26/01/2010

Filme «O dia da saia»


Um filme intenso que retrata o meio escolar da sociedade francesa multi-cultural e multi-racial. Uma história que põe a nu, por um lado, a fragilidade de uma professora exposta diariamente a uma tensão desmedida e à qual acaba por sucumbir e, por outro, à indisciplina dos alunos e a tolerância com que é tratada, tudo em nome dos direitos humanos de alguns. Um complexo retrato de uma sociedade sem determinação e sem força, que pode ser qualquer uma!
Uma interpretação de Isabelle Adjani que ficará memorável na sua carreira.

24/01/2010

Inorgânica








inorgânica e homogénea
passou a vida sem chorar
por quem, não sabe
nem porquê

dura e inerte
passou pela vida sem a sonhar

e amorfa permaneceu
nos bastidores de si
sem se pensar

Irene Ermida

21/01/2010

(in)temporal




Foto: João Prates


e havia vento
que agitava as nuvens de vidro
num espelho esférico

e havia a dimensão
que lhe dava os meus olhos
à escala da intensidade e da cor da luz
branca e cálida, liquefeita e visível

e não havia trovões
nem orvalhos
nem rajadas
havia deuses e demónios
de mãos dadas!

Irene Ermida

19/01/2010

Pela comunicação

.

"Rapport é a capacidade de entrar no mundo de alguém, fazê-lo sentir que você o entende e que vocês têm um forte laço em comum. É a capacidade de ir totalmente do seu mapa do mundo para o mapa do mundo dele. É a essência da comunicação bem-sucedida."


Anthony Robbins

À primeira vista parece tão simples e fácil. Mas esta capacidade de percorrer com o outro (que abrange todos os tipos de relacionamento: familiar, de amizade, de amor, profissional, social) os mesmos caminhos das emoções, dos sentimentos, dos pensamentos, exige uma forte resistência mas, se a atitude não for recíproca, chegamos a um ponto em que a nossa energia se esvai e precisamos de tempo para a recuperar. Ha pessoas que se auto-regeneram porque têm uma força infinita para manter-se em constante aprendizagem. Não pressupõem que já atingiram o ponto ideal; pelo contrário, mantêm a abertura de mente e de coração necessária ao seu restabelecimento e até, renascimento.
Há momentos em que esta atitude perante a vida se torna esgotante, pois, a procura e as solicitações ultrapassam os limites que, também essas pessoas, têm. Obviamente, que ninguém é imprescindível. E nem esses seres dotados de uma comunicação peculiar o são. E também eles necessitam de ter ao seu lado, alguém que alimente as suas necessidades de exploração dos seus «mapas» interiores e os desafiem rumo a novos destinos, por percursos ainda desconhecidos.
É uma procura incessante de algo para além fronteiras e vão deixando pelo caminho marcas inolvidáveis e sólidas que fortalecem para sempre quem as recebeu.
Nunca estão sozinhos, porque estão sempre consigo próprios e a solidão é a recompensa de se terem dado aos outros. Esta espécie de «levitação» preenche os espaços vazios com recordações e lembranças do que fizeram de bem e ajudam a suportar e a entender o que fizeram de mal.
Sempre a um ritmo diferente dos outros, incompreendidos e misteriosos, avançam devagar, porque sabem que o tempo não existe. ´
Plagiando um amigo meu: Não há relações significativas; o que há são pessoas significativas!

11/01/2010

Tremor(es) 3

aturdida, oscilo
na penumbra do amanhã
que chega ainda hoje

no cais de embarque
não parto sem ti
e entrego-me ao tempo
e dele depende a saída
de voltar a ser
inquebrantável no propósito
de, pela última vez,
adormecer sem sonhar
com águas salgadas revoltas
e acordar num beijo
temperado de paixão.


Irene Ermida

Tremor(es) 2

é um receio na sombra
que me estremece o sentir
e sustenta uma voz secreta

e viro do avesso
o momento do olhar
colado no meu pensamento

reavivada na tua presença
afago a memória
com um sorriso generoso
e abraço a luz
com uma força firme
para nunca mais a ver fugir
entre os fios da saudade


Irene Ermida

Tremor(es) 1

e assim trémula de palavras,
entre reticências eternas
sorvo as gotas que deslizam na tua voz

ausento-me do meu corpo
e parto numa viagem sem fim
por estradas amplas de sentidos

e toco nas nuvens com os dedos
puxando-as levemente para mim
num aconchego de minutos

solto-as num ímpeto,
e deixo-as voar ao vento,
céleres,eufóricas e saciadas
penetram os poros da minha pele
e alimentam a sede do porvir!


