29/03/2007

da vida 3

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definitivamente o verde emoldura a tela
e papoilas adormecem
e contrastes
que se desfazem
que se renovam
que se enaltecem
sem cinzentos de nuvens e de águas
com azuis brandos de amor
de morenos que sabes ter
nas mãos revelas
palavras
sólidas de dúvidas
de momentos incertos
de inconstante firmeza
aqui e ali
na direcção indicada
de sons surdos
sorrisos
desenhados nas curvas dos teus lábios
sem marasmos recônditos
extenuados
numa simplicidade por si


26/03/2007

da vida 2

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da vida e do tempo que se perde
em minutos de sofreguidão
rumo a incertezas que se inventam
és certeza em mim
convictamente acordada
de temores e distâncias
que se encurtam
de tão perto que te ouço
respirar
submetida por palavras
escondidas
em gestos reprimidos
de ternuras desejadas
regresso
daí onde adormeces
adiada por excessos de dias
espero
porque quero e porque sei
essa espera
de pétalas feita

20/03/2007

Insólitos (3)

Porque nem só de coisas sérias "vive" este blogue...

Muita imaginação!!! Até no pormenor do preço!

Em que estaria a pensar o(a) autor(a) desta frase?!

18/03/2007

da vida 1

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limpa
quero ser
e
imagino um bosque
atrofiado de fantasmas
entrelaçados
nos ramos das árvores
agitadas
por ventos quentes

numa solidão de loucuras
de sintomas
de indícios
assisto à serenidade do regresso
na beleza da história
leio os vazios
crescentes de ânsias e de versos
resisto aos encantos obscuros
de sóis pungentes
e transfigurada
persisto na saudade do efémero

Insólito(s) 2

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Visitei o blog 'troca de olhares' e deparei-me
com uma citação (que não conhecia) de António Lobo Antunes:

«Esquecer uma mulher inteligente
custa um número incalculável de mulheres estúpidas.»

Fiquei a pensar com os meus botões se,
em vez de «mulher» estivesse «homem»,
os termos da oposição dicotómica inteligente / estúpido
seriam os mesmos...
Talvez seja assunto para reflectir, ou será que não?
Afinal, o que faz uma mulher não esquecer um homem?!

17/03/2007

Projecção 3

 porque nunca há porquês


Foto: http://www.photoforum.ru/
projecto olhares
longe do pensamento
indefinido

ali me sento
esquecida
de trapos e de ideias

da tua voz
em contrastes de sons
espartilho as palavras
que ditas em gestos
é por aqui
ou por além
desvio-me
da metáfora que és
e encerro-te
numa hipérbole de sonhos


Projecção 2




Foto: http://www.1000imagens.com/

dissolves-te
na minha mão trémula
que embala o vento

a tua imagem distorcida
celebra-se no espelho

- sem lágrimas -

descompassada
deslizo os dedos
e desenho-te no meu corpo

no hálito quente da noite
adormeço

Projecção 1




Foto: http://www.1000imagens.com/
em sombras esbatida
inclino-me
e vejo-me
suspensa nos teus olhos

sou ténue projecção
nas águas estáticas do rio
desagregada em areias

recolho-te nos meus lábios
o tempo recua
e o futuro
foge desse instante
despenho-me
numa esperança teimosa
e num doce sorriso
espero-te

Dança contemporânea

.


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"Daqui em diante" pela Companhia Olga Roriz

Um espectáculo inolvidável! Mas estou na minha fase anti-cultura! Saí no intervalo (eu e uns tantos outros). Não fiquei bem na «fotografia» mas a idade tem destas vantagens: já não se liga a isso!
A selecção musical é óptima e o cenário, essencialmente minimalista, é sugestivo. A luz e o som ajudam... Os figurinos insinuantes, versáteis, humanos...
De dança contemporânea... gosto muito!
Mas a fase dos absurdos já lá vai! Os meus já são suficientes!
A noite acabou por ser salva numa animada e divertida conversa de café ao sabor duma caipirosca! Valha-nos isso!

14/03/2007

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(Des)articulação 3

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no ponto desarticulado
desci pelo íngreme firmamento
oblíqua de vazios

arada de incursões
caminhei
perpendicular a mim própria

desprovida de ódios
cultivei afectos
distantes do tacto

e sucumbi à sedução
sem medos à porta

.

(Des)articulação 2

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http://pt.trekearth.com/gallery/Asia/Japan/photo396897.htm


e num passo desarticulado de ritmo
determinei o meu compasso
de vida

avancei na impossibilidade
de cair

privada de visão límpida
adiei uma invisual certeza
e voei na escrita
e encontrei-me

.

(Des)articulação 1

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um inconcebível desígnio
cruzou serenidades e desassossegos
e
numa indomável tempestade
arranquei punhais de pedra
que feriam gestos e olhares

uma insípida indiferença irrompeu
ao virar da esquina

escoei-me em movimentos
e
desarticulei-me em sons

.

Segunda descida à Terra


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No post « Descer à Terra» de 2 de Novembro de 2006, escrevi: «sempre atenta ao sinal sonoro que anunciava o número de chamada e o respectivo balcão de atendimento. Cerca de uma hora depois, lá consegui vislumbrar o meu número no écran de uma das televisões colocadas a dois metros e tal do chão, o que constitui um verdadeiro teste à visão e ficamos sempre a pensar que a nossa miopia se agravou e que vamos usufruir das vantagens da idade naquela óptica dos anúncios televisivos...»


