04/02/2012




Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino.



Marguerite Yourcenar
solidão...

não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam...

morrerei
como eles morrem.

Marguerite Yourcenar

Márcia com JP Simões - A PELE QUE HÁ EM MIM (Quando o dia entardeceu)

15/01/2012

é como se realmente te importasses... mas, no fundo, já nada importa. Alheio ao que sinto: dor, deceção, desalento, indiferença, solidão. São derrotas consecutivas como se o amor me estivesse vedado cada vez que  o meu coração desabrocha e acredita. Vale a pena? Já nada vale a pena... Acena-me a luz para logo a seguir cair na escuridão. Abre-se a porta para imediatamente entrar num castelo sem saída. São becos com uma luz ao fundo que se apaga sempre que me aproximo. E a réstia de esperança que alimento esvai-se no nevoeiro denso do medo. Só o mar me entende, só o mar me ama com tal força que me mantenho viva dentro de mim para mim.
Com tanto para dar, para partilhar, para oferecer... e a vida devolve-me mágoa e desgosto. O tempo não pára e os segundos correm velozmente para um abismo sem retorno. E, no entanto, (não te amo).



percorro com o olhar as sombras ao meu redor... transfiguram-se em pedras frias numa harmonia enternecedora e perplexa... existe o destino? esse destino que suga os meus sonhos e as minhas ânsias? esse ciclo que me apanha no ar e me projeta contra a impossibilidade de não sentir e me provoca feridas atrozes e cicatrizes profundas... e sinto... o quê? emoções... que me atordoam e me confundem... que me abatem sem piedade... resignação ou inconformismo? por que lado vou? não quero, não quero, não quero decidir... quero embalar-me no som do mar que tudo permite, que torna tudo possível...
mas não... não vou resistir... vou procurar um refúgio que me proteja de mim... e deitar-me na corrente e adormecer nas nuvens, onde não hajas sentidos a procurar, onde não me encontre perdida... porque quero perder-me e não voltar  a encontrar-me!


Irene Ermida


Como saber a hora exata
...em que devemos desistir?
Como saber o minuto
... em que nos leva o vento?
o segundo
... em que abandonamos o sonho?

como saber que já perdemos?

olhar para trás
e rodopiarmos na roda
que risca no céu um círculo
que nos absorve
engole
devora
o projeto de ser novamente
e de amar plenamente?!



Irene Ermida




22/12/2011


UM NATAL BRILHANTE PARA TODOS !

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20/12/2011

Alan Parsons Project - Time (com tradução)

Nu(s)

Foto: Google



dispo-me da pele rasgada
e mergulho (s)em ti
nas águas intensas e frias
na imensidão do lago
que te quero dar
no universo sem limites
que me ofereces

e um impulso gerado na escuridão
foge para a margem da plenitude
que seria
e nu(s)
e livres
nós 

Irene Ermida

sem nó(s)





há um nó(s) na voz que me incendeia
e na vontade de percorrer caminhos estranhos
estranha a mim que não existo 
nessa estrada que todos percorrem 
e vou numa descoberta
incompreensível
incerta
e viajo sem correntes 
há um nó(s) solto
não há amarras nem portos

há um navio num horizonte
e há um amor
sem alcance 
sem prudência
e olho as conchas
e sinto-as minhas.

e olho as ondas
e sinto o mar.

Irene Ermida






16/12/2011



“Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo ! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de estar a agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo”.

José Saramago

15/12/2011

GWTW - Vivien Leigh - '...tomorrow is another day...'

Podem magoar-me, que perdoo...
Podem derrubar-me, que me levanto...
Podem odiar-me, que amo ainda mais!




13/12/2011

Sem tempo

Imagem do Google


espremo o tempo contra o peito
como se dele quisesse mais alguns segundos
para o ter na minha mão e deixá-lo fugir

o meu tempo é a estrada
sou partida
sou chegada

cansada

nasci sem tempo
sem asas

e não há pensamento 
nem entendimento

para o que sinto
e nada

nada traz o vento
e não sei fugir

só sei planar invisível 
num vácuo onde atraso os ponteiros da ausência   
de mim e do mundo.




Irene Ermida



22/11/2011

Trilho(s) 3

e há um sol que queima por dentro
e consome o ar e a terra de uma partida

e há uma pena perpétua
que acaba no tempo que sonho
sem um trilho atrevido
que me engole no vácuo
há uma palavra que dita o silêncio
e não há distância que esquece
os passos medidos entre nós.

Irene Ermida



19/11/2011

Trilho(s) 2

sigo o trilho até ao fim de mim mesma
que me leva a memórias de areia e de mar

e há cheiros a sal feitos de água
que jorram de sonhos (des)feitos
ao sabor de lágrimas e de risos
tranquilos e escondidos
que correm atrás de horas
sempre de imagens sobrepostas
numa tela que não é minha.


Irene Ermida



09/11/2011

Trilho(s) 1





é um passo num trilho gasto de palavras
ditas, em silêncio, que ecoam cá dentro
não há mas nem sim nem não
há uns talvez que mantêm
a nuvem escura e padecem
na sombra escura de mim
nas entrelinhas de quem sou
nos intervalos de quem fui
não vês o que apagas de ti
na vereda que ladeia
o caminho que sou

e algo não esmorece
e permanece.

Irene Ermida



Mew - Symmetry

28/10/2011


(imagem Google, alterada)



"Approchez vous du bord, dit-il; 

-On ne peut pas, Maître, on a peur ; 

-Approchez-vous du bord, réitéra-t-il; 

- On ne peut pas, Maître, on a peur; 

- Approchez-vous du bord", fit-il encore. 

