em branco. Não era seu hábito começar pelo princípio. Folheou. Outra página em branco. Estranhou o facto. Folheou então uma a uma todas as páginas. Leu a história de uma vez só. A sua história. A história dela. Do outro e do outro e dos outros que são cada um. O branco das páginas transformava-se aos seus olhos em letras, palavras, sinais de pontuação à medida que avançava na leitura. Escreveu a sua história à medida que a foi lendo. A sua e de qualquer um num livro em branco.


Irene Ermida

25/06/2012



Foto: http://www.leonardobrum.com.br/brasil.html




"As vezes tenho vontade de chorar, mas não consigo, as lágrimas simplesmente secaram, a vida me obrigou a ser dura e eu me acostumei.
Então me pergunto: O que aconteceu com a menina doce e meiga, mas insegura? Nesse momento me recordo de tudo por que já passei e concluo: depois que o diamante se torna diamante, ele nunca mais amolece, duro e bruto, com a ferramenta certa e uma dose de paciência, apenas pode ser lapidado."

Deborah Lima

21/06/2012


Foto: Google
Obrigada pelo mote F.




vivam então os disparates

na selva da carne

e do desejo


e num simples esvoaçar de asas

parta a imaginação em busca da essência

que percorre as veias acesas de prazer

e as trémulas mãos flutuam inquietas

pela pele de seda feita arco-íris

que desponta em águas profundas

que selvagens correm no suor

de sabor a sal 

evapora-se em odores e amores

desfeitos e contrafeitos

em lençóis de corpos imunes 

soltos na aragem do tempo

sem horas.

Irene Ermida



http://galeria.obviousmag.org/v/recortes/Posteres+minimalistas+da+filosofia/?g2_page=2

18/06/2012



Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida


Mia Couto

Liza Veiga - Everybody hurts (REM)

17/06/2012

Lulla Bye Acústico





    Concerto de apresentação do recente editado DVD "Lulla Bye acústico na Casa da Música". 


Um concerto onde reinou a empatia entre o grupo, em especial do vocalista, Miguel Bello, e o público. Momento alto foi quando pediu para o acompanharem, mas agora cantando o refrão como ele realmente é e não como a maioria cantava: «Why don't you far away?»


16/06/2012

Alice Russell & Quantics Soul Orchestra - Feeling Good


«Prendete la vita con leggerezza, che leggerezza non è superficialità, ma planare sulle cose dall’alto, non avere macigni sul cuore.»

(Prende-te à vida com leveza, que a luz não é superficial, mas deslizar nas coisas do alto, liberta o coração. tradução livre)

Italo Calvino

15/06/2012



 IMAGEM DE: ANDRIUS KOVELINAS

14/06/2012


O Tempo e o Modo | 01.Eduardo Galeano

Para Eduardo Galeano, a vida é a relação entre o querer e o poder, entre o que existe e o que acreditamos existir, entre a nossa fantasia e a circunstância realmente vivida. Galeano entende 0 realidade como sendo muito mais rica e diversificada do que a forma como por vezes a vemos, limitados por um sistema de valores que cerceia a nossa compreensão e a nossa disponibilidade para ver o desconhecido como uma oportunidade — e não como uma ameaça.
Ao longo da História, criámos uma narrativa sobre nós, humanos, que ignora as vivências dos que não se encontram no poder, como as mulheres, as culturas indígenas, ou os pobres. Uma narrativa baseada em fraturas, não apenas entre nós e os outros mas também entre o corpo e a alma ou o passado e o presente. Galeano propõe reconstruir a memória, escutar as palavras nunca escutadas e ver o mundo com outros olhos, unindo o que está separado.


De nuestros miedos
nacen nuestros corajes
y en nuestras dudas
viven nuestras certezas.
Los sueños anuncian
otra realidad posible
y los delirios otra razón.
En los extravios
nos esperan hallazgos,
porque es preciso perderse
para volver a encontrarse.

Eduardo Galeano

07/06/2012