Ontem, uma nova deslocação aos mesmos serviços e, quando procurava a informação do número e respectivo balcão de atendimento, deparei-me com os écrans desligados, ali moribundos...
E porque, por vezes, me apetece ser estúpida, pedi ao funcionário a informação: «tem que aguardar a sua vez e ver quando aparece ali no plasma». Ah! «Plasma» é a palavra secreta!

Esta eficiência provocou-me um arrepio. Olhei à volta e ali estavam eles: dois plasmas colocados estrategicamente, apresentando, do lado esquerdo, uma pequena imagem muda do jornal televisivo e, do lado direito, o número e o balcão de atendimento em letras suficientemente grandes para uma visão mais míope.

Os anteriores aparelhos jaziam ali, estáticos e obsoletos, a dois metros e tal do chão.
Fiquei contente pela opção de ver os meus impostos assim aplicados !!!

13/03/2007

Rotação (1)

http://www.photoforum.ru/photo/163798/index.en.html


O despertador avisa que são sete e quarenta e cinco minutos. Embora a vontade seja adormecer novamente, levanto-me!
Adivinho uma longa jornada, mas nem imagino quanto!!!

Oito e meia da noite, entro em casa. De rastos!
Ligo para alguém por uma questão profissional e acabo por receber uma péssima notícia!
Há dias assim...
Encho a banheira, acendo umas velas, mergulho na água morna e fecho os olhos. Desfaleço!
E choro...

11/03/2007

Insólito(s) 1

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Foto: http://pt.trekearth.com/


Um instante insólito, enquanto caminhava ontem ao longo da praia, sucedeu-me inesperadamente.
Dedicava-me ao meu exercício de desentorpecimento do corpo e do espírito quando, repentinamente, me senti «uma ilha»!
Havia o mar, o sol, as pessoas mas, como uma ficha desligada da corrente, experimentei uma sensação de que tudo à minha volta era um imenso absurdo!
E pensei: se me evaporasse agora, tudo continuaria exactamente igual por milhares de anos!
Afinal, o que marca a diferença?!

Charmaine Neville Band

Com Charmaine Neville (voz), Amasa Miller (teclados), Jefferey Cardarelli (baixo), Gerald French (bateria)

Charmaine Neville Band é certamente uma das melhores formações saídas de Nova Orleães. Liderada a nível instrumental pelo veterano teclista Amasa Miller e pelo saxofonista Reggie Houston, que tocou com Fats Domino, a banda tem como vocalista Charmaine Neville, filha de um dos mais aclamados elementos dos Neville Brothers. Misturando com sabedoria os sons lendários de Nova Orleães, a Charmaine Neville Band junta ao blues, o R&B, o jazz e o funky.

Um espectáculo diferente... uma mistura de ritmos interpretada por uma Charmaine enérgica que transmite em palco uma presença contagiante, como se estivesse possuída de espíritos ancestrais criadores de sons primitivos.

08/03/2007

Terá razão?!

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Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.

O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor.
É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz.
É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber.

O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade.

É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra.

A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso

Porquê o dia 8 de Março

07/03/2007

Imersão 3

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trasladada

numa imersão de saudade

rio e choro

sumersa pelas camadas ermas

de tintas púrpuras

num imergir repentino

que naufraga

desalentos e paradoxos

ininterruptos

de formas e de cores

Imersão 2

imergente

nas águas profundas e revoltas

hesito

na cadeia de corais

sem astrolábio

sem bússola

forrada de estilhaços salinos

flutuo

por oceanos esquecidos

perdidos achados

ocultos expostos

à deriva em mim

até ti

05/03/2007

Imersão 1

.


La Columna rota, Frida Kahlo
1944


imersa no errar da denúncia

concedo-me cogitações vagabundas

placebo da dor

distancia-se do agora

e o nunca regurgita

de tanto amar


04/03/2007

E o Melhor Filme é...



Martin Scorsese é, por si só, um nome que me impele a sentar-me na cadeira confortável do cinema...

Já Taxi Driver (1976), me impressionou e, desde aí, tento ver todos os seus filmes, embora me tenham escapado alguns, por um ou outro motivo, ao longo destas décadas .
Ao vencer o Oscar para o melhor filme com Entre Inimigos, Scorsese vê reconhecido o seu talento, perseverança e trabalho, que o público já há muito lhe reconhecera ao brindá-lo com grandes audiências.
A escolha dos actores contribuiu em grande parte para a qualidade do filme e, na minha opinião, Jack Nicholson teve uma das melhores interpretações da sua carreira.
Este remake do primeiro filme da trilogia de Hong Kong Infernal Affairs, apresenta as teias da luta entre os bons e os maus que, a dada altura do filme, se confundem em torno do objectivo comum que perseguem, pois, afinal, «Polícias ou criminosos. Quando enfrentas uma arma carregada qual é a diferença?»
A violência é dominante no filme e, como qualquer filme americano deste género, a palavra "fuckin" é uma constante... (Sempre me fez muita confusão esta reincidência de registo...!)
Gostei do filme. Confesso que Scorsese me fascinou mais com Taxi Driver ou Nova Iorque Fora de Horas, por exemplo. Mas, ainda bem para o realizador, que a Academia se lembrou dele ainda vivo.

Mais informações no
site oficial.


Silêncio(s) 3

.

privada de palavras
retenho pensamentos
numa omissão de sons e de ruídos

uma abstenção de afirmações
paralisa-me a memória
que erra por destinos ocultos

um ócio inerte
anula o bulício
e interrompe o curso do tempo


28/02/2007

Prioridades

.
Antídoto para os workahólicos!!! Incluindo eu!