Irene Ermida
Vale a pena ver o filme da minha amiga Lena!!!

http://mhfg1.wordpress.com/2010/01/10/let-it-snow/

10/01/2010

Neva... e neva...


Balada da neve




Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

05/01/2010

A rever...





Closer - Perto Demais

O destino (?) dá voltas ao próprio destino e gera histórias que se cruzam num círculo fechado entre quatro personagens que se amam, que se traem a si mesmas num labirinto sem saída.

03/01/2010

Leituras...



«É curioso que as pessoas falem tão ligeiramente do futuro, como se o tivessem na mão, como se estivesse em seu poder afastá-lo ou aproximá-lo de acordo com as conveniências e necessidades de cada momento.» (pág. 176)

Aquando da publicação do livro, estava eu numa livraria com o próprio na mão e fui olhada com desdém por uma «senhora» que comentou: «Hum, Saramago!» Arregalei os olhos e sorri...

Alheia à polémica, li-o apenas agora, calmamente. Não sendo surpreendente, visto que toda a gente sabe das crenças do escritor e só o lê quem quer, é uma leitura crua sem espaço para distracções. Aliás, já o Evangelho o era! E gostei! Principalmente das evidências que são difíceis de dissimular e do estilo a que o Prémio Nobel nos habituou.

E, por mero acaso, agorinha mesmo lembrei-me do Nome da Rosa... cujo livro ainda não li, mas a acreditar no filme havia livros proibidos... e havia pessoas queimadas vivas... e ufa!!! que alívio! Já estamos no século XXI, embora às vezes não pareça!

Um 2010 com muitas leituras destas e de outras...

29/12/2009

Ano Novo, Vida Nova... que grande treta!

Frases de ciscunstância não fazem mal, mas não mudam nada. A mudança reside na atitude, e isso é que custa! Por isso, se estamos bem connosco próprios, vamos continuar a estar; senão, mudemos de atitude, se tivermos coragem!

Vibração

forrada do avesso com suave veludo 
desenho-me de vermelho sangue
moldada em formas de cetim macio
transpiro odores floridos
trajada de seda natural
escoo-me em pálidos fluidos
derretida em contínuas vibrações
respiro palavras ofegantes
dilatada nas ondas de calor
irrompo em lufadas ciclónicas
adormecida em tranquilos sonhos
sorrio olhares amendoados

acordada
sou uma sobrevivente
amada

Irene Ermida

In Libris

In Libris é uma livraria, uma editora e um espaço onde se fazem coisas malucas - Cultura - PUBLICO.PT

Leituras...

Uma coisa, qualquer que ela seja, se permanece demasiado tempo igaul a si própria, acaba por perder aos poucos a sua própria energia e torna-se letárgica. Até mesmo os castelos no ar só têm a ganhar com uma nova demão de tinta para ficarem com a «cara lavada».

Uma narrativa que nos prende da primeira à última linha, oscilando entre a realidade e a fantasia, em que o narrador retoma o passado no presente, com a intenção de reescrever a sua vida, dissimulando a cronologia dos acontecimentos, como se fosse possível partir do zero a qualquer momento. O narrador caminha para o abismo numa promiscuidade entre o imaginário e o real, acompanhado pelo leitor que mergulha na teia ora do improvável mas possível, ora do impossível mas provável.





28/12/2009

desassossego(s) 1






desassossega-me a chuva
em corpo de gente
que desfia palavras
e gotas
loucas de vento
e de esperança

que ficam no tempo
impenetrável e esférico

não sonho distâncias
nem amarguras

limpo as estrelas do céu
e bebo a água
do tempo da chuva.

Irene Ermida

24/12/2009

Fingimento


sem significado e sem ser santo
mais um dia em que fingimos que nos preocupamos
em que trocamos presentes comprados à pressa entre sorrisos atabalhoados
e acreditamos nos sonhos das crianças
que já nem sonham
perpetua-se a tradição da ceia que acaba com urgência
por ausência das palavras imposta pela distância
ao longo dos meses
e vêm à lembrança os que ignorámos e esquecemos
fingimos tão completamente
que chega a ser verdade
a verdade que deveras é...

Irene Ermida

Pensamentos

“Os Educadores lutam pelo sonho, de tornar os alunos felizes, saudáveis e sábios.


