28/10/2009

... e permaneço

risco no cetim diademas e pulseiras

obras de arte rudes e inocentes
que adornam os voláteis anéis de vento
encaracolados

combino planos inclinados e traço gotas de água
enredadas em forma nenhuma
distraída de mim

modelo sombras num mistério ignorado
cansado
entristecido

rasgo o pano imaculado
e viro as trevas do avesso
num gesto ferido!
Irene Ermida

24/10/2009

... não sou

nasci na nuvem que atravessa o deserto
e voo nas secretas asas de mim
num dia sem horas marcadas

numa palavra distinta
separo a chuva, gota a gota,
escrita nas mãos

que verbo sou na folhagem pintada
no mural de vultos e silêncios?

Irene Ermida

enquanto sou...

e porque se cala o vento?
de onde vem esse sussurro que abafa a voz?
sem tempo, nem dó?

não há sol no meu olhar,
e vejo a luz que se acende na minha boca
e abraço a sombra do meu corpo
numa forma que não é

procuro o sopro adiado que vem de longe
entre quimeras e perguntas
perdidas nas águas vermelhas do rio

e não há céu

e não há voz
Irene Ermida

15/10/2009


é doce (?)

como uma cereja madura caída despida

a palavra espera guardada

entre as páginas de esquinas e de rebordos

de livros secretos

Irene Ermida

É de arrepiar...


12/10/2009



«This is the PEN Story in stop motion. We shot 60.000 pictures, developed 9.600 prints and shot over 1.800 pictures again. No post production! Thanks to all the stop motion artists who inspired us. ... »

http://www.youtube.com/watch?v=m9Et7UQh1tg

08/09/2009

Viagem



A capacidade de viajar ultrapassa largamente as limitações geográficas e económicas.
Viajar é abrir portas e janelas e deixar entrar a luz e o vento, sensações e pensamentos.
Uma viagem pode ser um livro, um filme, uma conversa, uma atitude, um sonho, um devaneio...

É, no fundo, uma questão de sobrevivência e um modo de estar na vida. É a essência e a alteridade. É desembrulhar arquétipos e escavar túneis. É desobstruir canais e construir pontes. É riscar preconceitos e percorrer estradas.

Não interessa o meio, o local, o tempo... viajar, é fundamental.

31/07/2009

Luz(es) 3

tingida de espanto
olho de soslaio a raiz
que sabe a fruto

absorvente anátema
desenho flores
de vermelho e de azul

mas sou pássaro distante,
livre

e o meu canto
não é traço nem ponto
é solo árido de deserto
onde passeiam nómadas
à chuva

Irene Ermida

Luz(es) 2


e saio de mim pelo rio
que nasceu floresta no mar
sem extensão, sem espaço


imagem que me afasta e me aproxima
do centro, tímido e húmido, informe
sem perdão,

caminho entre as vozes
de silêncios

quem murmura palavras
atrás da cortina secreta
sonha-me inteira
e não sou eu que mudo o som
que não se ouve

Irene Ermida

Luz(es) 1


não há vento que me abale
nem dia, nem noite
que me atordoe

nasci árvore num continente
que podia ser africano ou asiático
ou nenhum deles, ou todos num só

é uma terra sem luz, sem rio
sem vazio

surda, ouço a cor do som
que me pinta num quadro
onde o verde é azul
e a água cega o olhar de quem não vê.
Irene Ermida



23/07/2009

Mágoas

e a propósito de nada
a meio do calor da tarde
lanças o perfume reles
de uma natureza rude e incisiva
que esquece a dor do parto



e o cordão umbilical
que fez de ti mãe
dissolve-se na amargura
e na mágoa das palavras
contundentes e injustas



Irene Ermida



02/07/2009

da autoria de Chinita

despertar 3

saio do sono montada
numa estrela cadente
já não é noite nem dia
és tu, sou eu

sem limites de horas
nem de fronteiras
não há cercas nem grades

há uma vontade de te querer.
Irene Ermida

despertar 2

um beijo que me arrasta
pelos lençóis da ternura

acorda a minha existência
em labaredas galopantes
que me consomem

até deixar o rasto de um sorriso
travesso e penetrante

bom dia, meu amor.
Irene Ermida

01/07/2009

despertar 1

um despertar lento de volúpia
beijos que se entrelaçam
no calor dos corpos e dos lábios
quero-te
livre, como uma águia

que bebe o ar quente
e a água fresca


quero ser a tua nascente.
Irene Ermida

27/06/2009

«O canto do Marquês»


Escrever, para uns, é uma arte, para outros, apenas uma ferramenta de comunicação imediata. Cada vez há mais escritores, cada vez há menos quem escreva «bem». Por isso, foi com grande satisfação que descobri este blogue http://www.ricardomarques.pt.vc/ !!!
Reparem na idade do autor e digam lá que não é uma maravilha ler «alguém» assim!