Mesmo a propósito: slow down week e slowdownnow

É caso para pensar...

e talvez mudar de atitude e redefinir prioridades!

Afinal todos sabemos isto mas deixamos que o tempo faça de nós o que quer...

Devia ser ao contrário, não?!


Obrigada Carlos pelo mail e pela sugestão!
Espero que a ponhas em prática também... :-)


26/02/2007

Silêncio(s) 2

.

cedo ao mutismo que me cala
e em surdina ouço silêncios

cerco-me por segredos mudos
e tranquila desvendo silêncios

cega de omissões que me afagam
e serena destapo silêncios


.

25/02/2007

Woody Allen em cena

.
Mais um título a constar na filmografia de Woody Allen, tão longe dos anos 70/80: «Nem Guerra, nem Paz», «Annie Hall», «Intimidade», «Manhatan», «Uma Comédia Sexual numa Noite de Verão» ou de «A Rosa Púrpura do Cairo», «Dias da Rádio» ou de tantos outros.

«Match Point», o filme anterior a «Scoop», agradou-me bastante, e até me surpreendeu pela vivacidade com que o septagenário Allen nos brindou.

Estava à espera de mais em «Scoop»... A veia humorística mantém-se eficaz, embora pouco criativa e que salva o argumento, o qual oscila entre o thriller desconcertante e a comédia romântica sem sal. Sid Waterman, o ilusionista americano interpretado pelo próprio Allen, revela-se uma personagem fundamental para colorir a história que gira à volta de Peter Lyman (Hugh Jackman) e Sondra Pransky (Scarlett Johanssen), mas tinha esquecido como é cansativo acompanhar o ritmo ininterrupto e apressado das locuções de Allen!

Um filme simpático para descontrair, num dia de Inverno...
Há mais aqui.

Dualidade(s) 3

.

duplicidades triangulares
riscam vértices obtusos
na superfície lisa de pares

por tão pouco o regresso é adiado
pelas estradas dissolutas de vogais
entre parêntesis curvos de notas musicais

espelhos que se abrem em concavidades oprimidas de soluços
e incidem nas oscilações definidas por ventos
que nada importam que nada revelam
que tudo fraccionam em instantes de genuína inocência

23/02/2007

Silêncio(s) 1



silêncios

perfumados de filosofias orientais


silêncios

engastados de exotismos arcaicos


silêncios

turvados de signos incógnitos


21/02/2007

O lado menos (ou mais) sério da vida

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Ao vaguear por essa blogosfera, descobri há tempos o sítio «Vida de Casado» que consta a partir de hoje da minha lista de
links. E a propósito, surgiu-me a vontade de escrever sobre humor...

As relações humanas revestem-se de uma complexidade de dimensões incomensuráveis que obriga a análises cada vez mais profundas e contraditórias e, se focarmos a questão nas relações entre homem e mulher, então aí há «pano para mangas»!

O humor usado com inteligência é, frequentemente, a melhor «arma» para lidar com o grotesco das situações e relativizar a gravidade de gestos e atitudes. A ironia, por sua vez, é uma variante que acaba por se revelar extremamente útil, para combater a irracionalidade e ambivalência de atitudes com que, diariamente, somos confrontados...

Ambos os processos exigem um treino específico e sistemático, que permite, ao ser humano mais decente, atingir níveis de reacção elevados e apropriados a cada momento, com o mínimo de desgaste.

Perante a hipocrisia, a mentira, a falsidade, a estupidez, que nos exasperam e nos deixam à beira dum ataque de nervos, nada melhor do que mudar de atitude e, mantendo a calma, reagir com um discurso raiado de humor, temperado de requinte, de inequívoca incisão e de desconcertante frontalidade.

Desenvolver a capacidade de transformar situações dolorosas, embaraçosas, ou simplesmente irritantes, num desafio à resistência do «verniz» que «encera» alguns habitantes deste minúsculo planeta, pode significar uma excelente oportunidade de evitar «cabelos brancos», «envelhecimento precoce», e contribui decisivamente para uma natural melhoria da nossa qualidade de vida.

Reconheço que é tarefa difícil, pois nem sempre a disposição nos permite actuar dentro dos limites do bom senso e da racionalidade. Daí a indispensável preparação e exercício metódico, de modo a permitir-nos adquirir o imprescindível savoir-faire para olhar de frente e desarmar o nosso «alvo».

Tirar a terra debaixo dos pés de alguém com um sorriso, é sempre o caminho mais fácil de desmascarar um idiota!

Reflictam sobre o assunto e usem e abusem do humor... a vida assim fica mais leve!

Ah, e deixo o link dum texto delicioso de
Victor Hugo.

Foto: David Mendelsohn

20/02/2007

Dualidade(s) 2

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David Mendelsohn

uma interrogação em forma de dilema
contrai-se espasmodicamente
entre inspiração e expiração seráficas

que vejo se não sinto,
que sinto se não vejo?

uma esfera mundana arrepia-me
e sem arrebatamentos de última hora
esfolo o passado que se enovela
no meu calcanhar de Aquiles

e numa busca constante
distingo o acaso que me desviou de caminho algum
como se algum fosse um caminho
aleatoriamente acoplado a outros caminhos
de estreita passagem vedada

mas não! era livre e ainda sou

Impressões fortes

.

O realizador de 21 Gramas, Alejandro González Iñarritu, apresenta-nos agora outro surpreendente filme: Babel.