Por isso cultivam os terrenos mais difíceis de serem trabalhados; os da Inteligência e da Emoção.


Esta é uma tarefa heróica, mas estes ensinamentos não se destinam a heróis.


Destinam-se a seres humanos falíveis (como todos somos) que sabem que educar é realizar a mais bela e complexa arte da inteligência; é acreditar na vida, mesmo nos momentos menos alegres; é ter esperança no futuro, mesmo que o presente nos desiluda…”
 
 
Auguste Cury

13/12/2009

Uma noite quente


O frio não esmoreceu a vontade de interromper a rotina da semana e deleitar-me com os sons da Old Blind Mole Orkestra que acabou por ser uma lufada de ar quente numa noite gelada! O humor e a voz do vocalista Stelele e a versatilidade dos instrumentos e da música (uma mistura de jazz e swing, em pop boémio, em folk e gipsy ou música dos Balcãs) foram um bom motivo para retomar o entusiasmo e a energia para mais uma semana de luta.

06/12/2009

Leituras...



«Na manhã seguinte, está sentado à secretária manca com uma caneta na mão, examina um poema recente e sente-se cada vez mais desencantado com o que escreveu, pergunta-se o que será melhor: seguir em frente com o poema, arrumar o manuscrito para posterior reflexão, ou muito simplesmente atirá-lo para o cesto do lixo. Ergue a cabeça paea espreitar pela janela: cinzento e nublado, uma montanha de nuvens avoluma-se a oeste, mais uma mudança no sempre mutável céu de Paris. Agrada-lhe a obscuridade que inunda o quarto - uma obscuridade reconfortante, por assim dizer, uma obscuridade amistosa, uma obscuridade com que uma pessoa poderia conversar horas a fio.»

Um livro inquietante e imprevisível ao estilo de Paul Auster. Mas este «Invisível» ultrapassa as expectativas a que já nos habituou. Uma história caleidoscópica que prende o leitor aos pormenores e a uma escrita que viaja no tempo e espaço.





« - Quando alguém procura - respondeu Siddhartha - pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitam que ele a encontre, porque ele pensa sempre apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos.(...)»

Uma viagem pela espiritualidade do ser humano que nos recolhe em nós próprios, por sensações esquecidas e nos revela o fluir da vida.
Um livro que não pode ser lido e arrumado na prateleira!



«Ele era um homem de fé. A fé elevava-o, proporcionava-lhe altura, transportava-o para fora do tempo. E justamente no momento em que, com mais fervor, pedia ajuda, os seus olhos cruzaram-se com os de Malinalli e uma faísca maternal uniu-os num mesmo desejo.Malinalli sentiu que aquele homem a podia proteger; Cortés, que aquela mulher o podia ajudar como só uma mãe o conseguia fazer: incondicionalmente.»

Uma história de amor entre Hernán Cortés, um dos mais importantes conquistadores espanhóis e a índia Malinalli, sua intérprete, atenua, por um lado, os acontecimentos cruéis ligados à conquista do México e, por outro, realça a riqueza da cultura indígena.

Uma leitura que nos leva a pensar na imperfeição do Homem, que tanto é capaz de crueldades extremas, como de infinita benevolência.



«Doeram-me as palavras dele como se a vida estivesse espetada no meu corpo e, para crescer, eu tivesse que desencravar essa farpa.»

«Em Jesusalém, o que mais me impressionou, desde logo, foi a ausência de electricidade. Nunca antes tinha sentido a noite, nunca tinha sido abraçada pelo escuro, abraçada por dentro até eu mesma ser escuro.»

«Regressados à cozinha, um impulso me atirou de encontro ao peito do meu irmão. abracei-o, por fim. E o abraço durou todo o tempo da sua ausência.»

A magia da escrita de Mia Couto em todo o seu esplendor!
Expressões de uma beleza e expressividade surpreendentes, é o que podemos descobrir neste livro, que me foi oferecido pelo meu filho, com a particularidade de estar autografado pelo próprio autor! Até hoje, sem dúvida, a melhor prenda de aniversário!