20/06/2009

num compasso de espera, vou alterando os tons...

27/05/2009

.................
O cinzento que dominava o fundo deste blogue deu lugar a um tom rosa claro...
Que quererá isto dizer?!
Estou a regredir no tempo e a voltar à infância?!
Ainda vou mudar a foto!
Espero que gostem do novo visual!
...............

21/05/2009

Na bruma 3

...


Impregnada de neblinas

absorvo a humidade quente

que paira na minha madrugada

de acordares sem sal

na tranquilidade dos mares


devoro as nuvens

na liberdade de quem sou

em cada momento

aspiro o orvalho

e reclamo luz na sombra

de quem sorri.
Irene Ermida

08/05/2009

Na bruma 2

...

Antevejo formas lunares

de um eclipse sideral

numa órbita imaginária

de sentidos e odores


Não distingo o volume

atreito a rumos e,

numa trajectória repentina,

afasto a neblina

que me inflama a retina

numa percepção clara

da unidade absoluta.

Vocalizo a tua presença

num efémero murmúrio

da voz do silêncio.
Irene Ermida

06/05/2009

Na bruma 1




Obrigada TCA pela ilustração deste poema.



abraço a bruma

de uma aurora que tarda

nos lábios de quem não diz

nada nem ninguém



numa espera silenciosa

respiro o futuro

com a incerta certeza

do amanhã adiado,


que virá envolvido

na ténue imagem de ti.
Irene Ermida

26/04/2009

Una palabra, Carlos Varela



Una palabra no dice nada
y al mismo tiempo lo esconde todo
igual que el viento que esconde el agua
como las flores que esconde el lodo.
Una mirada no dice nada
y al mismo tiempo lo dice todo
como la lluvia sobre tu cara
o el viejo mapa de algun tesoro.
Una verdad no dice nada
y al mismo tiempo lo esconde todo
como una hoguera que no se apaga
como una piedra que nace polvo.
Si un dia me faltas no sere nada
y al mismo tiempo lo sere todo
porque en tus ojos estan mis alas
y esta la orilla donde me ahogo,
porque en tus ojos estan mis alas
y esta la orilla donde me ahogo

20/04/2009

Imprevisto(s) 3

ferida no traço de um corpo

que se adivinha no meu olhar

inerte permaneço

no seio de línguas frenéticas

tão cheias de vazios

que secamente se dilatam

em manifestos sibilinos


respiram lufadas bafientas

que não me embriagam

dessa luz anímica


e num suspiro de ironia

recolho a suavidade

de cores e sons
Irene Ermida

21/03/2009

Imprevisto(s) 2

oculto-me na linha de um sorriso

que insistente desabrocha nos meus lábios

de cores desmaiadas pelo espelho

que nada me diz

no silêncio áureo

da catedral de sonhos barrocos


dos meus gestos maquinais

surge um esboço do mundo

incandescente e fugaz


e num apetite de palavras

cruzo promessas laminadas

por um rio azul
Irene Ermida



05/03/2009

Imprevisto(s) 1


estranho-me no véu de minúsculas

que em vão cobre o meu nome

não me sinto ali no papel

nem me vejo mulher

na translúcida passagem

por lugares distantes das minhas mãos



dos meus olhares vazios

nasce a vontade de encher o mar

de estrelas e de cavalos



num galope desenfreado

retenho uma imagem opaca

da ínfima realidade que sou

Irene Ermida



23/02/2009

Imagem: google

soprava a pena

contra o vendaval

tecido entre a bruma

de nevoeiro nenhum

(cansada)

foi pousar no mar

que a (en)levou

para longe do olhar
Irene Ermida



13/02/2009

é um faz-de-conta
que se atravessa no oásis
de um tudo-ou-nada

maravilha-mulher
de melancolia feita

perdida na multidão
impessoal e anódina
emitente de razões
inexistentes
Irene Ermida



11/02/2009

foi um segundo
(sem ser o primeiro)
numa eternidade
de olhares
de palavras
de gestos
de silêncios
sem tempos marcados
sem memórias
sem voz

26/01/2009

Deixei atrás os erros do que fui

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.



Poesias Inéditas (1930-1935)
Fernando Pessoa
As palavras de Pessoa impressionam pela simplicidade com que exprime a vida!