Exímio contador de histórias de vidas humanas, revelando uma magnífica capacidade de nos aproximar das personagens que, subitamente, vêem o curso das suas vidas alterado devido a um incidente, Iñarritu demonstra como um simples gesto (neste caso, um turista japonês que oferece uma espingarda a um guia marroquino) pode desencadear uma sequência de acontecimentos diversificados em vários pontos do mundo e entrelaçar destinos de estranhos que falam diferentes línguas.

Num perspicaz aproveitamento da metáfora da Torre de Babel, este realizador anuncia aqui e ali diferentes incómodos do mundo contemporâneo, em que não faltam os contrastes civilizacionais que põem a nu preconceitos, paranóias, discriminações.
Iñarritu revela-se um profundo conhecedor da complexidade da mente humana quer na sua individualidade, quer despoletando a sua vivência social.

...ninguém leva a mal...



Ir ao cinema foi sempre e continua a ser, para mim, um acontecimento único. Não me convencem com home cinema, surround, plasmas, dvd, hdtv, e toda essa profusão de tecnologias que retiram o prazer de viver o maravilhoso mundo de sensações que um bom filme pode proporcionar, desde que não haja por perto «comedores de pipocas», nem «palradores indomáveis».

Nesta cidade de «província», como tanto gostam de nomear os nossos compatriotas citadinos, ir ao cinema é um acontecimento inolvidável. Nas palavras do meu descendente, sou detentora de um poder de atracção para «azares» que, por exemplo, faz mover livros de prateleiras rumo ao chão sem que ninguém esteja por perto... o certo é que, não recordo nenhuma vez que tenha ido ao cinema nesta «santa terrinha», que não venha de lá com alguma historieta caricata!
Uma dessas vezes levantei-me visivelmente indignada, visto que a projecção do filme teimava em apresentar meio filme e apresentei reclamação; de outra vez, um grupo de «catraios» decidiu ir ver um filme para «grandes» (os pais descansadinhos em casa porque os meninos estavam guardadinhos a incomodarem os outros e, como não percebiam patavina do filme, insistiram em publicitar em voz alta a sua ignorância, apesar dos protestos dos restantes espectadores); poderia enumerar mais algumas, mas fico por mais esta que aconteceu hoje.

Num dia de chuva, véspera do dia de tolerância de ponto, nada mais apropriado do que ver Babel, um filme fabuloso de um realizador surpreendente.
Ora, estando já sentada no meu lugar (detesto esta marcação por números e letras!), atenta às primeiras imagens do filme, apercebo-me de uns atrasados que reclamavam por terem ocupado os respectivos lugares, o que obrigou a uma mudança de última hora, passando os prevaricadores mesmo à minha frente, num grande alarde... Não gostei!!!
Como se isso não bastasse, logo de seguida, a espectadora do meu lado esquerdo, pergunta-me: «Que filme veio ver?!» Olhei-a, atónita!!! Então não se estava mesmo a ver o título no écran?! BABEL?! Respondi, serenamente: Babel... Entre uma exclamação e outra, ela e o acompanhante lá saíram, pois, afinal, tratava-se de um equívoco... não era bem aquele filme...
No intervalo (que existe apenas para manter o bar lá do sítio), encontrei um casal de amigos que já não via há algum tempo... Ela sempre muito aprumada, dando dois passos atrás para me olhar de alto a baixo, tendo fixado o olhar na bolsa a tiracolo (que não sendo Gucci, é simplesmente um assombro e que me tira pelo menos dez anos!) foi comentando que não estava a gostar do filme. Naturalmente, aludi ao facto de conhecer já o realizador e reconheci que não me sentia nada decepcionada, pois o filme vinha totalmente de encontro às minhas expectativas...
Mas quem me manda a mim ter estas tiradas?! Mais uma vez olhou fixamente a minha bolsa, numa descarada observação do meu estilo descontraído mas que, sem dúvida, a incomodava. Ri-me por dentro e continuei com ar condescendente... De repente, apareceu o marido que teceu alguns comentários sobre o filme e, pobre homem!, ouviu das que não quis... Tentei pôr água na fervura, convencendo-a de que a vida de casada implica algumas cedências de parte a parte... mas nem me ouviu de tão agitada que estava e manifestava a sua intenção em nunca mais vir ao cinema; ele contrapunha que sim, que haviam de vir mais vezes e que até queria ver o Diamante de Sangue, ela: nem pensar!

Refugiada de novo na bela fotografia de Rodrigo Prieto, esqueci todos estes contratempos, prometendo a mim mesma que, da próxima vez, faço novamente cem quilómetros para ver um filme descansada!

18/02/2007

Dualidade(s) 1

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http://www.olhares.com/a_cela/foto840099.html

desprendo-me desta farsa feita história
que artificial se desenrola numa arena
de dúvidas e hesitações
retiro o lenço que limpou suores
e solto a satisfação do sorriso matutino
que projecta no sol aprazimento e perspicácia
de loucuras adiadas

afinal sempre quis
que fosse ou não
sem sombras nem decadências
as figuras que se destacam no fundo de mim
que me impelem na hora de avançar
rumo ao mistério da leveza
insubsistente e frívola
aponho adereços de vidro
numa transparência irredutível de chamas
acesas e extintas
vertigens e suspiros soltam o derradeiro fôlego
e uma ferida dissipa-se para abrir caminhos
inéditos e selvagens


Obscenidade(s) 3

.http://www.1monde.net/index.php/C7/

num carrossel de segredos entre sussurros e medos
giram as mãos em desvarios momentâneos
pelos cabelos cruéis que afagados adormecem
sob um luar de verão ainda distante
não te olho

num ingénuo delírio inflamado
encosto-me sem reservas inúteis
a um calor irresistível de sonhos castos
sucumbo ao hipnótico momento intacta
e não te quero
assim assim


17/02/2007

Obscenidade(s) 2

.
os meus dedos percorrem o contorno dos teus ombros

num deleite abandonado de sentidos

surda a palavras ocas que rodopiam nos intervalos

do espaço que o meu corpo ocupa, entre vírgulas,

me expando lasciva e nua de conceitos

numa síntese de intimidades minhas e tuas

.

