27/11/2007

Recessão (3)

Rasgo lágrimas de papel
de invernos distantes
retidas no lastro da lareira
consumida pelo tempo
recuo por trilhos de serenos olhares
que me afagam os cabelos
eivados de ternuras avoengas
e pinto mãos enrugadas e calosas
nas paredes de casas fantasmas
percebo sorrisos remotos
que embalam sonhos e premonições

20/11/2007

Recessão (2)

e criança brinco
com palavras perdidas
da infância extraviada
no tempo devorado
por idades remotas
sem rugas sem gelhas
que atenuam a cor
e a dor aparente
dos anos implacáveis
desperto em nevoeiros
e elevo-me na atmosfera
condensada de raízes
sem sementes nem embriões
suprimida por impotência
da natureza e da matéria

11/11/2007

Recessão (1)

sem esquadria desenho fusos horários
que me transportam tímida
por décadas, séculos, milénios
sem causalidade aparente
viajo à velocidade da luz
e mergulho em tempos remotos
de fantasias medievais
ou de festins romanos
recuo a épocas de grutas
e descubro o fogo hipnótico
que me devora numa combustão
interminável
e desfaleço em labaredas
e converto-me em cinzas

04/11/2007

Tempo de pintura...

Mais por curiosidade do que por preferência lá me decidi a ir espreitar a exposição de Salvador Dali, no Palácio do Freixo, na véspera do último dia.
Cheguei tarde e aguentei o frio que caiu após um dia de sol que se recolheu sem avisar.
Enquanto esperava na fila, pude observar o movimento das pessoas que se deslocavam lentamente e aos soluços, percorrendo o perímetro do átrio dessa bela casa, um exemplar magnífico da arquitectura solarenga portuense, que remonta ao século XVIII, em estilo barroco, da autoria de Nicolau Nasoni. Tentei, para me distrair e divertir, mudar o rumo da fila que seguia atrás de mim, dando uns passos mais à direita. Pouco consegui, mas confesso que não me esforcei muito.
Já lá dentro, pude apreciar o calor que aquelas paredes ofereciam aos visitantes, além dos interiores ricamente revestidos.
Não me seduziram as sequências de litografias ("Bíblia Sagrada", "Gargantua e Pantagruel" e "Fausto"), exceptuando uma ou outra. O mesmo não posso dizer das esculturas que, até ao momento, nunca tinha tido oportunidade de ver. Fixei em especial "Mulher Nua Subindo a Escada" que me atraiu pela simplicidade de formas e pelo movimento de ascensão que expressa.


Registei a inabilidade dos visitantes que observavam as obras expostas a vinte centímetros de distância, como se as fossem devorar a qualquer instante e impediam a visão sequencial e global da obra. Enfim...opções (?!)

Foto: http://jpn.icicom.up.pt/

Tempo de cinema...

Vi «Elizabeth - The Golden Age», um filme alheado de factos históricos enfadonhos. A personagem, interpretada por Cate Blanchett, revela uma rainha dotada de força e de coragem, que menospreza a sua condição de mulher para dar lugar à sua figura de estado, amada pelo povo, e condenada à solidão do poder.




Elizabeth The Golden Age