28/10/2009

... e permaneço

risco no cetim diademas e pulseiras

obras de arte rudes e inocentes
que adornam os voláteis anéis de vento
encaracolados

combino planos inclinados e traço gotas de água
enredadas em forma nenhuma
distraída de mim

modelo sombras num mistério ignorado
cansado
entristecido

rasgo o pano imaculado
e viro as trevas do avesso
num gesto ferido!
Irene Ermida

24/10/2009

... não sou

nasci na nuvem que atravessa o deserto
e voo nas secretas asas de mim
num dia sem horas marcadas

numa palavra distinta
separo a chuva, gota a gota,
escrita nas mãos

que verbo sou na folhagem pintada
no mural de vultos e silêncios?

Irene Ermida

enquanto sou...

e porque se cala o vento?
de onde vem esse sussurro que abafa a voz?
sem tempo, nem dó?

não há sol no meu olhar,
e vejo a luz que se acende na minha boca
e abraço a sombra do meu corpo
numa forma que não é

procuro o sopro adiado que vem de longe
entre quimeras e perguntas
perdidas nas águas vermelhas do rio

e não há céu

e não há voz
Irene Ermida

15/10/2009


é doce (?)

como uma cereja madura caída despida

a palavra espera guardada

entre as páginas de esquinas e de rebordos

de livros secretos

Irene Ermida

É de arrepiar...


12/10/2009



«This is the PEN Story in stop motion. We shot 60.000 pictures, developed 9.600 prints and shot over 1.800 pictures again. No post production! Thanks to all the stop motion artists who inspired us. ... »

http://www.youtube.com/watch?v=m9Et7UQh1tg

08/09/2009

Viagem



A capacidade de viajar ultrapassa largamente as limitações geográficas e económicas.
Viajar é abrir portas e janelas e deixar entrar a luz e o vento, sensações e pensamentos.
Uma viagem pode ser um livro, um filme, uma conversa, uma atitude, um sonho, um devaneio...

É, no fundo, uma questão de sobrevivência e um modo de estar na vida. É a essência e a alteridade. É desembrulhar arquétipos e escavar túneis. É desobstruir canais e construir pontes. É riscar preconceitos e percorrer estradas.

Não interessa o meio, o local, o tempo... viajar, é fundamental.

31/07/2009

Luz(es) 3

tingida de espanto
olho de soslaio a raiz
que sabe a fruto

absorvente anátema
desenho flores
de vermelho e de azul

mas sou pássaro distante,
livre

e o meu canto
não é traço nem ponto
é solo árido de deserto
onde passeiam nómadas
à chuva

Irene Ermida

Luz(es) 2


e saio de mim pelo rio
que nasceu floresta no mar
sem extensão, sem espaço


imagem que me afasta e me aproxima
do centro, tímido e húmido, informe
sem perdão,

caminho entre as vozes
de silêncios

quem murmura palavras
atrás da cortina secreta
sonha-me inteira
e não sou eu que mudo o som
que não se ouve

Irene Ermida

Luz(es) 1


não há vento que me abale
nem dia, nem noite
que me atordoe

nasci árvore num continente
que podia ser africano ou asiático
ou nenhum deles, ou todos num só

é uma terra sem luz, sem rio
sem vazio

surda, ouço a cor do som
que me pinta num quadro
onde o verde é azul
e a água cega o olhar de quem não vê.
Irene Ermida



23/07/2009

Mágoas

e a propósito de nada
a meio do calor da tarde
lanças o perfume reles
de uma natureza rude e incisiva
que esquece a dor do parto



e o cordão umbilical
que fez de ti mãe
dissolve-se na amargura
e na mágoa das palavras
contundentes e injustas



Irene Ermida



02/07/2009

da autoria de Chinita

despertar 3

saio do sono montada
numa estrela cadente
já não é noite nem dia
és tu, sou eu

sem limites de horas
nem de fronteiras
não há cercas nem grades

há uma vontade de te querer.
Irene Ermida

despertar 2

um beijo que me arrasta
pelos lençóis da ternura

acorda a minha existência
em labaredas galopantes
que me consomem

até deixar o rasto de um sorriso
travesso e penetrante

bom dia, meu amor.
Irene Ermida

01/07/2009

despertar 1

um despertar lento de volúpia
beijos que se entrelaçam
no calor dos corpos e dos lábios
quero-te
livre, como uma águia

que bebe o ar quente
e a água fresca


quero ser a tua nascente.
Irene Ermida

27/06/2009

«O canto do Marquês»


Escrever, para uns, é uma arte, para outros, apenas uma ferramenta de comunicação imediata. Cada vez há mais escritores, cada vez há menos quem escreva «bem». Por isso, foi com grande satisfação que descobri este blogue http://www.ricardomarques.pt.vc/ !!!
Reparem na idade do autor e digam lá que não é uma maravilha ler «alguém» assim!