Obscenidade(s) 1

.Agradeço a adesenhar ter respondido ao meu desafio com esta imagem.



de púrpura elegância me vesti

ondulando os passos de salto alto

pela insistência do teu olhar sôfrego

- formosa e insegura ? -


afoita!

tiritei sílabas de vermelho bâton e de rubra paixão


no meu peito um rubor latejava

fendia gelos e convencia magos

de escarlates intenções e silêncios abafados

ruboresceste numa palidez resignada do limbo

em que me sonhaste

16/02/2007

Delírio(s) 3

.

à deriva no mapa oscilo entre norte e sul
e extraviada nas margens de mim
chego ao porto de mares esquecidos
de obstinadas memórias possantes

errante de destinos indesejados
prisioneira de absurdas linhas cruzadas
e de aromas perturbados

à deriva no mapa oscilo no vácuo
de aragens perfumadas de rosas
e ditam elas caminhos entre lírios e prosas

e me deito com o que sinto
sem sentir o que pinto!


14/02/2007

Um dia apropriado!!!

.
Esta coincidência não pode ser casual!!!
Li neste blog, segui o rasto até aqui e, curiosa, descobri isto:

Disfunções Sexuais

«O dia europeu da Disfunção Sexual (14 de Fevereiro) relembra um problema que afecta cada vez mais portugueses. Felizmente, a cura é uma realidade para a maior parte das patologias do foro íntimo.»

in EGO, 20 a 26 de Fevereiro de 2004

E que não seja por falta de informação, há mais aqui


O que é Amar

.

Ausente dele ou porque me excede, não, não falo de amor...
Deixo que outros falem por mim porque o fazem melhor do que eu...

Obrigada Éric pelo teu contributo!


Já não há filósofos nem poetas
Que me digam, hoje,
o que é amar.

O que é gostar de alguém como se gosta de um Deus,

O que é ouvir embevecido
a voz doce e penetrante
de quem se ama,

O que é ficar arrepiado
quando o frio da noite já passou,

O que é acalorar-se
quando a brisa da janela passa,

O que é sentir o coração bater descompassado
quando o nome do amado é soletrado,

O que é estar à espera
sentado no telefone
da palavra “semprevoucontigo”,

O que é ficar prostrado e moribundo
quando o dia do encontro é adiado,

o que é ser trespassado
pela força desse beijo quente
que se dá,

o que é cheirar inebriado o corpo nu
que se entrelaça em nós,

O que é ficar corado de vermelho vivo
quando o sangue corre lesto
pelo torso inteiro
anunciando em espasmos brancos
os cumes todos que trepamos
quando somos um,
em dois, em nós.


Não
não sei o que é Amar.
Sei apenas o que sinto que seja.

E digo-o aqui
como se ninguém antes
nada tivesse dito sobre isso
e eu fosse o primeiro a desvendá-lo.


Mas vejo agora
que o disse,
que tudo isto é mentira
e não existe:


eu nunca senti nada disto que vos disse
nem vou voltar a sentir.
25/04/2006

António Pinheiro


Delírio(s) 2

.

não me entendem as palavras num estar de doer

ontem e amanhã sem hojes que não sinto mares magoados

alienados correm voluptuosos de rios sem margens

de lágrimas transpiradas suores e desejos corruptos e sumidos

mea culpa de mim possuída de ímpetos arrebatados impulsivos

em sombras de ontens e de clarões de amanhãs

.

13/02/2007

.

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abundam-me as palavras subitamente
e afogam-me num sucumbir sóbrio de inevitabilidades
um mas impõe-se
falta o desenho, a mão que contorna as palavras que reinvento

aborrece-me pesquisar imagens no google
aborrece-me seleccionar fotografias
mas,
um mas impõe-se!
e falta-me o traço...

como nestas fases da lua...

um desafio para quem ama as palavras e sabe desenhá-las em sentidos
não há prémios... nem recompensas... nem sorteios
apenas o meu mail à disposição para receber
as vossas linhas e curvas e traços


12/02/2007

lua nova

.



e um meteoro de chuvas e uma nuvem de céus

e satélites de dias e estrelas de noites

cosmos enobrecido e exaltado de angústias de opressões

constelações de medos e de centauri e de sirius

que medos te atreves?! que agitações inventas?!

que nebulosas calas?! que eclipses encobres?!




quarto minguante

.


exigente de saberes e nunca de teres a solidão das rochas inundadas
de ciúmes e invejas

em vinganças salta e morre e renasce até perder de vista
pecados inocentes

impoluto de certezas duvidosas do bem e do mal tangidas
de melodias férteis e opulentas

distante de neves e de sóis
quando?!


lua cheia





apetites vorazes de tesouros dourados de pratas e de ouros

dormem em canções de intervenção e de cio

latejando nas ondas curtas e longas de saudades de vidas

latidos e miares purgam fantasmas medievais de sentidos impensáveis

ama e só?




quarto crescente





bandeiras vermelhas de azul sem razões de aparências duvidosas

cataventos azuis de branco sem limites de ilusões inflexíveis

faróis de verdes mares tão violetas e recurvos de linhas e linhas

incontornáveis

sim?!