Ils vinrent. 

Il les poussa... 

Et ils volèrent..." 

Guillaume Apollinaire

09/10/2011

O Amargo Destino do Sonho

«Aí residia a sua força e a sua virtude, aí era invergável e incorruptível, aí o seu carácter era firme e rectilíneo. No entanto, esta virtude trazia estreitamente ligados a si também o seu sofrimento e o seu destino. 
Acontecia-lhe o que a todos acontece: aquilo que por impulso da sua mais íntima natureza demandava e em que se empenhava com a maior pertinácia, era-lhe concedido, mas ultrapassando aquilo que ao homem é benéfico. O que começava por ser sonho e felicidade, redundava em amargo destino.»

Hermann Hesse, in "O Lobo das Estepes"
morrem-me as palavras

na nascente da água doce e pura...

morro na tua boca

sem amanhã

porque não és meu

há uma partida do destino
para um lugar qualquer

distante de mim.



Irene Ermida



és a metade que me nega

que se recusa no tormento do esquecimento

és o sinal longínquo de um barco arrancado às tormentas

amputada do meu corpo, exilada no teu deserto

os olhos já não são olhos
e as mãos abrem-se no limiar do sorriso

não há invenção de dias e de noites
há a tristeza e os tremores das lágrimas
que se escondem em poesia.


Irene Ermida



Dói-me deste amor.

Dói-me de doer 

Dói-me de pensar em ti

Dói-me da tua ausência

Dói-me a saudade

Dóis-me
de amar...






Irene Ermida

Fio de luz (3)

...e num mar de sonhos não resistia à forte corrente que a fustigava, que a estremecia numa estrela, que a rodeava de (in)sentidos, de meias-luas, de ventos solitários... deixava-se ir para o abismo pelos caminhos de um amor avassalador. E não via o horizonte que lhe mostrava as nuvens densas dentro de si. E não via a luz cortada de sombras, nem o azul de um mar entontecido pelas marés. Via a margem onde os seus pés teimavam na areia movediça de pantanosos círculos. E tudo era imenso como o mistério de um profundo (a)mar.

Irene Ermida

25/09/2011

Fio de luz (2)

Saltou da margem de si mesma e mergulhou nas águas do rio que se abria de par em par como se ele tivesse estado ali, sempre, à sua espera. Não nadou contra a corrente que a espreitava e lançou-se na transparência da escuridão e via... via tudo que sempre viu, numa vertigem que a fazia voar e sorrir. E o rio segredou-lhe o vento e mostrou-lhe o mar, tingido de tantas cores de oceanos onde o tempo não era tempo e a luz era luz.


Irene Ermida

28/08/2011

Fio de luz


Dominou-a um cansaço extremo como se o peso do mundo fosse apenas uma pena que cambaleando pelo ar lhe tivesse caído em cima dominasse todos os seus movimentos e numa paralisia total nem os olhos abria... eram as cenas repetidas de um filme clássico que se projectavam no seu íntimo e não se mexia... assistia... misturada numa plateia imóvel também, suspensa por um fio de luz sem tamanho nem cor... sabia que extinta a luz o filme repetir-se-ia vezes sem conta num contínuo fluir de imagens. Fechou os olhos e sorriu, alheada de si, e presa no feixe de luz que lhe fugia.


Irene Ermida

06/08/2011

há palavras...

Imagem: https://www.facebook.com/modernart21




há palavras que ficam presas no ar quando te respiro e te sinto em mim

numa espiral de sentidos tão sentidos e sem sentido 

que só a loucura do amor entende o sonho que vagueia por jardins de emoções 

e uma interrogação que acende gélidos vulcões 

e explode em ondas que não são minhas mas são tuas

como se nada existisse entre os dedos colados das minhas mãos nas tuas 

e o sorriso que descobre o momento que acontece sem tempo nem medida 

que possa desvanecer a imagem de dois num só 

e num mundo que gira no sentido que nós queremos 

e toma a forma do que sentimos e renasce e cresce na absoluta certeza 

entre uma lágrima que enternece e um sorriso que consome o destino infalível 

e morro na tua boca que me inunda a alma 

e o pensamento foge de mim para ti 

numa pressa que só tu entendes 

e amo o que há em ti,
amo o que há em nós.

Irene Ermida

25/05/2011

Dêem-me...

Dêem-me um espaço
pequeno que seja
que faço dele um mar de cores...

Dêem-me um espaço
pequeno que seja
que faço dele um oceano de sons...

Mas não me dêem as cores nem os sons!

03/05/2011

Golpe(s)





são golpes de nuvens
que resistem à luz
e não sabem onde cair
e não ferem as sombras
que se desviam entre os ramos vestidos de pedra
numa súbita evasão feita de fogo e de água
são golpes de vozes que estremecem a um canto
e desfiguram os rostos ocultos que perdem a cor
soltam-se as mãos amordaçadas de palavras
e inflamam-se os olhos inertes e opacos 

são golpes que sorriem e choram
e se calam num silêncio que não dorme.



Irene Ermida

02/05/2011

Sem razões...

não as há no sol, no mar, na noite
razões... que se procuram
para enganar o tempo
e o espaço dentro de nós

um espaço metade medo metade fuga
e se mais metades houvesse
não haveria razões 
apenas invenções

Irene Ermida

05/03/2011

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Záfon

Não resisto a partilhar estes extractos deste maravilhoso livro:

«Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o seu olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte.» 