30/12/2008

Imprecisão 3

FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/


uma misteriosa inquietação

constrói uma consciência impávida
que surge na escuridão de uma manhã

impávida fragmentada ameaçadora

resisto à luz gradual que me cega

e à minha volta espalho pétalas de medo

sabia onde parar?

do fundo retirei os raios de água

que escorriam pelo rosto imóvel

em momentos de hesitação inexistente

sem notas musicais impossíveis

rodo os ponteiros do relógio

e reencontro-me, submersa,

na margem de um rio febrilmente seco
Irene Ermida



Imprecisão 2

FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/




vem aos lábios a letra indistinguível

de difusas canções familiares

um átrio atravessado por um denso nevoeiro


exala aromas de infinitas memórias

de uma infância encadernada de verde

pressenti a indiferença e folheei as fantasias


emersas do gelo inquebrável

que, envolvido em doce nostalgia,

se derretia nas minhas mãos

escorreguei pela vereda das imagens insólitas


e parti, num dia claro,

em viagem

Irene Ermida



21/12/2008

Imprecisão 1


FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/

não arrisco adivinhas nem magias

palavras dormentes acordam o regresso

ao canto esquecido de um quarto

na traseira soalheira da casa invisível

aperto a sombra contra mim

e o calor do relâmpago espreita com olhos de poeira

o segredo que durante milénios ousou feitiços

tropecei na aventura informe e abriu-se o alçapão

pendurei o calendário dos anos seguintes

e as memórias expiraram

num poema

Irene Ermida



11/12/2008

A diferença

Foto: Gonçalo Sousa, http://olhares.aeiou.pt/




A diferença requer um olhar diferente.


Sufocados e submersos pelas intempéries da vida, que se desenrola numa sequencialidade de banalidades frívolas, acessórias e rotineiras, empurrando-nos para o lado seco e amargo do tempo, permanecemos imunes e indiferentes, alheios e mecânicos, vazios e distantes.


O olhar embaciado pelos reveses avança em direcção nenhuma, sem sentir, sem pensar, sem saborear.


Tudo é igual porque o queremos ver, sem olhar.


Mas a diferença existe!

Surge, de repente, imponente e incontornável num gesto, num sorriso, numa lágrima, numa palavra, num olhar! Parece efémera... mas, na verdade, perpetua-se em nós e marca a diferença de sermos iguais.

Irene Ermida



26/11/2008

.
pintei-me de cores esbatidas pelo fogo
.
e lavei os olhos nas cinzas mornas e vivas
.
queimei as páginas da história que nunca aconteceu
.
soltei estrelas, suspiros e palavras
.
que flutuaram no olhar esquecido
.
de uma tarde apagada


.

Irene Ermida



24/11/2008

.
atirei-me para um canto
.


vazia de sentidos e de dores
.


olhei-me com olhos de mares e de montanhas
.


sem riscos delineados por sombras imutáveis
.


ali, no meio de um querer sem porvir
.


rasgada por raios de vento e de silêncio
.


permaneci inerte na neve de branca calma
.

e vivi uma única vez
.
Irene Ermida



22/11/2008

Dores e outras coisas de momento

...
De há uns tempos para cá, estou a ficar preocupada comigo, o que acontece muito raramente. Quando aparece uma dor, espero que passe. Mas esta dura há quinze dias... e não há meio de passar! É intermitente, é certo, e geralmente aparece ao fim da tarde. Deduzo que seja stress (este palavrão que dá com tudo!). Reuniões até às tantas e quase diárias, imprevistos atrás de imprevistos que exigem resposta pronta, a rotina de problemas... Um infindável colar de contas (ou de contos?)...

Ontem, quando cheguei a casa, decidi enfiar-me numa banheira de água quente para descontrair. Adormeci e só acordei com a água fria!

Hoje fui para uma esplanada à beira-mar, sob um sol resplandecente, com boa música de fundo e dediquei-me à leitura de Mr. Vertigo, de P. Auster. Perdi a noção do tempo, até ter dado conta do zumzum que estava à minha volta. Incomodada, decidi ir ao cinema, onde me esperava uma fila enorme de pessoas que ao fim-de-semana se recolhem no shopping para esmagar o tempo.

Saí com a tal dor de cabeça e vim para casa.