20/06/2009

num compasso de espera, vou alterando os tons...

27/05/2009

.................
O cinzento que dominava o fundo deste blogue deu lugar a um tom rosa claro...
Que quererá isto dizer?!
Estou a regredir no tempo e a voltar à infância?!
Ainda vou mudar a foto!
Espero que gostem do novo visual!
...............

21/05/2009

Na bruma 3

...


Impregnada de neblinas

absorvo a humidade quente

que paira na minha madrugada

de acordares sem sal

na tranquilidade dos mares


devoro as nuvens

na liberdade de quem sou

em cada momento

aspiro o orvalho

e reclamo luz na sombra

de quem sorri.
Irene Ermida

08/05/2009

Na bruma 2

...

Antevejo formas lunares

de um eclipse sideral

numa órbita imaginária

de sentidos e odores


Não distingo o volume

atreito a rumos e,

numa trajectória repentina,

afasto a neblina

que me inflama a retina

numa percepção clara

da unidade absoluta.

Vocalizo a tua presença

num efémero murmúrio

da voz do silêncio.
Irene Ermida

06/05/2009

Na bruma 1




Obrigada TCA pela ilustração deste poema.



abraço a bruma

de uma aurora que tarda

nos lábios de quem não diz

nada nem ninguém



numa espera silenciosa

respiro o futuro

com a incerta certeza

do amanhã adiado,


que virá envolvido

na ténue imagem de ti.
Irene Ermida

26/04/2009

Una palabra, Carlos Varela



Una palabra no dice nada
y al mismo tiempo lo esconde todo
igual que el viento que esconde el agua
como las flores que esconde el lodo.
Una mirada no dice nada
y al mismo tiempo lo dice todo
como la lluvia sobre tu cara
o el viejo mapa de algun tesoro.
Una verdad no dice nada
y al mismo tiempo lo esconde todo
como una hoguera que no se apaga
como una piedra que nace polvo.
Si un dia me faltas no sere nada
y al mismo tiempo lo sere todo
porque en tus ojos estan mis alas
y esta la orilla donde me ahogo,
porque en tus ojos estan mis alas
y esta la orilla donde me ahogo

20/04/2009

Imprevisto(s) 3

ferida no traço de um corpo

que se adivinha no meu olhar

inerte permaneço

no seio de línguas frenéticas

tão cheias de vazios

que secamente se dilatam

em manifestos sibilinos


respiram lufadas bafientas

que não me embriagam

dessa luz anímica


e num suspiro de ironia

recolho a suavidade

de cores e sons
Irene Ermida

21/03/2009

Imprevisto(s) 2

oculto-me na linha de um sorriso

que insistente desabrocha nos meus lábios

de cores desmaiadas pelo espelho

que nada me diz

no silêncio áureo

da catedral de sonhos barrocos


dos meus gestos maquinais

surge um esboço do mundo

incandescente e fugaz


e num apetite de palavras

cruzo promessas laminadas

por um rio azul
Irene Ermida



05/03/2009

Imprevisto(s) 1


estranho-me no véu de minúsculas

que em vão cobre o meu nome

não me sinto ali no papel

nem me vejo mulher

na translúcida passagem

por lugares distantes das minhas mãos



dos meus olhares vazios

nasce a vontade de encher o mar

de estrelas e de cavalos



num galope desenfreado

retenho uma imagem opaca

da ínfima realidade que sou

Irene Ermida



23/02/2009

Imagem: google

soprava a pena

contra o vendaval

tecido entre a bruma

de nevoeiro nenhum

(cansada)

foi pousar no mar

que a (en)levou

para longe do olhar
Irene Ermida



13/02/2009

é um faz-de-conta
que se atravessa no oásis
de um tudo-ou-nada

maravilha-mulher
de melancolia feita

perdida na multidão
impessoal e anódina
emitente de razões
inexistentes
Irene Ermida



11/02/2009

foi um segundo
(sem ser o primeiro)
numa eternidade
de olhares
de palavras
de gestos
de silêncios
sem tempos marcados
sem memórias
sem voz

26/01/2009

Deixei atrás os erros do que fui

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exacto nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.



Poesias Inéditas (1930-1935)
Fernando Pessoa
As palavras de Pessoa impressionam pela simplicidade com que exprime a vida!