« - Aquela mulher é um vulcão à beira da erupção, com uma líbido de magma ígneo e um coração de santa - disse, derretendo-se todo. - Para estabelecer um paralelismo veraz, lembra-me a minha mulatinha lá em Havana, que era uma beata muito devota. Mas, como no fundo sou um cavalheiro dos de antigamente, não me aproveito, e com um casto beijo na face me conformei. Porque eu não tenho pressa, sabe? Há por aí pategos que acham que se puserem a mão no cu a uma mulher e ela não se queixar, já a têm no papo. Aprendizes. O coração da fêmea é um labirinto de subtilezas que desafia a mente grosseira do macho trapaceiro. Se quiser realmente possuir uma mulher, tem de pensar como ela, e a primeira coisa é conquistar-lhe a alma. O resto, o doce envoltório macio que nos faz perder o sentido e a virtude, vem por acréscimo.» 

«- Alguém disse uma vez que no momento em que paramos a pensar se gostamos de alguém, já deixamos de gostar dessa pessoa para sempre» 

«- Não sei o que me deu. Não te ofendas, mas às vezes uma pessoa sente-se mais à vontade para falar com um estranho do que com pessoas que conhece. Por que será? (...)
- Provavelmente porque um estranho nos vê como somos, e não como quer acreditar que somos.»

«(...) o destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.»


«O tempo ensinou-me a não perder as esperanças, mas a não confiar demasiado nelas. São cruéis, vaidosas, desprovidas de consciência.» 

«Bea diz que que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos.»

16/02/2011




A escrita leve de Sepúlveda flui no contexto histórico do Chile, entre o humor e a reflexão mais séria de alguns representantes de uma geração, que lutou por um ideal, conheceu o exílio e vive da memória traída. Recomendo.



«Nunca confies na memória porque está sempre do nosso lado: suaviza a atrocidade, dulcifica a amargura, põe luz onde só houve sombras. A memória tende sempre à ficção.»

A Sombra do que Fomos, de Luis Sepúlveda

13/02/2011

Estas coisas de astros...

A ciência é o suporte para a maioria do conhecimento e o meu cepticismo perante explicações rebuscadas de espiritualismos talvez até me impeça de conhecer outras explicações, mas quanto à astrologia tenho as minhas crenças! É que lendo isto, há passagens que são um autêntico espelho!

http://www.fototelas.com.pt/signo_de_caranguejo.htm

09/02/2011

Assombrada? Não!


Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...

Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...

Fernando Pessoa


Ao meu filho, pela palavra que me deste!



Não vivo assombrada por fantasmas. Assombram-me os presentes, que se movem num pântano de emoções e sensações, toldadas de descrença, de pessimismo, de desesperança, de dúvidas, de hesitações; que se lamentam eternamente pelo que foram ou viveram e escolhem continuar a deslizar na mesmice da rotina, sem um rasgo de mudança, num hábito de si próprios sem saberem o que realmente são sem os outros. Como se a sua vida dependesse de um milagre suspenso que vai acontecer a qualquer momento adiado. Que escolhem ter algo, alguém ou alguma coisa para que tudo faça sentido, um álibi para o seu crime de desperdiçar tempo e justificar a sua (in)existência no presente.
Esquecem o valor do casual, do imprevisto, do espontâneo, do momento e encolhem-se na vastidão de uma marcha cadenciada de ritmos alucinantes para não pensarem e saborearem a vida. Acordam sem sorrir e fechados ao desconhecido e ao improvável, esperando apenas que chegue de novo a noite e possam dormir, com uma insónia pelo meio, para no dia seguinte repetirem o sagrado quotidiano que os automatiza.
Quando a vida, subitamente os confronta com uma verdadeira e real tragédia que os faz tremer de verdade, há os que lamentam a oportunidade perdida e não poderem voltar atrás para fazer o que evitaram, desanimam e não vêem motivos para lutar, já que foi sempre assim; e há os que olham para trás e pensam que, afinal, até tiveram uma boa vida cheia de bons e maus momentos, e que, por isso mesmo, vale a pena lutar sempre e agarram-se à vida num combate com a natureza por vezes desigual.
Há quem espere ser feliz e há quem seja feliz por não ter esperado e ter feito as coisas acontecerem. Há quem viva conformado com o inconformismo e há quem, sempre inconformista, se sinta sereno por saber que, essa dádiva que é a vida, é um bem precioso de valor incalculável.
Há quem alimente um ideal esperando… Há quem alimente um ideal e o concretize em cada pequeno gesto, numa simples palavra, num sorriso…
Não somos todos iguais, mas cada um de nós pode desenvolver um esforço, por menor que seja, para modificar o dia-a-dia dos outros (acredito eu, apesar de, paradoxalmente, ter os meus momentos de descrença).

Irene Ermida


o que me faz olhar em frente e avançar, não é fugir do passado, mas antes torná-lo ainda mais passado e para que o presente o seja também um dia, sem a amargura de não o ter vivido!

Irene Ermida

08/02/2011

pois...

na teoria é fácil...