E, de caminho, embrenhada nos meus pensamentos, comecei a acordar: há qualquer coisa que não está bem comigo! Ou seja, tomei consciência de que não suporto espaços com gente... pessoas... seres humanos... E isto, sinceramente, preocupa-me. Gostar de estar sozinha, evitar espaços contaminados de vozes, de risos, de movimento... Não é normal ou, pelo menos, não era até agora!
Quando é que sabemos que sofremos de misantropia?!
...
Irene Ermida



17/11/2008

Pérola(s)

Foto: Barbara Angel http://olhares.aeiou.pt/

um corpo estranho

invade o ser que sou

sem o ser

as pérolas deslizam
.
como grãos de areia
.
pela extensa silhueta
.
em reflexos azuis e sem cor
.
sem sabor
.
pérolas que caem
.
como gotas de água
.
pela face pálida e serena
.
sem contornos
Irene Ermida



16/11/2008

(de)gelo



Foto: JM Monteiro http://olhares.aeiou.pt/




toco o gelo e a neve


fundidas nas tuas mãos


entrelaçadas nas minhas




um degelo chamado eu


por um tu chamado nós


acesos num lume


que queima as asas


de um querer


com voz


Irene Ermida






Desabafar é bom... ou excelente?!


Já há uns tempos atrás tive oportunidade de me referir à minha professora primária.
E hoje, mais uma vez, quero, necessito, mais do que nunca, lembrar-me dela!
O seu estatuto impunha respeito, admiração e o seu empenho e dedicação incentivava os melhores e não deixava para trás os mais fracos. Uma professora que ensinava, corrigia, educava… tratava-nos como alunos e como filhos, víamos nela a figura de mãe, de conselheira, de lutadora: era a senhora professora. Aprendíamos, porque ela nos ensinava, porque sabia exactamente qual a sua missão! Uma EXCELENTE professora!
Nós, crianças, sentíamo-nos gratas! E, pelo seu aniversário, oferecíamos-lhe um ramo de flores em sinal do nosso reconhecimento, que amaciava a sua aparência austera e deixava ver aos mais atentos, as lágrimas que ficavam a brilhar nos seus olhos.
Ao longo da nossa vida de estudantes privámos com EXCELENTES professores, que fizeram a diferença e se perpetuaram na nossa memória como exemplo a seguir. Dos fracos? Não reza a história! Caem no mais profundo esquecimento!
A todos os EXCELENTES professores que, diariamente, se empenharam ao longo de décadas (e aos que se empenham) na sua tarefa de ensinar pelo simples prazer de ver os seus alunos aprender, sem esperar louvores, nem menções honrosas, nem prémios, conscientes de que a sua acção ultrapassa qualquer rótulo, que o contributo que prestam para melhorar a «educação» dos homens e mulheres que um dia serão profissionais dos mais diversos sectores (mecânicos, cozinheiros, jornalistas, médicos, engenheiros, motoristas, ministros…), e que sempre foram alvo da indiferença total por parte da sociedade que deixou de lhes reconhecer competência, autoridade, dignidade; votados a um esquecimento displicente durante anos e anos, a quem, mais do que qualquer formalidade de avaliação, interessa o juízo que os seus alunos formam deles no quotidiano das suas aulas e fora delas…
A todos os EXCELENTES professores que foram avaliados com uma menção de SATISFAZ (importaria saber quantos requereram a menção de BOM no anterior sistema de avaliação!) e se contentaram com ela, porque o mais importante era a sua rotina escolar centralizada na aprendizagem dos alunos, porque esse sim, era o sentido do seu trabalho…
A todos os EXCELENTES professores que deram o seu contributo para que os seus(suas) alunos(as), passados uns anos, soubessem escrever, ler, criticar, formar opiniões, argumentar, fundamentar, mesmo contra eles…
A esses EXCELENTES professores anónimos para quem as quotas nunca serão suficientes nem os afectará na sua integridade, presto a minha homenagem porque souberam (sabem) enriquecer o país de ideias e de atitudes!
Expresso, por último, à minha professora primária um agradecimento especial por me ter ensinado que a pronúncia do “x” pode ser diferente consoante a palavra, e que o significado da palavra EXCELENTE não se limita a um mero quantitativo numérico, mas antes corresponde a um conteúdo e a uma essência incompreensíveis a quem não guarda memória dos seus professores.
Afinal, não é mais importante ser um BOM EXCELENTE do que um EXCELENTE de 10 valores?!

Irene Ermida



10/11/2008

Cinema sem pipocas

“Shine a Light”

À última da hora venci a inércia da segunda-feira e lá fui ao «Cinema sem Pipocas». Um documentário arrepiante
de Martin Scorsese com a banda dos Rolling Stones, filmado em 2006, no Beacon Theater, Nova Iorque.
Não fosse a má qualidade do som da sala, e ter-me-ia julgado em pleno espectáculo ao vivo!
A força das imagens traduz a energia contagiante de Mick Jagger e a marotice de Keith Richards.
Momento alto do concerto: o dueto com M. Jagger e Buddy Guy.
Momento de reflexão do filme: resposta de M. Jagger a um jornalista durante uma entrevista há cerca de 30-40 anos atrás que pretendia saber se o cantor se imaginava aos 60 anos a fazer o mesmo - Claro, na boa!
Uma lição para os mortos-vivos do planeta! Deste, entenda-se!