30/12/2008

Imprecisão 3

FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/


uma misteriosa inquietação

constrói uma consciência impávida
que surge na escuridão de uma manhã

impávida fragmentada ameaçadora

resisto à luz gradual que me cega

e à minha volta espalho pétalas de medo

sabia onde parar?

do fundo retirei os raios de água

que escorriam pelo rosto imóvel

em momentos de hesitação inexistente

sem notas musicais impossíveis

rodo os ponteiros do relógio

e reencontro-me, submersa,

na margem de um rio febrilmente seco
Irene Ermida



Imprecisão 2

FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/




vem aos lábios a letra indistinguível

de difusas canções familiares

um átrio atravessado por um denso nevoeiro


exala aromas de infinitas memórias

de uma infância encadernada de verde

pressenti a indiferença e folheei as fantasias


emersas do gelo inquebrável

que, envolvido em doce nostalgia,

se derretia nas minhas mãos

escorreguei pela vereda das imagens insólitas


e parti, num dia claro,

em viagem

Irene Ermida



21/12/2008

Imprecisão 1


FOTO: Pedro Noel da Luz http://olhares.aeiou.pt/

não arrisco adivinhas nem magias

palavras dormentes acordam o regresso

ao canto esquecido de um quarto

na traseira soalheira da casa invisível

aperto a sombra contra mim

e o calor do relâmpago espreita com olhos de poeira

o segredo que durante milénios ousou feitiços

tropecei na aventura informe e abriu-se o alçapão

pendurei o calendário dos anos seguintes

e as memórias expiraram

num poema

Irene Ermida



11/12/2008

A diferença

Foto: Gonçalo Sousa, http://olhares.aeiou.pt/




A diferença requer um olhar diferente.


Sufocados e submersos pelas intempéries da vida, que se desenrola numa sequencialidade de banalidades frívolas, acessórias e rotineiras, empurrando-nos para o lado seco e amargo do tempo, permanecemos imunes e indiferentes, alheios e mecânicos, vazios e distantes.


O olhar embaciado pelos reveses avança em direcção nenhuma, sem sentir, sem pensar, sem saborear.


Tudo é igual porque o queremos ver, sem olhar.


Mas a diferença existe!

Surge, de repente, imponente e incontornável num gesto, num sorriso, numa lágrima, numa palavra, num olhar! Parece efémera... mas, na verdade, perpetua-se em nós e marca a diferença de sermos iguais.

Irene Ermida



26/11/2008

.
pintei-me de cores esbatidas pelo fogo
.
e lavei os olhos nas cinzas mornas e vivas
.
queimei as páginas da história que nunca aconteceu
.
soltei estrelas, suspiros e palavras
.
que flutuaram no olhar esquecido
.
de uma tarde apagada


.

Irene Ermida



24/11/2008

.
atirei-me para um canto
.


vazia de sentidos e de dores
.


olhei-me com olhos de mares e de montanhas
.


sem riscos delineados por sombras imutáveis
.


ali, no meio de um querer sem porvir
.


rasgada por raios de vento e de silêncio
.


permaneci inerte na neve de branca calma
.

e vivi uma única vez
.
Irene Ermida



22/11/2008

Dores e outras coisas de momento

...
De há uns tempos para cá, estou a ficar preocupada comigo, o que acontece muito raramente. Quando aparece uma dor, espero que passe. Mas esta dura há quinze dias... e não há meio de passar! É intermitente, é certo, e geralmente aparece ao fim da tarde. Deduzo que seja stress (este palavrão que dá com tudo!). Reuniões até às tantas e quase diárias, imprevistos atrás de imprevistos que exigem resposta pronta, a rotina de problemas... Um infindável colar de contas (ou de contos?)...

Ontem, quando cheguei a casa, decidi enfiar-me numa banheira de água quente para descontrair. Adormeci e só acordei com a água fria!

Hoje fui para uma esplanada à beira-mar, sob um sol resplandecente, com boa música de fundo e dediquei-me à leitura de Mr. Vertigo, de P. Auster. Perdi a noção do tempo, até ter dado conta do zumzum que estava à minha volta. Incomodada, decidi ir ao cinema, onde me esperava uma fila enorme de pessoas que ao fim-de-semana se recolhem no shopping para esmagar o tempo.

Saí com a tal dor de cabeça e vim para casa.