"Algumas pessoas desconfiam do carácter instintivo das emoções e reprimem-nas porque receiam sofrer ou mesmo perder o controlo das suas vidas, mas tentar viver à margem das nossas emoções é uma falácia: não só nos limita, como as emoções reprimidas passam ao inconsciente e são muito mais inconsoláveis nessa parte da nossa mente"

http://www.jn.pt/VivaMais/interior.aspx?content_id=1775906&page=-1

Paradoxo(s) 3

não escrevi uma letra de canção numa tarde que tardava ao fim do dia como se a noite saltasse e me afagasse numa névoa tão nítida que as estrelas suavizavam a escuridão que me prendia

não escrevi uma letra de canção que falava de amor nem de paixão mas só desse horizonte que me perpassa a cada segundo sem tempo contado nem retido na minha mão

não escrevi uma letra de canção mas podia tê-la escrito se a mão soltasse ao vento pétalas de mim e de ti sem escravidão de existir entre muros erigidos entre nós

Irene Ermida

Paradoxo(s) 2

fechei a porta que se abria sobre um mar deslizante e suave e voltei a fechá-la não a sete chaves mas a um número potenciado ao infinito para que dúvidas não restassem sobre a viagem no tempo

fechei a porta que se fechava e abria num vendaval de sombras dançando à volta da fogueira e mais não havia senão fantasmas criados e alimentados por um diabólico monstro incansável

fechei a porta mas ela abriu-se de um sopro matinal que acordava precocemente de um sono feito leito onde me aconchegava até ao limite de quem sou

Irene Ermida

Paradoxo(s) 1


acontece por vezes as memórias deixarem de ser o que pensávamos terem sido porque ela própria nos atraiçoa e inventa o deserto e o oásis que se alternam nas mágoas e alegrias que supomos querer na vida

acontece por vezes ficarmos presos no limbo do que queríamos e não tivemos e do que tivemos e não queríamos afinal ter tido porque as lembranças do gosto, do cheiro e do toque alimenta a hora

acontece não ter acontecido e querer tanto que sonhamos um passado em vez do presente que pintamos as recordações de tons coloridos para não enfrentarmos o medo de sermos hoje


Irene Ermida

03/02/2011

Frontalidade amena

Convicta, em tempos que já lá vão, comentei com um amigo: «Tenho um defeito: sou frontal». Ao que ele me respondeu, de modo igualmente convicto: «Isso é defeito?!» 

Nunca mais pensei nisso... até agora. A pergunta exclamativa e retórica do meu amigo ficou no ar, simplesmente, e continuei a ser o que me exige a natureza ser. Quis o tempo, e o que ele me tem ensinado, que essa frontalidade «frontal» fosse amenizando o radicalismo com que sempre assumi esse meu «defeito» incómodo para muita gente. Não que tenha deixado de o ser, mas porque a tolerância e a serenidade foram tomando em mim um lugar mais valorizado.

Ser razoável, mas ao mesmo tempo directa e sem subterfúgios, tem sido a balança onde tenho o meu centro de apoio. 

Vem isto a propósito de, por vezes, mesmo sendo frontal e assumindo pensamentos, emoções, sentimentos e estados de alma, torna-se difícil passar uma mensagem. Ou seja, posso dizer «quero isto ou não quero aquilo» que a interpretação pode ser sempre deturpada e verem nas minhas palavras apenas uma mera necessidade de afirmação gratuita!

Ninguém está a entender nada, pois não? Eu explico:

Quando escrevo no meu blogue «palavras» e as associo numa determinada sequência ou atribuo-lhes um objecto, isso (e digo-o frontalmente!) não quer dizer absolutamente nada!!! A minha frontalidade não passa, nem passará nunca, pelo recurso a meios indirectos. Quando digo nos olhos de alguém o que penso ou sinto, é porque penso e sinto exactamente assim! 

Quando brinco com palavras, num mero exercício técnico, faço-o pela necessidade de canalizar para o exterior «as palavras» e não os sentimentos! Sei que não é fácil ver esta equação de um prisma unilateral e quem lê, acredita que lê os meus estados de alma e não apenas palavras. Não posso obrigar ninguém a ver apenas o que está ali, à frente dos olhos: palavras! Mas também ninguém pode responsabilizar-me pelas interpretações que decidem atribuir aos meus textos.

O acto de criação está num patamar muito mais sublime do que a realidade do dia-a-dia. Ou seja, a realidade é real! A realidade das palavras é irreal. São as duas faces da mesma moeda! Pode uma pessoa não amar e escrever sobre o amor? Só respondo por mim: posso! Porque quando se ama, não se perde tempo a escrever palavras, vive-se intensamente o sentimento! 

E se querem ler nas entrelinhas do que escrevo, é fácil: há fases de maior ou menor actividade de publicações! São livres de pensar o que quiserem; eu sou livre de amar, de escrever e de dizer. (E por fim até substituí as reticências pelo ponto final para não dar azo a livres pensamentos, cuja responsabilidade não é minha.)

Permaneça-se na vida com a frontalidade necessária ao confronto connosco próprios!

Irene Ermida

30/01/2011

Sabor(es)


Desenho de Amadeu Brigas
não há derrotas nem vitórias
nem sabores amargos nem doces
só há verdades
no corpo que se desnuda
e mata vontades
na boca que devora
suores e tremores
nas mãos que deslizam
pelos contornos de um olhar
que não vê
só há um navio à deriva
náufragos que gritam
e movem a água e a terra
e resistem ao luar
sem provas a dar
e abraçam o sol
que nasce na ponta
dos teus dedos.