(des)enlace

...
D E S E N L A C E evidente à luz do dia
...
espelhado na transparência das águas
...
e LIVRE é o que sempre foi
...
D E S A C O R R E N T A D O
...
E
...
I N T E N S O
...
Irene Ermida



enlace



...
E N L A C E oculto que transgride todas as regras
...
desagrega o U N I V E R S O dos sentidos insiginificantes
...
D E S M I S T I F I C A D O S
...
E
...
P E R M I T I D O S
...
Irene Ermida



01/11/2008

Destruir depois de ler



Diria uma paródia da sociedade actual (americana e não só) que oscila entre a ironia e o absurdo quer das relações interpessoais, despojadas de sentimento e fruto de meras circunstâncias, quer da paranóia criada por temores infundados de qualquer potencial trama de espionagem, culminando com o objectivo alcançado por Frances McDormand, na personagem de uma empregada de um ginásio que sonha recuperar a silhueta esbelta de há vinte anos atrás, através de cirurgia plástica.
A sequência de situações, que parecem deslizar entre si e precipitam os acontecimentos, impregnadas de um humor subtil ou de um cómico evidente, permanecem na retina por algum tempo e fazem uma viagem no cérebro proporcionando perspectivas diferentes sobre a banalidade de uma rotina interiorizada.
Sem termos de comparação com outros filmes realizados pelos irmãos Coen, este, provocou-me o riso, o sorriso e a boa disposição, mas também apreensão, pois, na sala de cinema cheia havia meia dúzia de pessoas com estes sintomas! Ora, das duas uma: ou ando a exagerar no riso, ou os outros andam deprimidos!

30/10/2008

Hemisfério(s) 3



Foto: David Sousa http://olhares.aeiou.pt/
colateral
ponto cardeal
da rosa-dos-ventos
.



arco lançado ao vento
num rodopio circular
desenha espirais contínuas
sem fim sem princípio
cruza distâncias e proximidades
em fracções de segundo
que não chega a ser
tempo contado pelos ponteiros
de relógios de cristal sem pêndulo
a medir amplitudes
nem variações
Irene Ermida



Hemisfério(s) 2


Foto: Bruno Silva http://olhares.aeiou.pt

artificial
esfera assimétrica
de simetrias instáveis


atravessa pontos
equidistantes
e colide com coordenadas
aleatórias
traçadas a giz no pó volátil
do axioma
solto no cais que se estende
sobre o mar
ausente no sorriso rasgado
de uma nuvem

Irene Ermida



29/10/2008

Hemisfério(s) 1

Foto: José Meneses http://olhares.aeiou.pt/


cerebral

esquerdo a sul acidental

direito a norte oriental


hemisférios sem meridiano

cruzam-se na linha curva que une pontos

de partida e de chegada

do princípio de nada ao fim de tudo

numa recta contínua

de um plano imprevisível

de um espaço excessivo

preenchido de vazios tão cheios...

Irene Ermida




28/10/2008

Segmento(s) 3


Foto de Nélio Filipe http://olhares.aeiou.pt/
.
páginas divididas em partes iguais sem rótulos nem verdades adormecidas em veredas singulares percorridas por existências similares e anódinas na permanência agrilhoada num tempo seco e trivial inquantificável e imenso interrompido por um luar dominado pela noite enevoada de ruídos inexplicáveis projectados ostensivamente no delito cometido sem pudor preconizado por entidades feéricas que dançam sob a chuva que atrai gotas minúsculas que se unem numa trajectória de queda no cume de montanhas inatingíveis
 
Irene Ermida



26/10/2008

Segmento(s) 2


Foto de Nélio Filipe http://olhares.aeiou.pt/
.
recortes e colagens transparentes de vontades presas em celas espelhadas de ouro prateado de portas abertas para a rua de cima que espreita o mar extenso de sal e de azul efémero e habitado de seres minúsculos que volteiam as ondas que perpetuam o ciclo infindável de sonhos derretidos na boca sem idade no limite de um sabor adocicado de mel sem dor à mistura e com olhares cruzados no horizonte que antevê a cumplicidade de gestos e de sentidos

Irene Ermida



Segmento(s) 1

Foto de Nélio Filipe http://olhares.aeiou.pt/



desfile de imagens subtis serpenteiam pelo olhar cego a traços nítidos impressos em letras desenhadas com mão firme guiada por um fio de seda envolvente embrenhado em ideias condensadas que chovem na madrugada ventilada e fresca surpreendida pelo sol acordado à pressa e esfrega os olhos ainda dormentes dos sonhos inconsistentes que projectaram raios de luz frágeis e apagados em qualquer rosto embriagado de um sentir imerso num dizer do silêncio

