26/01/2010

Filme «O dia da saia»


Um filme intenso que retrata o meio escolar da sociedade francesa multi-cultural e multi-racial. Uma história que põe a nu, por um lado, a fragilidade de uma professora exposta diariamente a uma tensão desmedida e à qual acaba por sucumbir e, por outro, à indisciplina dos alunos e a tolerância com que é tratada, tudo em nome dos direitos humanos de alguns. Um complexo retrato de uma sociedade sem determinação e sem força, que pode ser qualquer uma!
Uma interpretação de Isabelle Adjani que ficará memorável na sua carreira.

24/01/2010

Inorgânica








inorgânica e homogénea
passou a vida sem chorar
por quem, não sabe
nem porquê

dura e inerte
passou pela vida sem a sonhar

e amorfa permaneceu
nos bastidores de si
sem se pensar

Irene Ermida

21/01/2010

(in)temporal




Foto: João Prates


e havia vento
que agitava as nuvens de vidro
num espelho esférico

e havia a dimensão
que lhe dava os meus olhos
à escala da intensidade e da cor da luz
branca e cálida, liquefeita e visível

e não havia trovões
nem orvalhos
nem rajadas
havia deuses e demónios
de mãos dadas!

Irene Ermida

19/01/2010

Pela comunicação

.

"Rapport é a capacidade de entrar no mundo de alguém, fazê-lo sentir que você o entende e que vocês têm um forte laço em comum. É a capacidade de ir totalmente do seu mapa do mundo para o mapa do mundo dele. É a essência da comunicação bem-sucedida."


Anthony Robbins

À primeira vista parece tão simples e fácil. Mas esta capacidade de percorrer com o outro (que abrange todos os tipos de relacionamento: familiar, de amizade, de amor, profissional, social) os mesmos caminhos das emoções, dos sentimentos, dos pensamentos, exige uma forte resistência mas, se a atitude não for recíproca, chegamos a um ponto em que a nossa energia se esvai e precisamos de tempo para a recuperar. Ha pessoas que se auto-regeneram porque têm uma força infinita para manter-se em constante aprendizagem. Não pressupõem que já atingiram o ponto ideal; pelo contrário, mantêm a abertura de mente e de coração necessária ao seu restabelecimento e até, renascimento.
Há momentos em que esta atitude perante a vida se torna esgotante, pois, a procura e as solicitações ultrapassam os limites que, também essas pessoas, têm. Obviamente, que ninguém é imprescindível. E nem esses seres dotados de uma comunicação peculiar o são. E também eles necessitam de ter ao seu lado, alguém que alimente as suas necessidades de exploração dos seus «mapas» interiores e os desafiem rumo a novos destinos, por percursos ainda desconhecidos.
É uma procura incessante de algo para além fronteiras e vão deixando pelo caminho marcas inolvidáveis e sólidas que fortalecem para sempre quem as recebeu.
Nunca estão sozinhos, porque estão sempre consigo próprios e a solidão é a recompensa de se terem dado aos outros. Esta espécie de «levitação» preenche os espaços vazios com recordações e lembranças do que fizeram de bem e ajudam a suportar e a entender o que fizeram de mal.
Sempre a um ritmo diferente dos outros, incompreendidos e misteriosos, avançam devagar, porque sabem que o tempo não existe. ´
Plagiando um amigo meu: Não há relações significativas; o que há são pessoas significativas!

11/01/2010

Tremor(es) 3

aturdida, oscilo
na penumbra do amanhã
que chega ainda hoje

no cais de embarque
não parto sem ti
e entrego-me ao tempo
e dele depende a saída
de voltar a ser
inquebrantável no propósito
de, pela última vez,
adormecer sem sonhar
com águas salgadas revoltas
e acordar num beijo
temperado de paixão.


Irene Ermida

Tremor(es) 2

é um receio na sombra
que me estremece o sentir
e sustenta uma voz secreta

e viro do avesso
o momento do olhar
colado no meu pensamento

reavivada na tua presença
afago a memória
com um sorriso generoso
e abraço a luz
com uma força firme
para nunca mais a ver fugir
entre os fios da saudade


Irene Ermida

Tremor(es) 1

e assim trémula de palavras,
entre reticências eternas
sorvo as gotas que deslizam na tua voz

ausento-me do meu corpo
e parto numa viagem sem fim
por estradas amplas de sentidos

e toco nas nuvens com os dedos
puxando-as levemente para mim
num aconchego de minutos

solto-as num ímpeto,
e deixo-as voar ao vento,
céleres,eufóricas e saciadas
penetram os poros da minha pele
e alimentam a sede do porvir!


Irene Ermida
Vale a pena ver o filme da minha amiga Lena!!!

http://mhfg1.wordpress.com/2010/01/10/let-it-snow/

10/01/2010

Neva... e neva...


Balada da neve




Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

05/01/2010

A rever...





Closer - Perto Demais

O destino (?) dá voltas ao próprio destino e gera histórias que se cruzam num círculo fechado entre quatro personagens que se amam, que se traem a si mesmas num labirinto sem saída.

03/01/2010

Leituras...



«É curioso que as pessoas falem tão ligeiramente do futuro, como se o tivessem na mão, como se estivesse em seu poder afastá-lo ou aproximá-lo de acordo com as conveniências e necessidades de cada momento.» (pág. 176)

Aquando da publicação do livro, estava eu numa livraria com o próprio na mão e fui olhada com desdém por uma «senhora» que comentou: «Hum, Saramago!» Arregalei os olhos e sorri...

Alheia à polémica, li-o apenas agora, calmamente. Não sendo surpreendente, visto que toda a gente sabe das crenças do escritor e só o lê quem quer, é uma leitura crua sem espaço para distracções. Aliás, já o Evangelho o era! E gostei! Principalmente das evidências que são difíceis de dissimular e do estilo a que o Prémio Nobel nos habituou.

E, por mero acaso, agorinha mesmo lembrei-me do Nome da Rosa... cujo livro ainda não li, mas a acreditar no filme havia livros proibidos... e havia pessoas queimadas vivas... e ufa!!! que alívio! Já estamos no século XXI, embora às vezes não pareça!

Um 2010 com muitas leituras destas e de outras...