Irene Ermida

Breve

não explicamos a vida
ela explica-nos a nós

como somos
é o como fomos





29/01/2011

Am' o mar



Desenho de Amadeu Brigas

não sou a tua mão
não sou o destino de ninguém
há um rio ao lado que sussurra
segredos de um passado

e eu amo o mar
na extensão do presente 
que aquece o sangue
e enlouquece 

não sou o teu sorriso
e não sou o deserto de ninguém
há um leito junto a mim
que abre portas e janelas

amo o sol
derramado num agora
que pode ser um sempre
pode ser um já
sem urgência de palavras
esgotadas.

Irene Ermida

Voar



Desenho de Amadeu Brigas


não, não é a tristeza que me chama
nem a vela que queima os meus dedos
é só a vida que não se cala
num corpo que não existe
é a luta contra um nada
que geme e profana a natureza
num desejo absurdo e insano
de querer o horizonte
de pintar um céu
de soltar as amarras
e de voar.

Irene Ermida

Na palma da mão


Desenho de Amadeu Brigas


resisto ao inevitável até ao último minuto
como se do tempo dependesse a minha vontade

mas não é no olhar que estou
nem no sentido de tocar as nuvens

estou apenas
e sou sem ser quem devia
mas quem quero ser

alheia à distância de um palmo
das estrelas
e da mão que me segura.

Irene Ermida

30/12/2010

«O amor não acaba, nós é que mudamos»


«Um homem e uma mulher vivem uma intensa relação de amor, e depois de alguns anos se separam, cada um vai em busca do próprio caminho, saem do raio de visão um do outro. Que fim levou aquele sentimento? O amor realmente acaba?

O que acaba são algumas de nossas expectativas e desejos, que são subtituídos por outros no decorrer da vida. As pessoas não mudam na sua essência, mas mudam muito de sonhos, mudam de pontos de vista e de necessidades, principalmente de necessidades. O amor costuma ser amoldado à nossa carência de envolvimento afetivo, porém essa carência não é estática, ela se modifica à medida que vamos tendo novas experiências, à medida que vamos aprendendo com as dores, com os remorsos e com nossos erros todos. O amor se mantém o mesmo apenas para aqueles que se mantém os mesmos.

Se nada muda dentro de você, o amor que você sente, ou que você sofre, também não muda. Amores eternos só existem para dois grupos de pessoas. O primeiro é formado por aqueles que se recusam a experimentar a vida, para aqueles que não querem investigar mais nada sobre si mesmo, estão contentes com o que estabeleceram como verdade numa determinada época e seguem com esta verdade até os 120 anos. O outro grupo é o dos sortudos: aqueles que amam alguém, e mesmo tendo evoluído com o tempo, descobrem que o parceiro também evoluiu, e essa evolução se deu com a mesma intensidade e seguiu na mesma direção. Sendo assim, conseguem renovar o amor, pois a renovação particular de cada um foi tão parecida que não gerou conflito.

O amor não acaba. O amor apenas sai do centro das nossas atenções. O tempo desenvolve nossas defesas, nos oferece outras possibilidades e a gente avança porque é da natureza humana avançar. Não é o sentimento que se esgota, somos nós que ficamos esgotados de sofrer, ou esgotados de esperar, ou esgotados da mesmice. Paixão termina, amor não. Amor é aquilo que a gente deixa ocupar todos os nossos espaços, enquanto for bem-vindo, e que transferimos para o quartinho dos fundos quando não funciona mais, mas que nunca expulsamos definitivamente de casa.»


Martha Medeiros

Eduardo Agualusa


O penúltimo livro lido, uma compilação de crónicas do escritor angolano Eduardo Agualusa, veio reforçar o meu gosto e preferência pela literatura africana. Há um misterioso dom numa escrita tão transparente e, ao mesmo tempo, tão intensa!


«Uma segunda oportunidade»
«Li recentemente, num jornal brasileiro, a história de um homem que foi atingido por um raio durante uma tempestade tropical. um médico que passava pelo local socorreu-o. Verificando que não era capaz de o reanimar (o infeliz sofrera paragem cardíaca), afastou-se para pedir ajuda. Nesse momento o homem foi atingido por um segundo raio, e com isso, espamosamente, recuperou a consciência. Morto por um raio, ressuscitado por outro, aquele homem está certamente convencido que Deus lhe deu uma segunda oportunidade.
Lembro-me disto a propósito do amor. Pode haver, no amor, uma segunda oportunidade?»

A Substância do Amor e Outras Crónicas, pág. 169

29/12/2010

Um óptimo 2011!

Quem é que já anda a pensar nas promessas para 2011?!

Eu já decidi: vou continuar a ser eu mesma, acordar e pensar no dia que tenho pela frente, ser optimista e inconformada, realista e sonhadora, surpreendente e desconcertante, a preocupar-me com quem gosto e ajudar no que for possível! E, sobretudo, muita saúde para mim, para os meus e para todos os meus amigos e amigas!

«A rapariga que roubava livros»

Uma narrativa magnífica que nos surpreende ao ser contada pela Morte mas que nos seduz palavra a palavra, linha a linha, página a página, até perdermos a noção do tempo e encontrarmos um espaço longínquo, mas tão perto, numa deliciosa doçura do ser humano, numa tragédia da humanidade que nos faz pensar e relativizar o sofrimento!
Escusado será dizer que foi uma das melhores leituras até hoje!

28/12/2010

Podia ser uma crónica...