Irene Ermida



25/10/2008



Música: Enya - Watermark

24/10/2008

Registo(s) 3

Foto de Maria Catunto http://olhares.aeiou.pt/

um registo gravado em rocha metamórfica que se dilui na transparência do vento que sopra a uma velocidade estonteante poupando incólume a escritura bíblica de um qualquer episódio passado decidido na voracidade do tempo medido em segundos sem escala contínua de uma unidade transfigurada em espectros volúveis de sons propagados no universo ínfimo e de luzes extintas no espaço habitado por oceanos de águas salinas inodoras e sem gosto nem odor

Irene Ermida

Registo(s) 2

Foto de Ingrid http://olhares.aeiou.pt/


silhueta derramada na sombra de um tronco imponente inclinado no cima da serra onde o sol descansa nas ínfimas ervas daninhas e não sem sono perturbado ou tranquilo semeado de sonhos diletantes e ingénuos com vaidades ocultas entre as folhas das árvores secas e centenárias que abrigam segredos eternos sem princípio e sem fim numa continuidade impermeável a qualquer contingência temporal ou erupção de vulcões (porque não?) de lava desenhados a preto e branco ausentes de cor e de calor

Irene Ermida

23/10/2008

Registo(s)1



Foto de Ingrid http://olhares.aeiou.pt/





carta redigida em papel de lustro guardado na gaveta das memórias distraídas inclusas e ociosas o branco ressalta no fundo azul turquesa de madrepérolas e jóias obtusas e fora de moda as palavras circuncidadas emergem perenes e alheadas enredadas num qualquer envelope agridoce criado no mofo de qualquer livro lido e esquecido deixado no canto de uma estante arrumada no sótão das quimeras por onde divaga a vontade de ter sido e tornada não ser de um destinatário sem remetente nem morada registada na agenda amarelecida e bolorenta que dança em qualquer pacote sem embrulho desfeito desde o dia em que foi oferecido e esquecido em qualquer caixa postal


Irene Ermida




..........................................
.................existo num gesto.......................
..........................numa gota......................
...............numa nuvem.....................................
num registo.....................................
...................................



15/06/2008



Imagem da autoria de adesenhar que pode ver também em Cartoons 3D .

11/06/2008

Perlexidades


? ? ?

Sexo e a cidade



Para terminar as minhas férias em beleza, lá fui ver o filme, com as minhas amigas.

O meu cérebro estabeleceu uma subliminar associação com um dos melhores filmes de Woody Allen "A Rosa Púrpura do Cairo", cuja actriz principal, interpretada por Mia Farrow, é surpreendida pelo actor que sai do écrã e a introduz na tela, desenvolvendo um jogo entre fantasia e realidade.

A realidade exposta pelo quarteto inseparável destas mulheres procurando o amor, cada uma à sua maneira, despertou em mim uma sensação de desengano.
A vida, se fosse cinema, seria, sem dúvida, bem melhor, pois, pelo menos, haveria a certeza de que, no fim, tudo acabaria bem.

Hoje, caí na realidade, quando tocou o despertador às 7h30 e me preparei para recomeçar a minha actividade (que se adivinha intensa!).
E lá fui de boleia, já que na «realidade», o meu carro está há uns dias na oficina!

10/06/2008

Já ninguém se lembra de Camões?

«Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.»

Mário Quintana

E se quiserem treinar e não tiverem a obra à mão (o que é imperdoável) aqui vai um endereço.

Recomendo a (re)leitura das estrofes 120 - 134, do Canto III

09/06/2008

(se)mentes




Foto: Oleg Lobachev
(mal)tratei fracturas do teu ser
pela noite espa(e)lhadas
preenchi lacunas con(re)sumidas no tempo
e enfeitei (des)providas madrugadas
(des)ocupei camas e mesas fendidas
aclarei manchas (des)povoadas
esvaziei sentidos (in)quietos
destituí palavras a(du)lteradas


Irene Ermida

Ora toma lá!



José Eduardo Moniz "Nunca tomarei decisões apenas porque determinada funcionária é minha mulher. (...) A Manela tem méritos próprios, que não precisam do marido para nada."
José Eduardo Moniz, director-geral da TVI, comentando o regresso de Manuela Moura Guedes aos ecrãs da estação, in "Notícias TV".


Fonte: http://fama.sapo.pt/

Para quem não sabia, fica a saber!
Que más línguas, que coisa!
Fiquei muito mais feliz por ser assim!
Ai que não caibo em mim de contente!

