29/03/2007

da vida 3

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definitivamente o verde emoldura a tela
e papoilas adormecem
e contrastes
que se desfazem
que se renovam
que se enaltecem
sem cinzentos de nuvens e de águas
com azuis brandos de amor
de morenos que sabes ter
nas mãos revelas
palavras
sólidas de dúvidas
de momentos incertos
de inconstante firmeza
aqui e ali
na direcção indicada
de sons surdos
sorrisos
desenhados nas curvas dos teus lábios
sem marasmos recônditos
extenuados
numa simplicidade por si


26/03/2007

da vida 2

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da vida e do tempo que se perde
em minutos de sofreguidão
rumo a incertezas que se inventam
és certeza em mim
convictamente acordada
de temores e distâncias
que se encurtam
de tão perto que te ouço
respirar
submetida por palavras
escondidas
em gestos reprimidos
de ternuras desejadas
regresso
daí onde adormeces
adiada por excessos de dias
espero
porque quero e porque sei
essa espera
de pétalas feita

20/03/2007

Insólitos (3)

Porque nem só de coisas sérias "vive" este blogue...

Muita imaginação!!! Até no pormenor do preço!

Em que estaria a pensar o(a) autor(a) desta frase?!

18/03/2007

da vida 1

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limpa
quero ser
e
imagino um bosque
atrofiado de fantasmas
entrelaçados
nos ramos das árvores
agitadas
por ventos quentes

numa solidão de loucuras
de sintomas
de indícios
assisto à serenidade do regresso
na beleza da história
leio os vazios
crescentes de ânsias e de versos
resisto aos encantos obscuros
de sóis pungentes
e transfigurada
persisto na saudade do efémero

Insólito(s) 2

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Visitei o blog 'troca de olhares' e deparei-me
com uma citação (que não conhecia) de António Lobo Antunes:

«Esquecer uma mulher inteligente
custa um número incalculável de mulheres estúpidas.»

Fiquei a pensar com os meus botões se,
em vez de «mulher» estivesse «homem»,
os termos da oposição dicotómica inteligente / estúpido
seriam os mesmos...
Talvez seja assunto para reflectir, ou será que não?
Afinal, o que faz uma mulher não esquecer um homem?!

17/03/2007

Projecção 3

 porque nunca há porquês


Foto: http://www.photoforum.ru/
projecto olhares
longe do pensamento
indefinido

ali me sento
esquecida
de trapos e de ideias

da tua voz
em contrastes de sons
espartilho as palavras
que ditas em gestos
é por aqui
ou por além
desvio-me
da metáfora que és
e encerro-te
numa hipérbole de sonhos


Projecção 2




Foto: http://www.1000imagens.com/

dissolves-te
na minha mão trémula
que embala o vento

a tua imagem distorcida
celebra-se no espelho

- sem lágrimas -

descompassada
deslizo os dedos
e desenho-te no meu corpo

no hálito quente da noite
adormeço

Projecção 1




Foto: http://www.1000imagens.com/
em sombras esbatida
inclino-me
e vejo-me
suspensa nos teus olhos

sou ténue projecção
nas águas estáticas do rio
desagregada em areias

recolho-te nos meus lábios
o tempo recua
e o futuro
foge desse instante
despenho-me
numa esperança teimosa
e num doce sorriso
espero-te

Dança contemporânea

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"Daqui em diante" pela Companhia Olga Roriz

Um espectáculo inolvidável! Mas estou na minha fase anti-cultura! Saí no intervalo (eu e uns tantos outros). Não fiquei bem na «fotografia» mas a idade tem destas vantagens: já não se liga a isso!
A selecção musical é óptima e o cenário, essencialmente minimalista, é sugestivo. A luz e o som ajudam... Os figurinos insinuantes, versáteis, humanos...
De dança contemporânea... gosto muito!
Mas a fase dos absurdos já lá vai! Os meus já são suficientes!
A noite acabou por ser salva numa animada e divertida conversa de café ao sabor duma caipirosca! Valha-nos isso!

14/03/2007

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(Des)articulação 3

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no ponto desarticulado
desci pelo íngreme firmamento
oblíqua de vazios

arada de incursões
caminhei
perpendicular a mim própria

desprovida de ódios
cultivei afectos
distantes do tacto

e sucumbi à sedução
sem medos à porta

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(Des)articulação 2

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http://pt.trekearth.com/gallery/Asia/Japan/photo396897.htm


e num passo desarticulado de ritmo
determinei o meu compasso
de vida

avancei na impossibilidade
de cair

privada de visão límpida
adiei uma invisual certeza
e voei na escrita
e encontrei-me

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(Des)articulação 1

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um inconcebível desígnio
cruzou serenidades e desassossegos
e
numa indomável tempestade
arranquei punhais de pedra
que feriam gestos e olhares

uma insípida indiferença irrompeu
ao virar da esquina

escoei-me em movimentos
e
desarticulei-me em sons

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Segunda descida à Terra


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No post « Descer à Terra» de 2 de Novembro de 2006, escrevi: «sempre atenta ao sinal sonoro que anunciava o número de chamada e o respectivo balcão de atendimento. Cerca de uma hora depois, lá consegui vislumbrar o meu número no écran de uma das televisões colocadas a dois metros e tal do chão, o que constitui um verdadeiro teste à visão e ficamos sempre a pensar que a nossa miopia se agravou e que vamos usufruir das vantagens da idade naquela óptica dos anúncios televisivos...»