Trânsito(s) 3

.

foto: http://www.ni-photos.jmcwd.com/moonlight-dusk-ireland.html

é de estar sem
que conto as horas em segundos
de meditar deles
sem chegar e com partir
de lá para cá
de cá para lá
solto ventos em dias
quem me denuncia?
se o sol não
a chuva também
e cai lentamente
ao luar

Trânsito(s) 2





cativa numa amena existência
presa em remotas viagens
vagueio por alucinantes muralhas
de areia construídas

num casulo fingido de valentia
refugio-me insignificante
de dores e pavores
numa firmeza de papel
arrasto mágoas e sentires
de ti em mim
e invento saídas
que nunca serão
querer

reinventar palavras e momentos e avançar num futuro
de perdições e amores
redesenhar planos e esboços e investir num há-de vir
de tresvarios e vontades
transitar pelas margens de seres sem nunca o ser e soltar nós
de ti e de mim

11/02/2007

Conspiração de domingo


Acordada pela intensidade da dor muscular que me atormentou o sono, decidi ficar entre os lençóis a ouvir a chuva lá fora e a ler «As voltas dadas ao mundo», de Salvador Nogueira.

Mais por hábito que por vontade de ser contactada, liguei o telemóvel. Apetecia-me ficar assim indolente e ociosa, alimentando o meu imaginário de palavras e de universos alheios.

Tocou inoportunamente! Do lado de lá: – Bom dia Maria Irene, olha preciso que me escrevas frases para ilustrar vinte e nove imagens… Atordoada pelo estranho pedido, questionei: – mas sobre o quê? assim de repente, não consigo! -, - consegues, pois, tu tens uma cabeça do caraças! -, - com que então sou cabeçuda? -, - ahahahahah, fazes-me isso? Preciso disso hoje sem falta! -, - mas as imagens têm a ver com o quê? (insisti), - olha, é para o dia dos namorados! - Ah! (exclamei indiferente) ok, vou tentar… (derrotada, aquiesci, pois não há nada que consiga negar a este meu sobrinho).

Esta interrupção do meu sossego obrigou-me a iniciar a rotina com o pequeno-almoço. Mas a máquina de café não gostou e recusou-se por três vezes em saciar a minha necessidade de estímulo!!!

Em seguida, duche: deixei correr a água para que esta ficasse bem quente… entrei e saí de imediato!!! A caldeira solidarizou-se com a máquina de café e teimou em manter-se inactiva! Dei voltas e voltas e vi que não tinha pressão. Tentei tudo! Liguei até para uma vizinha que me deu uns conselhos, em vão. Percorri o circuito dos radiadores, maldizendo esta subversão de papéis reclamada pelas mulheres só para terem aborrecimentos destes! Tudo inutilmente…

Decidi então aquecer água… mas o fogão impavidamente se aliou à conspiração dos electrodomésticos, recusando-se a dar chama! Ia começar a praguejar, mas respirei fundo (ultimamente este exercício tem resultado lindamente!).

Já no escritório, esquecida destes contratempos, decidi arquivar a papelada que durante algumas semanas se foi acumulando em cima da secretária. Separadas as facturas e outros papéis inutéis, que só existem para nos lembrar que vivemos numa sociedade moderna, deparei-me com as facturas do gás que, de repente, ganharam uma majestosa importância!!! Atentei de perto: e apercebi-me que, desde Dezembro, o meio de pagamento deixou de ser automático (sem que nada tivesse feito para isso ser alterado!) e constava o pagamento por Multibanco!!! Incrédula com a minha inépcia para estas vulgaridades que desvirtuam o sentido da vida, entendi então que me tinham cortado o gás!

10/02/2007

Um sorriso pintado de ironia




O som abestalhado invadiu-me o pensamento que, por mera precaução, se precaveu contra uma súbita invasão dos sonhos e adiantou-se, por isso, à hora do despertar.
Já preparada para o trilho traçado para este sábado que incluía, entre outras coisas, assistir a uma lição de estratégia de marketing, tomei consciência da dor que me atormentava o pescoço e me causava uma indisposição geral e que me obrigou mais tarde a recorrer a uma farmácia onde, além de um emplastro colocado estrategicamente, tomei um medicamento que me aliviou o incómodo.
Já relativamente refeita, aventurei-me pela rua de comércio mais ou menos movimentada e um impulso levou-me a entrar numa loja de artigos de cristal, pensando ver uma lembrança para uma amiga que já há meses ando para comprar.
A empregada dirigiu-se-me após alguns minutos indagando se pretendia ajuda e vendo a minha hesitação, muito solícita, perguntou-me se era para uma amiga, - é sim -, - estes aqui dão para pendurar num fio, aqueles... - interrompi-a, decidida - vou levar aquele! - olhou-me espantada, não sei se pela rapidez da minha escolha, se pelo objecto escolhido que, neste caso, era um coração multicolor muito bonito.
Sempre articulando palavras em catadupa que não faziam muito sentido para mim, em virtude do meu pescoço ainda se impor impiedosamente ao meu cérebro, esboçava sorrisos, trocava olhares com a colega, perguntava maliciosamente - é para oferecer, não é? -, - sim, é para oferecer - respondi, enquanto maquinalmente efectuava o pagamento.
À saída reparei na montra adornada com corações vermelhos invocando um santo que, a ser verdade, morreu por unir casais em segredo, quando decretada a sua proibição a fim de aumentar o exército e que terá pago essa ousadia com a própria vida.
Soltei um sorriso quase gargalhada e percebi finalmente...