Malha caída



Foto: Google (alterada)
Entrelaçava o fio vermelho concentrada nos seus botões. As agulhas dançavam ao ritmo da música. Para trás ficava um pedaço de camisola que nunca iria usar. A textura suave e elástica hipnotizavam os sentidos adormecidos.
Fazia tricô e deixou cair uma malha.
E agora?

Irene Ermida

Negaçao do nada


Foto: Narcis Virgiliu

não me embalo na robustez do vento

não trilho veredas de nuvens informes

não me seco no instante fugaz do vazio

não navego na vacilante onda de espuma

não cresço em agrestes jardins sem raízes

não me afogo em inconstantes marés cheias

não me alimento da efémera torrente do vulcão

não estremeço no fluxo contínuo do volúvel

não combato inexistentes espectros de luz

não me resigno a inquietos ímpetos de fé

não derivo na intranquila corrente do rio

não flutuo em lagos de verdes pântanos

não, não me sinto nos outros sem mim

Irene Ermida

07/06/2008

Iniciativa audaz

Enquanto milhões de olhares se fixam no quadrado mágico para ver quem primeiro mete a bola na baliza do adversário, ouvi num outro canal de TV, a notícia de que em Portugal nenhuma cidade aderiu à 5ª Manifestação Ciclonudista Mundial que teve hoje lugar em várias cidades do mundo.

Dada a singularidade do evento, decidi pesquisar mais alguma informação, visto que não será nada fácil pedalar em tão nu estado e, acima de tudo, causou-me estranheza a ausência desta iniciativa em Portugal, já que, noutras, estamos sempre solícitos a participar.
Estando nós em crise, seria sempre uma boa alternativa!
Em vez de invejarmos a peça de roupa ou o automóvel da marca, passaríamos a comentar as mamas, mais ou menos descaídas, das mulheres, ou o tamanho do pénis, maior ou menor, dos homens...
Pensando bem, o «sexo» passaria a ser o tema central das conversas diárias e tornar-se-ia tão banal que, ao fim de algum tempo, os conceitos e valores estariam completamente alterados!
As vantagens seriam inúmeras: os atropelamentos seriam reduzidos e menos graves, os combustíveis eram dispensáveis, os benefícios para a saúde seriam evidentes, a poluição diminuiria drasticamente, diminuiriam as desigualdades sociais, aumentaria a natalidade e a paisagem seria francamente mais aprazível.
Bem, não aderimos desta vez mas, aos poucos. lá chegaremos, pois com o actual estado de coisas, o nosso país vai ser o primeiro a dar o exemplo aderindo massivamente!


Foto retirada da net, ao acaso (nem todos(as) apreciarão a escolha, paciência...)

Pelos gritos de «goooooooolo» que ouvi há pouco, deduzo que Portugal esteja a ganhar... ainda bem que há quem não perca tempo com «iniciativas» destas e aproveite bem o seu tempo!

E para quem gostar de MPB



No próximo dia 14 de Junho, às 22h00, no Auditório Exterior do Teatro de Vila Real.
E este sim, é acessível a todos...
Espero que a noite esteja quente!

Bailado no programa de sexta à noite...

Graças à política de fidelização dos espectadores adoptada pelo Teatro de Vila Real, que consiste em oferecer bilhetes de vez em quando, a quem está inscrito na sua base de dados, tive hoje a oportunidade de assistir a este espectáculo. Aprecio a arte nas suas diferentes formas. Não entendo as técnicas mas os sentidos reagem positiva ou negativamente aos estímulos e isso para mim é que é importante.
Não foi o primeiro bailado a que assisti, evidentemente. Ainda bem que venci os últimos instantes de hesitação. Assim, as três partes “LES SYLPHIDES”, de Mikhail Fokine, “LENTO PARA QUARTETO DE CORDAS”, de Vasco Wellenkamp e “FRONT LINE”, de Henri Oguike corresponderam a três momentos de prazer, embora se tratasse de coreografias completamente diferentes.
Da leveza dos movimentos à intensidade dos ritmos, tudo se passou no palco, ao som de composições musicais envolventes.

A cultura deveria ser acessível a todos... (não acham?)

04/06/2008

Como S. Tomé: ver para crer!

Encontra-se na Galeria do JN a exposição de João Silva: Pesadelo.

A realidade é filtrada através da lente do repórter, que decide o quê e o que deve fotografar para que os nossos olhos alcancem a dimensão da tragédia humana! Mas ela é tão real que quase queremos que seja ficção. Ver, para crer!

Recebi a visita de
os_meus_rabiscos
e deambulando, prazenteiramente, pela sua escrita
descobri este
texto
singular mas muito frontal!