Ontem, uma nova deslocação aos mesmos serviços e, quando procurava a informação do número e respectivo balcão de atendimento, deparei-me com os écrans desligados, ali moribundos...
E porque, por vezes, me apetece ser estúpida, pedi ao funcionário a informação: «tem que aguardar a sua vez e ver quando aparece ali no plasma». Ah! «Plasma» é a palavra secreta!

Esta eficiência provocou-me um arrepio. Olhei à volta e ali estavam eles: dois plasmas colocados estrategicamente, apresentando, do lado esquerdo, uma pequena imagem muda do jornal televisivo e, do lado direito, o número e o balcão de atendimento em letras suficientemente grandes para uma visão mais míope.

Os anteriores aparelhos jaziam ali, estáticos e obsoletos, a dois metros e tal do chão.
Fiquei contente pela opção de ver os meus impostos assim aplicados !!!

13/03/2007

Rotação (1)

http://www.photoforum.ru/photo/163798/index.en.html


O despertador avisa que são sete e quarenta e cinco minutos. Embora a vontade seja adormecer novamente, levanto-me!
Adivinho uma longa jornada, mas nem imagino quanto!!!

Oito e meia da noite, entro em casa. De rastos!
Ligo para alguém por uma questão profissional e acabo por receber uma péssima notícia!
Há dias assim...
Encho a banheira, acendo umas velas, mergulho na água morna e fecho os olhos. Desfaleço!
E choro...

11/03/2007

Insólito(s) 1

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Foto: http://pt.trekearth.com/


Um instante insólito, enquanto caminhava ontem ao longo da praia, sucedeu-me inesperadamente.
Dedicava-me ao meu exercício de desentorpecimento do corpo e do espírito quando, repentinamente, me senti «uma ilha»!
Havia o mar, o sol, as pessoas mas, como uma ficha desligada da corrente, experimentei uma sensação de que tudo à minha volta era um imenso absurdo!
E pensei: se me evaporasse agora, tudo continuaria exactamente igual por milhares de anos!
Afinal, o que marca a diferença?!

Charmaine Neville Band

Com Charmaine Neville (voz), Amasa Miller (teclados), Jefferey Cardarelli (baixo), Gerald French (bateria)

Charmaine Neville Band é certamente uma das melhores formações saídas de Nova Orleães. Liderada a nível instrumental pelo veterano teclista Amasa Miller e pelo saxofonista Reggie Houston, que tocou com Fats Domino, a banda tem como vocalista Charmaine Neville, filha de um dos mais aclamados elementos dos Neville Brothers. Misturando com sabedoria os sons lendários de Nova Orleães, a Charmaine Neville Band junta ao blues, o R&B, o jazz e o funky.

Um espectáculo diferente... uma mistura de ritmos interpretada por uma Charmaine enérgica que transmite em palco uma presença contagiante, como se estivesse possuída de espíritos ancestrais criadores de sons primitivos.

08/03/2007

Terá razão?!

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Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática.
O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores.

O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor.
É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz.
É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber.

O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade.

É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra.

A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.
O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.
A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.

Miguel Esteves Cardoso

Porquê o dia 8 de Março

07/03/2007

Imersão 3

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trasladada

numa imersão de saudade

rio e choro

sumersa pelas camadas ermas

de tintas púrpuras

num imergir repentino

que naufraga

desalentos e paradoxos

ininterruptos

de formas e de cores

Imersão 2

imergente

nas águas profundas e revoltas

hesito

na cadeia de corais

sem astrolábio

sem bússola

forrada de estilhaços salinos

flutuo

por oceanos esquecidos

perdidos achados

ocultos expostos

à deriva em mim

até ti

05/03/2007

Imersão 1

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La Columna rota, Frida Kahlo
1944


imersa no errar da denúncia

concedo-me cogitações vagabundas

placebo da dor

distancia-se do agora

e o nunca regurgita

de tanto amar


04/03/2007

E o Melhor Filme é...



Martin Scorsese é, por si só, um nome que me impele a sentar-me na cadeira confortável do cinema...

Taxi Driver (1976), me impressionou e, desde aí, tento ver todos os seus filmes, embora me tenham escapado alguns, por um ou outro motivo, ao longo destas décadas .
Ao vencer o Oscar para o melhor filme com Entre Inimigos, Scorsese vê reconhecido o seu talento, perseverança e trabalho, que o público já há muito lhe reconhecera ao brindá-lo com grandes audiências.
A escolha dos actores contribuiu em grande parte para a qualidade do filme e, na minha opinião, Jack Nicholson teve uma das melhores interpretações da sua carreira.
Este remake do primeiro filme da trilogia de Hong Kong Infernal Affairs, apresenta as teias da luta entre os bons e os maus que, a dada altura do filme, se confundem em torno do objectivo comum que perseguem, pois, afinal, «Polícias ou criminosos. Quando enfrentas uma arma carregada qual é a diferença?»
A violência é dominante no filme e, como qualquer filme americano deste género, a palavra "fuckin" é uma constante... (Sempre me fez muita confusão esta reincidência de registo...!)
Gostei do filme. Confesso que Scorsese me fascinou mais com Taxi Driver ou Nova Iorque Fora de Horas, por exemplo. Mas, ainda bem para o realizador, que a Academia se lembrou dele ainda vivo.

Mais informações no
site oficial.


Silêncio(s) 3

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privada de palavras
retenho pensamentos
numa omissão de sons e de ruídos

uma abstenção de afirmações
paralisa-me a memória
que erra por destinos ocultos

um ócio inerte
anula o bulício
e interrompe o curso do tempo