08/02/2007

Cena(s) (sur)real(ais) 2

.

Mais uma vez os pés teimaram em manter-se presos ao chão de um gabinete onde, por entre papéis, telefonemas, decisões, risos, desabafos, partilhas e lágrimas até, me mantive ancorada à realidade que se impõe, fatalmente, no quotidiano «do lado de fora da janela».


- Ontem um miúdo magoou-se durante a prova!
- Foi grave?!
- Foi, fez um golpe que deixou o osso à mostra... lá lhe prestei os primeiros socorros enquanto aguardávamos a ambulância que, claro, teve alguma dificuldade a chegar ao sítio onde estávamos no meio do monte...

Contou-me, visivelmente abatido, mas convicto de ter tomado a atitude certa em todos os momentos.
No centro de saúde não havia material para sutura interna: costumamos ter, mas hoje por acaso não temos.
Reencaminhado para o hospital juntamente com uma carta elucidativa do problema, aguardou nova triagem, um cartão de certa cor que o rotulava de mais ou menos urgente... e passadas quatro horas de se ter ferido(!!!), foi assistido.
Valeu-lhe a companhia reconfortante do professor e a valentia que se pode ter com 10 anos.

Trânsito(s) 1

.

Foto: http://www.daveylouisjones.com/gallery/pages/Will%20You%20Hold%20Me.htm


cingida num efémero enleio
afastada do distante mundo
sugada pelo instante de afago

desbrava zonas inóspitas
verdes selvas amazónicas
mágicos desertos alaranjados
sóis tórridos e revelados
dóceis mares aquietados
renascida e remansada
numa preguiça perfeita
distende o olhar e medita
perfumada

06/02/2007

Questão de vírgulas?!

.


Onde colocar a vírgula?!


"Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de rastos à sua procura."




Obrigada pelo mail Eric

05/02/2007

Cena(s) (sur)real(is) 1



Quem visita este espaço poderá pressupor que a autora não passa duma visionária letrada que, por mero entretenimento, se dedica a somar palavras pertencentes a diferentes categorias lexicais e a criar universos fictícios e por aí anda perdida...
Seria óptimo ter essa capacidade de flutuar sem nunca tocar com os pés no chão... é que, por vezes, há cenas da vida real que só deveriam acontecer no imaginário de cada um!

Hoje, na caixa de um hipermercado, aguardava a minha vez de ser atendida, quando a cliente seguinte começou a colocar os seus artigos no tapete, logo atrás dos meus.
A criança de cerca de 4-5 anos, em pé, no carrinho das compras, movimentava-se atarefada, ameaçando a qualquer minuto uma queda que lhe custaria no mínimo uns hematomas, e pedia repetidamente à mãe um chupa-chupa.
Esta recusava tal pretensão, argumentando pedagogicamente que lhe fazia mal à barriga, ao que acrescentei afavelmente: e aos dentes. O rapazinho olhou-me ferozmente, enquanto a mãe me retribuía um sorriso.
A insistência do pedido aumentou numa clara demonstração de que não iria ceder a tal táctica. E então, a mãe, após alguns segundos, propôs: queres um dvd ou o chupa-chupa? exibindo-o energicamente diante dos olhos da criança que, hesitante por breves instantes, aceitou a troca, ciente da vantagem do negócio.
Assisti muda e perplexa, imaginando um mundo de adultos escravizado por estes seres inocentes e maravilhosos...
Então, adivinhando os meus pensamentos e, não querendo deixar margem para dúvidas, este «micro-empresário» lançou: quero um chocolate!
A mãe, orgulhosa de ter dado à luz tal criatura com evidente capacidade de negociação, imaginando o futuro risonho de um potencial Belmiro de Azevedo (ressalvo as devidas distâncias), entra no jogo e responde mais uma vez negativamente, ameaçando com um possível desarranjo no organismo... Ele reitera o seu propósito, ela opõe-se... e, subitamente, eleva no ar não um, meus senhores, não dois, não três... mas o extraordinário número de cinco dvd's!!!
Desta vez, a criança não hesitou, esboçando imediatamente um sorriso triunfante, ao mesmo tempo que me dirigia um olhar digno de qualquer imperador vitorioso regressado de mais uma batalha!
Controlei a minha estupefacção, com receio de que tal aprendiz de mercador tivesse algum poder secreto, adquirido num dos filmes do Harry Potter e me transformasse repentinamente em abóbora!
Ainda pude observar a felicidade que a mãe irradiava, ostentando-a através de gestos de carinho, premiando o filho pela sua proeza!

03/02/2007

Pausa de sábado



Que tal, Pablo Milanés?

A pedido de «muitas famílias» retirei o Vangelis para evitar qualquer conotação política...

Rosas, só mesmo as que têm espinhos!
Às dúzias, de preferência!
Mas acima de tudo prefiro tulipas!

Uma perfeição feita de pétalas
Que invade olhares
e suaviza tristezas...


Um bom tema: flores!
As mulheres, os homens e... as flores! Oferecer, receber flores...

Ainda se oferecem flores?!
Já recebi, em tempos, rosas e tulipas também...
No tempo em que os gestos eram importantes...
Mais do que as palavras...


02/02/2007

Delírio(s) 1

.
febril
cedes à angústia de esboçar
triângulos e círculos
losangos e rectângulos
numa geometria da afeição
demente e alienada
colateral e simplificada

o silêncio suaviza a distância
entre ti e a tua ausência
imóvel e determinada

alísios ventos sopram
pelo equador da tua ideia
e inventam uma rosa dos ventos
com cardeais pontos reinventados
sonhados

desorientado
navegas pelas marés diletantes
de oceanos pacíficos
distantes delirantes dissecados
naufragado
contudo

Miopia(s) 3

.