Na capital da Catalalunha

Em Barcelona há vida nas ruas...


...primaveras convidadas...



...cores e sabores estivais...


...música no ar...


...há luz e sombra...



...há pormenores e arte...



... e sonhos, para quem ousa sonhar...

... e muitos turistas!

02/06/2008

Adivinhação


Foto: Narcis Virgiliu
arrisco uma palavra solta
que me rasga latitudes infinitas

duendes e magos rastejam
sob o lodo inundado de um querer
que emerge do nada

videntes e bruxos consomem
fogos distintos de um sentir
perdido por oráculos obstinados

e os destinos fragmentados pelas estrelas
desviam rumos pendulares
sem rota predestinada

Irene Ermida

01/06/2008

Por terras de nuestros hermanos...



Além de objecto de adorno fora de uso, útil para refrescar em dias de calor as partes do corpo mais ruborizadas, elemento obrigatório da indumentária tradicional espanhola, o leque é também um meio de comunicação:


El Lenguaje de los Abanicos

El abanico colocado cerca del corazón: "Has ganado mi amor"
Cerrar el abanico tocándose el ojo derecho: " Cuando podré verte"
El número de varillas muestran la contestación a una pregunta: "A que hora"
Abanico medio abierto presionado sobre los labios: "Puedes besarme"
Las dos manos juntas sujetando el abanico abierto: "Olvídame"
Cubrirse la oreja izquierda con el abanico abierto: "No reveles nuestro secreto"
Esconder los ojos detrás del abanico abierto: "Te quiero"
Tocar con el dedo la parte alta del abanico: "Desearía hablar contigo"
Dejar el abanico descansado sobre la mejilla derecha: "Si"
Dejar el abanico descansado sobre la mejilla izquierda: "No"
Descender el abanico: "Seremos amigos "
Abanicarse lentamente: "Estoy casada"
Abanicarse rápidamente: "Estoy comprometida"
Poner el abanico sujetándolo sobre los labios: "Bésame"
Abrir totalmente el abanico: "Espérame"
Situar el abanico detrás de la cabeza: "No me olvides"
Situar el abanico detrás de la cabeza con el dedo extendido: "Adiós"
Situar el abanico delante de la cara con la mano derecha: "Sígueme"
Mantener el abanico sobre la oreja izquierda: "Deseo deshacerme de ti"
Mover el abanico alrededor de la frente: "Has cambiado"
Dar vueltas al abanico con la mano derecha: "Quiero a otro"
Llevar el abanico abierto en la mano derecha: "Eres demasiado ferviente"
Mover el abanico entre las manos: "Te odio"
Entregar el abanico cerrado: "¿Me quieres?"
Mover el abanico alrededor de la mejilla: "Te quiero"

22/05/2008

Reflexões impróprias...



No poema de Cesário Verde - Avé-Marias - há uma frase que sempre me fascinou (...) Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O paradoxo introduzido pelo adjectivo «absurdo» exprime a inutilidade do «desejo» e confere-lhe uma ininteligibilidade na visão do próprio sujeito. Sendo o «desejo» uma vontade própria com vista à satisfação, torna-se incompreensível que se deseje «sofrer»; daí a existência imprescindível do «absurdo» que traduz o estado de espírito de alguém que, racionalmente, reconhece que é em vão sentir esse desejo mas que, irracionalmente, não é capaz de o evitar.

Num ou noutro momento da nossa vida, sentimos essa necessidade incompreensível e inútil de «sofrer».

Encontramos refúgio no autismo e na dissolução de laços afectivos e queremos romper toda e qualquer ligação com o mundo exterior, convencidos de que aí estará a solução dos nossos problemas. Sendo uma fase que nos permite «crescer» interiormente, se tivermos a experiência de vida e a sabedoria de nos recolocar no caminho certo, com ou sem ajuda de outrém, acordaremos um dia e veremos que a realidade, apesar de permanecer inalterada, é aquela que realmente desejamos e temos de enfrentar.
Quantas vezes nos deixamos abater pelas circunstâncias que nos parecem catastróficas e das quais achamos que não conseguimos sair?
Relativizar os problemas e criar prioridades, bem como distinguir o essencial do acessório, serão, provavelmente, os mecanismos ao nosso alcance que nos desvendam os mistérios da nossa existência.
Quando nos orientamos pela ambição de tudo querer num dado momento, aumentamos, na mesma proporção, o risco de tudo perder. Encontrar o equilíbrio e a estabilidade emocional pode resultar de um longo, mas necessário, sofrimento interior, pois, só assim se aprende a dar valor às pessoas ou às oportunidades que surgem na nossa vida.



Irene Ermida