E, de caminho, embrenhada nos meus pensamentos, comecei a acordar: há qualquer coisa que não está bem comigo! Ou seja, tomei consciência de que não suporto espaços com gente... pessoas... seres humanos... E isto, sinceramente, preocupa-me. Gostar de estar sozinha, evitar espaços contaminados de vozes, de risos, de movimento... Não é normal ou, pelo menos, não era até agora!
Quando é que sabemos que sofremos de misantropia?!
...
Irene Ermida



17/11/2008

Pérola(s)

Foto: Barbara Angel http://olhares.aeiou.pt/

um corpo estranho

invade o ser que sou

sem o ser

as pérolas deslizam
.
como grãos de areia
.
pela extensa silhueta
.
em reflexos azuis e sem cor
.
sem sabor
.
pérolas que caem
.
como gotas de água
.
pela face pálida e serena
.
sem contornos
Irene Ermida



16/11/2008

(de)gelo



Foto: JM Monteiro http://olhares.aeiou.pt/




toco o gelo e a neve


fundidas nas tuas mãos


entrelaçadas nas minhas




um degelo chamado eu


por um tu chamado nós


acesos num lume


que queima as asas


de um querer


com voz


Irene Ermida






Desabafar é bom... ou excelente?!


Já há uns tempos atrás tive oportunidade de me referir à minha professora primária.
E hoje, mais uma vez, quero, necessito, mais do que nunca, lembrar-me dela!
O seu estatuto impunha respeito, admiração e o seu empenho e dedicação incentivava os melhores e não deixava para trás os mais fracos. Uma professora que ensinava, corrigia, educava… tratava-nos como alunos e como filhos, víamos nela a figura de mãe, de conselheira, de lutadora: era a senhora professora. Aprendíamos, porque ela nos ensinava, porque sabia exactamente qual a sua missão! Uma EXCELENTE professora!
Nós, crianças, sentíamo-nos gratas! E, pelo seu aniversário, oferecíamos-lhe um ramo de flores em sinal do nosso reconhecimento, que amaciava a sua aparência austera e deixava ver aos mais atentos, as lágrimas que ficavam a brilhar nos seus olhos.
Ao longo da nossa vida de estudantes privámos com EXCELENTES professores, que fizeram a diferença e se perpetuaram na nossa memória como exemplo a seguir. Dos fracos? Não reza a história! Caem no mais profundo esquecimento!
A todos os EXCELENTES professores que, diariamente, se empenharam ao longo de décadas (e aos que se empenham) na sua tarefa de ensinar pelo simples prazer de ver os seus alunos aprender, sem esperar louvores, nem menções honrosas, nem prémios, conscientes de que a sua acção ultrapassa qualquer rótulo, que o contributo que prestam para melhorar a «educação» dos homens e mulheres que um dia serão profissionais dos mais diversos sectores (mecânicos, cozinheiros, jornalistas, médicos, engenheiros, motoristas, ministros…), e que sempre foram alvo da indiferença total por parte da sociedade que deixou de lhes reconhecer competência, autoridade, dignidade; votados a um esquecimento displicente durante anos e anos, a quem, mais do que qualquer formalidade de avaliação, interessa o juízo que os seus alunos formam deles no quotidiano das suas aulas e fora delas…
A todos os EXCELENTES professores que foram avaliados com uma menção de SATISFAZ (importaria saber quantos requereram a menção de BOM no anterior sistema de avaliação!) e se contentaram com ela, porque o mais importante era a sua rotina escolar centralizada na aprendizagem dos alunos, porque esse sim, era o sentido do seu trabalho…
A todos os EXCELENTES professores que deram o seu contributo para que os seus(suas) alunos(as), passados uns anos, soubessem escrever, ler, criticar, formar opiniões, argumentar, fundamentar, mesmo contra eles…
A esses EXCELENTES professores anónimos para quem as quotas nunca serão suficientes nem os afectará na sua integridade, presto a minha homenagem porque souberam (sabem) enriquecer o país de ideias e de atitudes!
Expresso, por último, à minha professora primária um agradecimento especial por me ter ensinado que a pronúncia do “x” pode ser diferente consoante a palavra, e que o significado da palavra EXCELENTE não se limita a um mero quantitativo numérico, mas antes corresponde a um conteúdo e a uma essência incompreensíveis a quem não guarda memória dos seus professores.
Afinal, não é mais importante ser um BOM EXCELENTE do que um EXCELENTE de 10 valores?!