.anseios adormecidos
por uma forte cefaleia repentina
criam cenários dantescos
de indizível magnitude
passos de invisuais insanos
crepitam no flutuante arco ogival
imponente inaudito infalível
sem costuras
por inteiro
somente

01/02/2007

Miopia(s) 2

.

.simples mulher simples
roubada a jardins dourados
a fantasias dissonantes
a devaneios complacentes

olhares cegos por girassóis
oblíquos sinuosos distorcidos
despenham-se nas curvas
prostradas falsas arqueadas

olhares hauridos por papoilas
cálidas quentes ardentes
alongam-se nos painéis
pendentes descaídos suspensos

perfeitas espirais preciosas
de um presente amado
e desprezado

31/01/2007

Miopia(s) 1

.


um imperador turvo
impera num sem sentido
descoberto de sentidos
não dorme sonos indolentes

sem sonhos sem quimeras sem ilusões
míope de honras de louros de triunfos
apela grita e risca
avidamente

penedos e rochedos
abalados tremidos assustados
sedimenta diáfanos sóis
luzentes ardentes cegos

ditosos caminhos percorridos
de um futuro adiado
mas apetecido

30/01/2007

Lufadas de humor fresco!


Gato Fedorento - Assim Não

Curiosidades:

Portugal
tem uma superfície de 92 100 km2. O território continental (88500 km2) inscreve-se num rectângulo com 560 km de comprimento por 220 km de largura!!!

População: 10 569 900 habitantes

Língua oficial: hipocrisês, falada principalmente por mentes iluminadas à força de tanta literatura consumida avidamente, para ser «despejada» uma vez por semana perante as câmaras de televisão...

29/01/2007

Mundos à parte

.

O Universo, na sua acepção cosmológica, exerceu, desde sempre, um desmedido fascínio no Homem que se dedicou a encontrar explicações para a sua origem, existência e até futuro.

"E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há-de retornar para ti, e tudo na mesma ordem e sequência."
Retirado daqui

Nietzsche concebeu a teoria do eterno retorno que assenta no pressuposto da existência de um movimento circular do tempo e das coisas, o que implicaria que tudo voltasse a acontecer uma infinidade de vezes. Por exemplo, amar a vida com o máximo de intensidade, significaria que isso se repetiria infinitamente. É linda esta metáfora, não é?!
Aliada ao amor fati poderia ser uma alavanca para nos apartar dos momentos desagradáveis com que o quotidiano nos vai pulverizando.
Lembro-me de A vida é bela, um filme que merece uma reflexão pela abordagem que faz do lado negro da vida digerido de forma positiva.

Este devaneio germinou a partir da visita ao sítio: the elegant universe uma aliciante sugestão do nosso já habitual comentador pirata vermelho.
Vale a pena!!!

As palavras

.

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

28/01/2007

.


uma cordilheira de beijos paralisados
por espasmos soluços e prantos
gira numa roda de fogo e de gelo

anulam-se contínua e reflexivamente
sem deter entusiasmos ou cansaços
adormecem vontades
sem dramas, com tragédias
com dramas, sem tragédias
numa constante comédia circense
com actores que padecem
de imperfeições humanas
passadas presentes
e nos bastidores ocultos da solidão
resvalam para o apoteótico palco
de leve espuma durável

Claridade(s) 3

.


a noite é um crepúsculo permanente de dúvidas sobre certezas tão definitivas como as estrelas que assinalam mais um firmamento perfeito alienado insensato de intuições infalíveis e evidentes que turvam a razão

a eloquência serena de prestidigitador inflige incisões no curso de água que corre solto pela face crestada pelo fogo de qualquer paixão indomável extensa perene nutrida de olhares oprimidos e candentes que suspendem o destino


25/01/2007

O último de Mel Gibson

-
Programa de quarta-feira à noite numa cidade vigiada pelas montanhas sem neve do Marão:

Jantar de amigas em casa de M.M. seguido de uma ida ao cinema...
Após uma agradável conversa à volta da mesa recheada de boa comida (parabéns à cozinheira) regada com um bom vinho (não me perguntem qual, por favor...) lá fomos nós satisfazer a nossa curiosidade cinematográfica...
M.M. gosta de história e sabia tratar-se da civilização Maia; eu tinha visto a apresentação do filme e pareceu-me tratar-se de um épico a meu gosto; O.D. não queria ver pois tinha ouvido dizer que tinha duas ou três cenas violentas...

Prós: a fotografia do filme é notável; o desenrolar das cenas impede qualquer sonolência; tem uma alternância de planos interessante...

Inconvenientes: interdito a espectadores impressionáveis e susceptíveis a contracturas musculares, provocadas pela tensão contínua do início ao fim do filme! Quem vai à espera de aprender alguma coisa mais sobre a civilização Maia, esqueça! E ainda há que ter um grande fôlego para acompanhar a correria do Pata-Jaguar...

Apreciação global: contrariamente ao meu hábito, passei o filme a tecer comentários irónicos para aguentar a pressão; MM escondia o rosto nas cenas mais chocantes (tipo sangue a jorrar qual torneira aberta...); OD pagou o bilhete e não deve ter visto nem dois minutos seguidos, tal o horror que lhe provocava a tela! Ainda lhe emprestei os meus óculos de sol mas não resultou!

Decididamente, mal por mal, prefiro o inofensivo Mel Gibson quando lê e ouve o pensamento das mulheres!