Aconselhada a organizar-me mentalmente, abro a página e solto as palavras para este espaço em branco, pois, até hoje, não descobri ainda outro meio mais eficaz para tentar colocar algumas peças, não no seu devido lugar (porque nunca estarão!), mas no lugar onde agora têm de estar. E quando digo agora, é agora mesmo! Daqui a uns minutos se a minha respiração deixar de funcionar, aqui ficarão neste «lugar» e nunca se saberá se terão ficado onde deveriam, porque tudo está em permanente mutação, ou se, pelo contrário, deveriam estar todas às avessas numa miscelânea indecifrável e misteriosa e se tal situação me poderia proporcionar outros rumos e outros clarões

À medida que a experiência e o conhecimento se vão somando a um todo, é mais que provável que ele se desintegre em dúvidas e perplexidades (ele, o «todo»!). Isto, porque quando achamos que a quantidade de vivências nos dará mais certezas de que o caminho não é aquele, vem sempre um pormenor estragar tudo e derrubar as convicções que demorámos tanto a construir, tal como aqueles legos empilhados, e desempilhados logo a seguir, pelas mãos de uma criança no tempo em que as teclas não eram a sua ferramenta predilecta!

Vem a propósito este fluxo de vocábulos da necessidade de evacuar as ideias engelhadas em pregas, no rosto de uma idosa arruinada pelos anos, pela doença e pelos desgostos, sobrepostos em rugas que nem uma cirurgia plástica seria capaz de disfarçar, o que também não está em questão, porque, por mais lisa que esteja a pele, as cicatrizes estão na profundidade do seu âmago e nenhuma técnica poderá reparar.

Poderia e deveria concluir por aqui, mas sinto que as palavras que aí vêm ainda poderão rasgar algumas intenções e colar fantasias, de modo que o esforço de sanar (ou sarar?!) as gelhas da roupagem de inverno, não seja em vão! E que inverno! E não me refiro propriamente aos elementos da natureza que têm sempre o seu efeito negativo na auto-estima e confiança do ser humano, durante os meses em que o sol descansa da sua labuta de verão! 

É um inverno vacilante, que quer ser ousado, mas apesar da constante procura, não encontra o ponto de apoio para colocar o calcanhar, ou pelo menos um dos dedos do pé, nem que seja o quinto e mais pequeno em proporção. Esta ausência de fundamento prende-se directamente com a surpresa inevitável com que algumas vicissitudes teimam em nos confundir. 

Não que esteja confusa, nem vacilante... pois, afinal... há uma certeza proverbial que ordena que todos os caminhos vão dar a Roma, o que implica uma fatalidade, vá por que caminho for! 


Irene Ermida
(num momento que foi este, mas podia ter sido outro!)

22/12/2010

Sem medo de perder




"Chega o final de ano e a gente se projeta para o futuro de uma forma um pouco vacilante: por um lado, nosso espírito está voltado para a renovação, para investir em projetos inéditos, para sonhar alto e combater nossas carências. É como se pudéssemos, de um dia para o outro, zerar o que foi realizado e nascer de novo.

Por outro lado, temos dificuldade em dar essa zerada, porque isso significaria abrir mão de algumas coisas que foram vividas, e ninguém quer trocar uma coisa por outra, e sim acumular. O ideal seria o novo ano nos receber de portas escancaradas para que passássemos com toda nossa bagagem.

Porém, a porta não é tão escancarada assim. Não dá pra trazer tudo com você. Principalmente se você está assim tão repleto de desejos novos. Para que possamos receber o novo, é preciso deixar pra trás desejos antigos. Isso não significa que a gente não deva guardar boas lembranças, mas não dá pra se agarrar a isso como a uma âncora. A gente só pensa em ganhar, mas é preciso aprender a perder.

Foi lendo uma crônica do Contardo Calligaris, de dezembro de 2005, que me deu o estalo: como é que vou abrir espaço para novos acontecimentos e emoções na minha vida se não consigo me despedir do ano passado, do tempo passado ?

Adeus ano velho. Foi ótimo, foi péssimo, foi fácil, foi difícil, me dei bem, me machuquei, teve de tudo. As coisas boas naturalmente vão se acomodar na minha mochila e vir comigo, mas e tudo aquilo que não cabe mais na minha vida ? Faço o que com o excesso de peso ?

Algumas pessoas desejam uma nova perspectiva profissional, mas, em vez de um basta para o trabalho que já não serve, se arrastam mais um pouco e os prognósticos de novidade não se cumprem. Há os que querem parar de fumar, parar de engordar, parar de beber, mas para tudo isso terão que abrir mão de algo difícil de abandonar: o prazer que certos maus hábitos proporcionam.

E tem aquele assuntinho onipresente, as relações amorosas. A gente já não vê mais graça em sofrer, não quer se acostumar com a dor, com as repetições, com a aridez do coração, mas como virar a página depois de tudo o que foi investido, de tanta tentativa, de tanto sentimento que não foi inventado, mas que existiu de fato ? Para responder a essa questão, volto (e voltarei sempre) a uma frase do Norman Mailer: "As pessoas procuram o amor como solução para seus problemas, quando o amor é a recompensa por você ter resolvido seus problemas."

E emendo com uma citação que complementa a anterior. Do Calligaris, claro, guru e inspirador desta crônica: "Meus votos para todos: um ano novo sem medo de perder."

Martha Medeiros


Obrigada prima por teres partilhado este texto comigo! Longe, mas sempre perto!

10/12/2010

«O amor fino não busca causa nem fruto. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e amor fino não há-de ter porquê nem para quê. Se amo, porque me amam, é obrigação, faço o que devo: se amo, para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há-de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo; amo, ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido. quem ama, para que o amem, é interesseiro: quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, só esse é fino.»