Irene Ermida



10/11/2008

Cinema sem pipocas

“Shine a Light”

À última da hora venci a inércia da segunda-feira e lá fui ao «Cinema sem Pipocas». Um documentário arrepiante
de Martin Scorsese com a banda dos Rolling Stones, filmado em 2006, no Beacon Theater, Nova Iorque.
Não fosse a má qualidade do som da sala, e ter-me-ia julgado em pleno espectáculo ao vivo!
A força das imagens traduz a energia contagiante de Mick Jagger e a marotice de Keith Richards.
Momento alto do concerto: o dueto com M. Jagger e Buddy Guy.
Momento de reflexão do filme: resposta de M. Jagger a um jornalista durante uma entrevista há cerca de 30-40 anos atrás que pretendia saber se o cantor se imaginava aos 60 anos a fazer o mesmo - Claro, na boa!
Uma lição para os mortos-vivos do planeta! Deste, entenda-se!

(des)enlace

...
D E S E N L A C E evidente à luz do dia
...
espelhado na transparência das águas
...
e LIVRE é o que sempre foi
...
D E S A C O R R E N T A D O
...
E
...
I N T E N S O
...
Irene Ermida



enlace



...
E N L A C E oculto que transgride todas as regras
...
desagrega o U N I V E R S O dos sentidos insiginificantes
...
D E S M I S T I F I C A D O S
...
E
...
P E R M I T I D O S
...
Irene Ermida



01/11/2008

Destruir depois de ler



Diria uma paródia da sociedade actual (americana e não só) que oscila entre a ironia e o absurdo quer das relações interpessoais, despojadas de sentimento e fruto de meras circunstâncias, quer da paranóia criada por temores infundados de qualquer potencial trama de espionagem, culminando com o objectivo alcançado por Frances McDormand, na personagem de uma empregada de um ginásio que sonha recuperar a silhueta esbelta de há vinte anos atrás, através de cirurgia plástica.
A sequência de situações, que parecem deslizar entre si e precipitam os acontecimentos, impregnadas de um humor subtil ou de um cómico evidente, permanecem na retina por algum tempo e fazem uma viagem no cérebro proporcionando perspectivas diferentes sobre a banalidade de uma rotina interiorizada.
Sem termos de comparação com outros filmes realizados pelos irmãos Coen, este, provocou-me o riso, o sorriso e a boa disposição, mas também apreensão, pois, na sala de cinema cheia havia meia dúzia de pessoas com estes sintomas! Ora, das duas uma: ou ando a exagerar no riso, ou os outros andam deprimidos!

30/10/2008

Hemisfério(s) 3



Foto: David Sousa http://olhares.aeiou.pt/
colateral
ponto cardeal
da rosa-dos-ventos
.



arco lançado ao vento
num rodopio circular
desenha espirais contínuas
sem fim sem princípio
cruza distâncias e proximidades
em fracções de segundo
que não chega a ser
tempo contado pelos ponteiros
de relógios de cristal sem pêndulo
a medir amplitudes
nem variações
Irene Ermida



Hemisfério(s) 2


Foto: Bruno Silva http://olhares.aeiou.pt

artificial
esfera assimétrica
de simetrias instáveis


atravessa pontos
equidistantes
e colide com coordenadas
aleatórias
traçadas a giz no pó volátil
do axioma
solto no cais que se estende
sobre o mar
ausente no sorriso rasgado
de uma nuvem

Irene Ermida



29/10/2008

Hemisfério(s) 1

Foto: José Meneses http://olhares.aeiou.pt/


cerebral

esquerdo a sul acidental

direito a norte oriental


hemisférios sem meridiano

cruzam-se na linha curva que une pontos

de partida e de chegada

do princípio de nada ao fim de tudo

numa recta contínua

de um plano imprevisível

de um espaço excessivo

preenchido de vazios tão cheios...

Irene Ermida




28/10/2008

Segmento(s) 3


Foto de Nélio Filipe http://olhares.aeiou.pt/
.
páginas divididas em partes iguais sem rótulos nem verdades adormecidas em veredas singulares percorridas por existências similares e anódinas na permanência agrilhoada num tempo seco e trivial inquantificável e imenso interrompido por um luar dominado pela noite enevoada de ruídos inexplicáveis projectados ostensivamente no delito cometido sem pudor preconizado por entidades feéricas que dançam sob a chuva que atrai gotas minúsculas que se unem numa trajectória de queda no cume de montanhas inatingíveis
 
Irene Ermida