Padre António Vieira

09/12/2010



«Difícil não é lutar por aquilo que se quer e sim desistir daquilo que mais se ama; eu desisti mas não pense que foi por não ter coragem de lutar e sim por não ter mais condições de sofrer.»

Bob Marley

E acrescento: não dormimos com a consciência dos outros, mas com a nossa!

«Nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo para vencer é tentar mais uma vez.»

Thomas Edison

E acrescento: afinal quem terá razão?!

08/12/2010

X



sentia-se um ponto distante no camarote de um navio que cruzava os oceanos num rodopio contínuo diferia da maioria e não encaixava em padrões comummente aceites na tela de fingimentos por onde desfilavam figuras acomodadas ao bom senso e tacticamente colocados no tabuleiro de um xadrez sem regras observava no cimo do mastro marinheiros sem rumo convencidos de que moviam o mundo como uma alavanca move a pedra que esmaga a espontaneidade do sentir e do pensar sem análises saturadas de raciocínios lógicos e sim estava sozinha na imensidão de um universo que não lhe dizia respeito porque nascera fora de época não sentia orgulho nem a originalidade que lhe apontavam nem sentia somente.


Irene Ermida
Aconselho a leitura integral!

ÉS UM NOJO DE UM VAIDOSO, SABIAS?

por PEDRO CHAGAS FREITAS 

«(...)Isto é um país de mariconços. De famílias de fachada, de casamentos de fachada, de bondades e misericórdias e solidariedades de fachada. Isto é um país de fachada e de fachos. Isto é um país de mariconços como isto é um mundo de mariconços. Um mundo onde o capital passou a ser capital, onde a pessoa passou a ser estatística, onde o dinheiro passou a ser lei, onde se está em crise porque meia dúzia de mariconços, invejosos como todos os mariconços, dominam todos os outros mariconços do mundo. E poderia escrever muito e muito mais sobre esta nojice dos mariconços e de tudo o que isso representa. Mas, infelizmente, tenho de parar por aqui. Hoje é a festa de anos da minha afilhada. E eu ainda tenho de ir comprar um fato novo, uns óculos de sol e um creme autobronzeador. Tchau aí.»


http://www.facebook.com/notes/pedro-chagas-freitas/es-um-nojo-de-um-vaidoso-sabias/468414831748

Samsara


Não vi, mas não vou descansar enquanto não vir este filme !!!

Mais acerca do termo «Samsara»: http://pt.wikipedia.org/wiki/Samsara 

A vida é feita de ciclos: é preciso morrer para renascer!

L'Amant



Devora-se o livro, saboreamos o filme!

IX


voltava a acreditar que um dia não são dias e que devia acelerar a fundo na próxima passagem de nível mesmo correndo o risco de ser estilhaçada por um comboio de palavras e de gestos inúteis mas porém e apesar de travou a fundo no sinal sonoro emitido por uma consciência asceta que insistia em levá-la pelos trilhos da loucura que mais não era o medo de se fraccionar em páginas de mais um capítulo de um livro que nunca terá escrito sem linhas nem traços nítidos numa simbologia de alquimias emblemática de ser o que não foi ou o que poderia ter sido.

Irene Ermida

05/12/2010

VIII



avança a passos esforçados e lentos como se ao coração tivesse acorrentada uma bola gigante que impede a circulação do sangue de vermelho já desbotado pelo uso diário de sabão na esperança de limpar memórias insolúveis e boas e más que habitam nos cantos para onde varreu os desejos e as histórias que a tornam vazia da certeza absoluta de verdades e de mentiras indecifráveis pintadas num mural de manchas indistinguíveis e de linhas cruzadas e paralelas entre risos e sorrisos e na ausência de lágrimas que se evaporaram nas nuvens e chovem no mar.

Irene Ermida

02/12/2010

Algemada


«O pior cárcere não é o que aprisiona o corpo, mas o que asfixia a mente e algema a emoção.»


Augusto Cury in Os Segredos do Pai-Nosso, A Solidão de Deus



Desenho de Amadeu Brigas

abotoo o sonho e penduro-o num qualquer armário
perdido na imensidão de peças usadas e gastas

sem fechadura
sem abertura

esquecido entre memórias que foram
e outras que não chegaram a ser

como se arruma a vontade de beijar?
como se rasgam as palavras por dizer?

uma lágrima que não corre, espera o momento que já passou 
e secou...

arrumo o grito abafado
num cabide ao lado do sonho

sem abertura
sem fechadura!

Irene Ermida


30/11/2010


Não existe tempo de reencontros quando a amizade é intemporal !!!
Dezasseis anos depois, como constatámos, retomámos a conversa e os risos !
A vida pode ser tão simples afinal!

20/11/2010

The Corrs & Bono - When the Stars Go Blue (Live 8)


Porque há pessoas e momentos inesquecíveis!!!

11/11/2010

VII



a mão desliza na revolta dos cabelos negros e pára no vazio do olhar distante sublime pérola da indiferença camuflada de verdades escondidas nas pregas da pele que acusam desgostos tingidos de gemidos não ditos e fortunas que o destino lhe ofereceu para amenizar as calosidades da vida que mais não fizeram que fortalecer a vontade e engrandecer os sonhos desviados do percurso traçado e nunca percorrido porque ao lado estavam outros (des)caminhos mais vivos e empolgantes tornados realidades inadiáveis e urgentes na esperança de alterar rotas vincadas nas cartas que nunca saíram das mãos de uma cartomante conhecida nos arredores de uma cidade imaginária e que levaram os mistérios para o centro da terra de onde nunca mais voltaram.

Irene Ermida

02/11/2010


«É mais sensual uma mulher vestida do que uma mulher despida. 

A sensualidade é o intervalo entre a luva e o começo da manga.»


António Lobo Antunes


Já não há homens como antigamente! Afinal a tradição já não é o que era!



«O mundo é de quem não sente. A condição essencial para se ser um homem prático é a ausência de sensibilidade» 

(homem ou mulher...)

Fernando Pessoa

25/10/2010

Inversão de percurso

 

«Sim, seria fascinante envelhecer ao teu lado. Mas, ainda assim, prefiro rejuvenescer ao lado de outra.»

Pedro Chagas Freitas


O que era, deixou de ser, se é que alguma vez o foi. Tudo estava em causa agora. Olhava-a mas já não via o brilho nem a graciosidade de outrora. Acordava a seu lado diariamente há anos e, de um momento para o outro, não encontrava nenhuma razão para isso. Sentia-se vazio. Faltava alguma coisa. 

No seu grupo de amigos, ouvira falar da rotina e do desgaste das relações, do tédio e do desmazelo, da falta de amor e de paixão... mas sempre pensou que isso lhe passava ao lado. Eram banalidades. Estava bem com a família que tinha. Tudo estava no lugar certo. Não havia problemas, nem discussões. Tudo se passava segundo a ordem natural das coisas. Tinham os seus dias piores mas tudo passava.

E agora... de repente, sentia-se oco de sensações e sentia falta. De quê? De tudo! E não sabia como lidar com isso. Eram sensações e anseios contraditórios que o punham mal-disposto, resmungão, impaciente. É verdade que havia falta de atenção e afecto mútuo, mas compreendia as razões, pois, não só os filhos, mas  também agora os pais de ambos, exigiam tempo e disponibilidade.

Queria falar-lhe de si, dos seus anseios e ansiedades, dos seus objectivos e frustrações... mas como? Não era só a falta de tempo, mas antes a barreira que se interpôs entre eles. Nada tinham a dizer um ao outro. Era como se o muro de Berlim tivesse mudado de sítio... via o que se passava do outro lado da fronteira, mas não podia agir. 

Não, não queria pensar e esforçava-se por acreditar que tudo estava bem, porém, a inquietação aumentava de dia para dia. Tentou surpreendê-la de várias maneiras para se convencer a ele próprio de que era preciso fazer alguma coisa. Mas cada gesto ou acção distanciava-o cada vez mais de si próprio. Já não sabia quem era. Sim, era um actor a desempenhar o seu papel na perfeição.

Adormecia na expectativa de acordar no dia seguinte num cenário diferente. (...)





24/10/2010

O Verdadeiro Gesto de Amor


«Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência. »

Fernando Namora, in 'Jornal sem Data'









Fonte: www.citador.pt

20/10/2010




Os muros existem por um motivo. 
Dão-nos a oportunidade de mostrarmos até que ponto desejamos alguma coisa. 

(Randy Pausch)

18/10/2010

VI



um relógio que não marca o tempo esquecido entre milhares de sombras indistintas como se um arco-íris gritasse de dor entre os ramos entrelaçados de uma qualquer árvore erguida no fundo de uma avenida deserta de gente e de palavras enquanto o mundo gira e se descobrem novas galáxias para onde voam pensamentos e desejos inoportunos clandestinos  pérfidos que não engolem mentiras nem verdades porque a verdadeira razão não existe nem o universo nem o rosto que surge nos meus olhos.

V



apago as luzes e cerro as janelas numa escuridão cega e muda em que se funde um azul etéreo e o silêncio degolado por soluços e lágrimas diz que já é tarde para lamentações e queixumes de nada vale atrasar o passo perante a voracidade das emoções que agonizam de tanto ardor mas vem a chuva e a lua anoitece tão determinada que parece uma criança adormecida num canto de uma rua qualquer só porque tem sono e não precisa de mais nada nem ninguém se importa com ela assim indefesa mas livre.

11/10/2010

Edgar Morin : "Les crises génèrent des forces créatrices"

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«Toute crise porte en elle un risque et une chance, affirme le sociologue et philosophe. Le risque, vraisemblable, de voir le marasme s’amplifier. La chance, peut-être, de nous réinventer pour construire un avenir meilleur. Son nouveau livre, La Voie, est une invitation à réveiller l’espoir, la fraternité, l’amour.»

http://www.psychologies.com/Planete/Societe/Articles-et-Dossiers/5-raisons-de-croire-en-l-avenir/Edgar-Morin-Les-crises-generent-des-forces-creatrices
...

(«As crises geram forças criativas»

Qualquer crise comporta em si um risco e uma oportunidade... O risco, verosímil, de ver o marasmo ampliar-se. A oportunidade, talvez, de nos reinventarmos para construir um futuro melhor.)

10/10/2010

IV

sem ponto de referência e numa espécie de espiral absorvo cheiros que me elevam num rodopio em que me enrosco e de onde não quero sair num vácuo deformado pela límpida tensão de cavidades impossíveis impressas em cada ruga de um rosto incompreensível em cada instante em cada nervura mordo a luz que me há-de perder sobre folhas de outono que perdem a dimensão de tão irreais que são amontoadas numa caverna tortuosa de desejos sem proporção porque não mensuráveis por homens nem deuses como nos tempos do nada.

Irene Ermida